quinta-feira, junho 30, 2011
Rumores cegos de uma máquina fria ou rumores frios de uma máquina cega? Eis aqui um relato de 1793.
quarta-feira, junho 29, 2011
Os germes da 'gaiola de ferro'?
terça-feira, junho 28, 2011
Negação³

segunda-feira, junho 27, 2011
O que dura?
Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas (...) por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados (...) Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.sexta-feira, junho 24, 2011
Estudar ciências sociais – I

De repente você está lá com os seus 17/18 anos e se depara com a decisão crucial sobre o futuro de sua vida: qual curso superior escolher? E aí, sabe-se lá por que cargas d’água, razões, decisões, motivações você escolhe fazer o quê? Ciências Sociais.... Bom, talvez já tenha alguma inclinação para a coisa desde pequeno ou talvez acabe entrando nessa por não se enquadrar em nenhuma das outras categorias disponíveis. A questão é que não se sabe muito bem por que raios alguém escolhe fazer uma graduação dessas.
Lembro-me vagamente daquelas aulas iniciais, em que os professores sempre querem saber ou ter uma idéia sobre qual vento levou o aluno calouro até ali. Ainda bem que recalquei boa parte das falas proferidas. Uma garota chegou a dizer que tinha feito a tal escolha por uma mera e passageira associação entre um ex-presidente e sua formação de sociólogo. “Ah é, ele é sociólogo. Humm... Legal. Também quero ser”. Pois é, creio que é melhor pular essa parte. Mas é exatamente isso o que acontece. Há um quase completo desconhecimento sobre todo o universo que gravita em torno das ciências sociais.
Hoje ainda até existem mais recursos (cibernéticos) e informações para se ter uma noção prévia do que é entrar nesse mundo. Com a internet encontramos textos e mais textos, livros digitalizados, vídeos, páginas eletrônicas dos cursos de graduação e de pós... Tudo isso pode ajudar. Ah, e atualmente tem também a inserção da Sociologia como matéria obrigatória no ensino médio.
É claro que tudo isso ajuda, mas o certo é que você só vai saber mesmo o que é fazer ciências sociais quando já estiver fazendo. Tal fato não é nenhuma anomalia, se comparado aos outros cursos. Poderia listar uma centena de opções, e todas em todas elas a história é a mesma: há uma surpresa com a escolha tão bem pensada. Não se desanime, pode ainda ser pior. Talvez, só depois de terminada a tão sonhada e planejada graduação é que você vai perceber o que aquela escolha realmente significou para seu futuro. E aí, esse aí, pode ser um grande problema. Por enquanto, fiquemos com a nossa introdução ao mundo ciências sociais.
Você fez seu ensino médio e viu que só as matérias de humanas lhe interessavam. História, filosofia e sociologia eram os seus pontos altos no boletim. Você se vê como uma pessoa engajada, interessada nos destinos do mundo; parece que a maioria de seus outros amigos não consegue ao menos entender os verdadeiros problemas humanos que você levanta em conversas e bate-papos. É, meu caro, você já deve ter defendido os palestinos, os tibetanos, os cubanos, os indígenas, os haitianos, os sem-terra, os sem-teto, os animais em extinção... Certamente participou de passeatas e de todo tipo de manifestação. Talvez já tenha visto filmes-cabeça, dos quais mais ninguém gosta. Geralmente esse tipo de contexto e trajetória de vida, mais outros tantos elementos não destacados aqui é que levam alguém a escolher as sociais.
Essa não é uma condição necessária. Fora esse lado mais politizado, há também aqueles que, por várias razões, têm uma inclinação para um viver chamado de alternativo. Aí, aqui entram roqueiros, hippies, punks, straight edge, poetas e malucos de toda estirpe. Em qualquer universidade de médio ou grande porte, é possível notar que os alunos de ciências sociais são tidos como os mais estranhos e recebem nomes muito carinhosos da ‘comunidade’ universitária: os ‘bicho-grilo’, os ‘pé-sujo’... Há sempre alguém com dreadlocks, um outro com uma barba imensa...camisetas do Raul e adereços diversos adornam a alteridade do grupo.
O que em cursos como design gráfico, comunicação, jornalismo, marketing e propaganda é visto muitas vezes como uma demanda de mercado, o “ser alternativo” (ter estilo despojado, criativo...), lá nas sociais é uma realidade não-fabricada (com seu grau de autenticidade que o afasta da gravitação mercadológica). Talvez nenhum outro curso o coloque tão próximo da diversidade. Por trás de cada uma dessas pessoas existe uma complexa teia de relações aos submundos da cultura não-convencional. Vozes díspares e antagônicas vão querer falar, e você vai aprender a conviver com elas, a ouvi-las e a interagir com elas.
Depois de todas essas etapas, você quer saber, afinal, que curso é esse? O que ele representa? Qual a atuação das pessoas que passam por esse tipo de formação? Calma, a história é longa. Até você entender o que é um cientista social vai tempo (o que faz, então, demora mais ainda, risos). Na certa, até lá você já vai ter passado por boas crises existenciais ou até por experiências bizarras, mas isso fica para depois (para outro capítulo). O interessante é que você vai se deparar, em algum momento dessa empreitada, com célebres perguntas: até que ponto suporta seguir? É realmente intelectual o bastante para ser um acadêmico? Quais opções existem sem ser a vida universitária? Faz o curso para ser cientista ou para ser político? Trabalhar pela causa ou ser professor? Dinheiro...dinheiro...dinheiro....Vai perceber que tudo aquilo que demora a compreender, vai ser ainda mais complicado para explicar aos outros, principalmente aos que o rodeiam. Se, para descobrir a diferença entre serviço social e ciências sociais bastam algumas semanas, para todo o resto leva quase a totalidade de uma existência. Enfim, essa não é uma tarefa fácil. Descobrir o universo que representa esse curso de graduação leva muito mais do que seus quatro anos de duração. Por isso, vou trazer para essas linhas um pouco do que consegui entender; farei um pequeno manual de introdução à vida de um cientista social em formação. Isso pode servir para alguma coisa. Sei lá, você é que me diz.... Diante de minhas próprias dificuldades, resolvi escrever alguma coisa para auxiliar quem estiver prestes a fazer essa escolha.
Espero continuar escrevendo sobre isso. Não são conselhos, são somente notas marginais sobre a impressão que tive ao passar por essa experiência.
quarta-feira, junho 22, 2011
Preço da autonomia (Jardim Imperfeito)

Tzvetan Todorov (1939- )
segunda-feira, junho 20, 2011
A Modernidade e o Lager
quarta-feira, junho 15, 2011
"Homo sum..."
De uns tempos para cá, decidi acrescentar citações que encontrava em minhas leituras diárias. A questão é que, mesmo não tendo compromisso algum com esse ser que gerei, é difícil mantê-lo da forma adequada. Vendo de lá para cá, até acho que não fiz nada do que queria.
Agora, veio-me a intenção de fazer unicamente ensaios; de ir treinando os dedos para saltos mais ousados futuramente. Falta a disciplina de escrever um pouco cada dia. Quem sabe um tema por dia? Ou um por semana? Não adianta. A coisa não anda.
Resmungar não adianta.
Falta-me inspiração abstrato-imaginativa (gostou da palavra?!). Será? Acho que o que falta mesmo é vergonha na cara. Risos. Falta-me vontade. Isso até é verdade mesmo. Falta o querer movimentar-se. Que preguiça!
Faltam problemas? Isso não. Definitivamente não.
Faltam soluções? Talvez. Originais.
Do encontro ao conto, do verso ao regresso. Quantas teclas vejo....
sexta-feira, maio 13, 2011
Aos que têm(em) fome
O ardil de dialética me fez acreditar no homem, ser supremo das contradições, artefato herege dos mitos irracionais.
A narrativa do sentido se apequena em meio a intrasigência nefasta dos interesses diários.
Quem é esse ser faminto que anda pelas ruas da cidade? De que ele vive?
Em cada passo, um impulso. Sobrevivência.
Em cada casa, um conforto. Indolência.
De que será que vale o passado? Onde se esboça a imanência? Na mente ou na realidade?
Inverta as imagens, e verá que ainda continua no mesmo lugar. Desespero.
quinta-feira, maio 12, 2011
O barulho pensa?
Esses sons nos trazem uma comunicação muito autêntica que estabelecemos com nós mesmos. Há um sentido subjetivo, às vezes profundo. A música pode até ser uma explicação para outras coisas. Prefiro pensá-la como uma invenção genuinamente humana, expressão da antítese da vida: um caminho fugaz no descaminho.
sexta-feira, maio 06, 2011
Sustentabilidade????


Comentários da internet sobre a propaganda (Renault Fluence):
"É um absurdo uma propaganda que mostra um cara colocando fogo no próprio carro. Em tempos de vandalismo, esse é um péssimo exemplo, principalmente para as crianças que imitam tudo o que veem! Para mim as melhores propagandas são aquelas que conseguem unir beleza, encantamento e boas atitudes para a vida das pessoas. Eu penso que assim conseguem associar suas marcas a coisas legais. Agora eu associo Renault=Irresponsabilidade."
"Qual é o teu problema?Essa é uma das melhores propagandas que eu já vi...propagandas tem que ser engraçadas e chamar a atenção do público...muito criativa,perfeita!Essa propaganda não faz apologia a merda nenhuma,só pode que tu é uma bixinha que quer dar uma de crítico!"
"excelente, parabéns ao pessoal do marketing, uma das melhores propagandas de 2011"
O homem está hoje em dia fascinado pela possibilidade de comprar mais coisas, coisas melhores e, acima de tudo, coisas novas. Está sedento de consumo. O ato de comprar e consumir converteu-se em uma finalidade compulsiva e irracional, porque é um fim em si, com pouca relação com o uso ou o prazer das coisas compradas e consumidas. Comprar a última engenhoca, o último modelo de qualquer coisa que apareça no mercado, é o sonho de todos, em comparação com o que o prazer real do uso é bastante secundário. O homem moderno, caso ousasse falar claramente de sua concepção do céu, descreveria uma visão que pareceria a maior loja de departamentos do mundo, apresentando coisas e engenhocas novas, e ele entre elas com dinheiro bastante para comprá-las. Andaria boquiaberto por esse céu de engenhocas e mercadorias, sendo condição apenas a de que existisse número cada vez maior de coisas novas para ele comprar e, talvez também a de os seus vizinhos serem um pouco menos privilegiados do que ele.
terça-feira, abril 19, 2011
Código de conduta

2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
segunda-feira, abril 18, 2011
Admirável mundo instantâneo
terça-feira, março 29, 2011
Sobre o começo
terça-feira, janeiro 25, 2011
Wie man mit dem Hammer philosophirt

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873). Coleção Os Pensadores. 3ªed. p. 45, 1983.
sexta-feira, dezembro 03, 2010
traiter les faits sociaux scientifiquement?
quarta-feira, setembro 15, 2010
O "espírito", por Sombart

quarta-feira, agosto 25, 2010
A Dialética das Luzes americana

quarta-feira, agosto 18, 2010
A história
quarta-feira, julho 21, 2010
Enigmas do conceito
quarta-feira, junho 30, 2010
Fragen eines lesenden Arbeiter
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída -
Quem a reconstruiu várias vezes? [...]
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os césares? [...]
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
Passagem de Benjamin muito parecida com um poema de Brecht. Extraído de LÖWY, M. Walter Benjamin: avertissement d'incendie. Tradução de Wanda Nogueira Brant.
quarta-feira, junho 23, 2010
A liberdade de seguir o estouro da boiada

sexta-feira, maio 21, 2010
Notas sobre a centralidade do trabalho (uma categoria em vias de extinção?)
A crise engendrou uma reestruturação produtiva que incluiu formas diferenciadas de se produzir e organizar o trabalho, numa conjuntura de fragmentação e fragilização do movimento sindical. Constatou-se a redução do trabalho assalariado (principalmente na indústria), o crescimento de atividades em serviços, a expansão de formas atípicas de inserção, e a ampliação do desemprego em patamares elevados.
Grande parte da produção teórica desse período destaca um conjunto de constatações acerca de transformações que se intensificaram nas últimas décadas. Um aspecto predominaria dentre as novas tendências: o trabalho estaria em crise, e não seria mais a categoria fundante das relações sociais e da construção identitária dos indivíduos.
Inserem-se com significativo impacto nesse quadro teórico as idéias de fim do trabalho e de sua centralidade como categoria analítica (OFFE, 1989), e de fim do proletariado e de seu papel revolucionário (Gorz). No que tange às alterações no processo produtivo, algumas leituras indicam mudanças no núcleo de acumulação capitalista. O trabalho, nessa esfera, também não estaria mais cumprindo papel decisivo e essencial. Vinculado a esse aspecto, a noção de classes sociais tampouco faria sentido numa realidade que estaria reduzindo o proletariado (assim como os conflitos relacionados ao trabalho / luta de classes).
O crescimento, a produção e a geração de riquezas estão, segundo outros autores de perspectivas semelhantes, em estreita associação à geração de conhecimento mediante processamento da informação. A atividade econômica, por conseguinte, estaria numa mudança de estado de um modelo de produção de bens para o de prestação de serviços.
Nesse ambiente de mudanças, inserem-se novas vozes e discursos que não permeiam, de modo direto, o âmbito da produção. Constituem-se movimentos sociais em prol dos negros, das mulheres, dos gays, e de outras minorias. Aspectos culturais ganham destaque em relação aos aspectos econômicos próprios de uma sociedade de classes.
No liame das teorias sobre essas modificações que se iniciam na produção (nos processos de trabalho) e vão se espalhando por diversos ramos da vida social, acrescentam-se o papel preponderante da inovação tecnológica nessa nova configuração, e as novas lógicas de terceirização da produção em redes e novos arranjos produtivos (com presença mais acentuada a partir dos anos 90).
As transformações no âmbito da tecnologia e de sua utilização no universo do trabalho estimulam formulações sobre o processo de redução da jornada de trabalho e ampliação do tempo dedicado ao lazer (tempo livre, ócio). A revolução tecnológica supostamente permitiria usufruir as necessidades da humanidade com menos trabalho.
Ocorrem mudanças tanto na organização da produção (redução dos níveis hierárquicos, maior comunicação), como nos processos de trabalho (trabalho em equipe nas células). O trabalhador passa a desempenhar um papel mais ativo na produção, na qual se exige criatividade, capacidade de adaptação a contextos transitórios e flexíveis, bem como características de polivalência, e cooperação (numa forma de gestão participativa).
Apesar de quase todos os estudiosos do trabalho constatarem mudanças significativas em torno das formas de organização da produção e do processo de trabalho nas últimas décadas, uma parte desses autores vê de forma crítica essas teses que associam essas alterações com o fim do trabalho e de sua centralidade no capitalismo contemporâneo. Haveria outras questões em jogo que não diriam respeito a uma emergência de novas relações de trabalho (em que o trabalhador teria crescente autonomia, cooperação, liberdade e bem-estar).
Nesse sentido, outros autores desmistificam tais teses por meio de estudos que demonstram que atualmente o que há é um contexto de precarização do trabalho, individualização das relações de trabalho, intensificação do trabalho, e prevalência de relações de subordinação do trabalho ao capital.
Como diria Enrique de la Garza Toledo (2001), a sociedade do não-trabalho que imaginavam alguns teóricos no início dos anos oitenta por conta da aplicação das novas tecnologias se converteu em uma sociedade do muito e intenso trabalho para os que têm emprego e da desocupação não desejada nem enriquecedora para os outros.
Sob a atual reestruturação produtiva, essa exploração encontra-se qualitativamente agravada já que, para além da força física humana, o que está sendo extraído pela nova maquinaria que a integra é a capacidade cognitiva do trabalho vivo, aquela que produz idéias. É nesse contexto que estão sendo aplicadas as técnicas de gestão do trabalho provenientes da administração participativa, que visam estimular as qualidades criativas da força de trabalho e, através do incitamento da participação ativa dos trabalhadores de todos os níveis no processo de produção total da empresa, promover a formalização, normalização, e conseqüente materialização dos resultados dessa criatividade. É o que, para Arturo Lahera Sánchez, caracteriza-se como sendo a “conquista dos corações e mentes dos trabalhadores” (LAHERA SANCHEZ, 2005).
Há nesse ambiente a idéia de flexibilização de regulamentações que permeia as relações de trabalho e o mercado de trabalho. Flexibilidade é o que marca um modo de produzir atual (HARVEY, 1992), um modo de organização dos processos de trabalho e da produção chamado de Toyotismo. Para Alves (2000), um dos aspectos inovadores dessa técnica de gestão é a operação de um novo tipo de captura da subjetividade operária pela lógica do capital.
A noção de flexibilização pressiona os modos de produzir de forma a colocar, como elemento-chave na organização do trabalho, uma organização flexível e um trabalhador flexível. As estratégias geralmente se concretizam nas formas de subordinação do trabalhador às necessidades da organização, de modo a exigir uma flexibilização da vida em nome do cumprimento das exigências trazidas pelo trabalho. As novas formas de gestão têm por objetivo a gestão das subjetividades a partir de uma incorporação das metas e dos objetivos da empresa, buscando negar, dessa forma, a exploração da força de trabalho e o conflito capital/trabalho (TITTONI; NARDI, 2006).
Nesse sentido, de acordo com as atuais verificações, não faria muito sentido afirmar o fim do trabalho e de sua centralidade. Muitos equívocos se deram porque os autores vinculados a essas teses confundiram, entre outras coisas, trabalho com o emprego assalariado estabelecido nos moldes do Estado de Bem-estar Social dos países de capitalismo avançado.
König (1994), revendo esses debates, faz uma crítica aos estudiosos da crise da sociedade do trabalho, uma vez que não historicizaram o trabalho dentro de suas peculiaridades sócio-históricas e pautaram suas análises em categorias ideais, a-históricas, e quase metafísicas. Fazendo uma ponte com o ideário pós-moderno que circunda essas concepções de crise e fim do trabalho, pode-se lembrar o que diz Enrique de la Garza Toledo (2001): para “a pós-modernidade a fragmentação não é somente do mundo da vida, senão do todo, da cultura, da personalidade; já não haveria a possibilidade de grandes projetos, nem de grandes sujeitos ou identidades, se vive no sincrônico, o conceito de história perdeu o sentido” (DE LA GARZA TOLEDO, 2001, p.17).
Ao contrário do que pretende a tese da perda de centralidade do trabalho, a crise contemporânea do desemprego não consiste em uma ruptura na estrutura do capitalismo ou na dissolução das relações capitalistas de produção. Significa, sim, uma nova forma de exercício do poder de classe, bem como uma reafirmação vigorosa da lógica capitalista. O descarte progressivo de trabalhadores considerados supérfluos para o processo produtivo é realizado à revelia da classe trabalhadora, com o objetivo de reduzir custos. O desemprego estrutural e a precarização da condição proletária não são processos negociados, mas impostos à classe-que-vive-do-trabalho pela classe proprietária. Trata-se, pois, de uma questão de poder, de luta entre classes, cujo diferencial pode ser constatado nas modernas tentativas de desarticulação dos trabalhadores. A questão central é que o direito e o poder do proprietário de dispor das forças produtivas e dos resultados da produção segundo suas necessidades próprias e em busca da extração da mais-valia permanecem não apenas intactos, como foram contemporaneamente revigorados (ANTUNES, 2001).
Um aspecto marcante e contraditório da hipótese do fim da centralidade do trabalho, entretanto, é que foi concebida no bojo de uma contra ofensiva do capital no sentido de abolir as conquistas que a classe trabalhadora obteve durante o pós-guerra, principalmente nos países centrais. É a quebra de certo equilíbrio destacado por Castel (1998) entre o trabalho e o mercado que possibilita atualmente uma “remercadorização do trabalho”.
Ao colocar o interesse dos trabalhadores como pouco significativo ou até mesmo reacionário, a tese do fim da centralidade do trabalho abriu um flanco na classe trabalhadora e promoveu a cisão da aliança entre os trabalhadores e as classes médias (que sustentava politicamente o crescimento com menor desigualdade no pós-guerra nos países centrais).
O trabalho hoje continua central na acumulação do sistema e na construção de relações sociais e de identidades dos indivíduos. Em um contexto de intensas transformações, o trabalho também segue lógicas heterogênicas, flexíveis e precárias. Ordenamentos diversos conectados a novas formatações produzem uma gama diversa de organização da produção, de processo de trabalho, e de tipos de trabalho. Numa mesma região de um país podem coexistir diferenciadas práticas de contratação de mão-de-obra produtiva: subcontratação, mão-de-obra familiar, trabalho domiciliar, trabalho em tempo parcial, trabalho por tarefas, cooperativas de trabalho, etc.
Deixar de reconhecer a importância e o papel que o trabalho representa nas transformações sociais atuais é ausentar-se teoricamente frente a questões significativas sobre as novas formatações do capitalismo. Acima de tudo, é ocultar as questões políticas que envolvem as atuais relações de trabalho. A realidade capitalista ainda faz-se presente, agora com meios mais engenhosos de tentar camuflar o conflito intrínseco a sua lógica entre o capital e o trabalho.
REFERÊNCIAS
ALVES, G. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: FAPESP; Boitempo, 2000.
ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 5. ed. São Paulo: Boitempo, 2001.
CASTEL, R. As metamorfoses do trabalho. In: FIORI, J. L. et. al. Globalização: o fato e o mito. Rio de Janeiro: UERJ, 1998.
DE LA GARZA TOLEDO, E. Problemas clásicos y actuales de la crisis del trabajo. In: DE LA GARZA TOLEDO, E; NEFFA, J. C. (Comps.). El trabajo del futuro. El futuro del trabajo. Buenos Aires: Clacso-Asdi, 2001.
HARVEY, D. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. Adail Ubirajara Sobral; Maria Stela Gonçalves. 10. ed. São Paulo: Loyola, 2001.
KÖNIG, H. A crise da sociedade de trabalho e o futuro do trabalho: crítica de um debate atual. In: MARKERT, W. (Org.). Teorias de Educação do Iluminismo, Conceitos de Trabalho e do Sujeito: contribuições para uma Teoria Crítica da Formação do Homem. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
LAHERA SANCHEZ, A. Conquistando corazones y las almas de los trabajadores: la participación de los trabajadores en la calidad total como nuevo dispositivo disicplinario. In: CASTILLO, J. J. (director) El Trabajo Recobrado. Una evaluación del trabajo realmente existente en España. Madrid: Miño y Dávila, 2005.
OFFE, C. Trabalho: a categoria sociológica chave? In: ______. Capitalismo Desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1989.
TITTONI, J; NARDI, H. C. Subjetividade e trabalho. In: CATTANI, A. D; HOLZMANN. (Orgs). Dicionário de Trabalho e Tecnologia. Porto Alegre: UFRGS, 2006.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Monsieur le Capital et Madame la Terre

segunda-feira, agosto 31, 2009
Mímesis e carceragem
segunda-feira, agosto 24, 2009
No fim da tarde: pagamento

quinta-feira, agosto 20, 2009
Memórias da práxis: XI tese

terça-feira, agosto 18, 2009
sexta-feira, julho 03, 2009
Sísifos do dia-a-dia

Um dos momentos mais explícitos dessa catástrofe humana se deu nos campos de concentração que se proliferaram nos territórios da Europa. Auschwitz é o exemplo do mais monstruoso uso da razão, uma utilização racional para a produção de irracionalidades impensáveis em tal grau de esclarecimento. “Milhões de homens inocentes [...] foram sistematicamente assassinados” (ADORNO, 1970c, p.81) em um fenômeno que não deve ser tratado como uma aberração na história, mas como algo que era possível de ser feito naquela época segundo a forma unilateral pela qual foi conduzido o desenvolvimento humano. Tal fato não representa uma “regressão” em direção ao passado, em direção aos primórdios da raça humana, mas se trata de um dos possíveis rostos da civilização industrial ocidental. “Que aquilo tenha acontecido é por si só indício de tendência extremamente poderosa da sociedade" (ADORNO, 1970c, p.81). Esse tipo de processo civilizador constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e emancipatória dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossos tempos.
Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, ‘a organização científica do trabalho’ de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber (LÖWY, 2000, p.51).
Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa estar dormindo para produzir monstros[1]. Pior: quando acordada, produz as piores e inimagináveis monstruosidades que ela própria desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso racional, ético ou moral, porque, em nossa época, até a razão e a linguagem são usadas para fins irracionais.
Cada vez mais a razão é usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos nazistas, soviéticos, e na carnificina americana que levou à dizimação de duas cidades japonesas por uma demonstração de força e poder.
Benjamin, voraz crítico do progresso capitalista, vê esse suposto movimento do progresso em direção ao futuro da nossa civilização, como algo prenhe de catástrofes, gestadas no próprio coração da modernidade. Se por meio dele atingimos, como nunca na história da humanidade, um patamar excepcional de bem-estar material, podemos também creditar ao progresso uma exploração mais destrutiva, sistemática e mortífera da natureza e o inegável aperfeiçoamento das técnicas de guerra e de extermínio de seres humanos. Igualmente, podemos creditar a ele, como uma perfeita combinação entre progresso técnico e regressão social, a emergência do fascismo, que não deve ser descartada como historicamente acidental, nem como um estado de exceção político/social que não se repetirá. Num de seus mais famosos e últimos escritos, as “Teses sobre o conceito de história”, o autor adverte o que para ele é central no processo da Aufklärung (esclarecimento): “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1996c, p.225).
Havia também uma outra catástrofe que preocupava Benjamin: a que se apresentava ainda como a “eterna repetição do mesmo”, a que transforma grandes massas em Sísifos e Tântalos (Benjamin Apud LÖWY, 1990, p.211; LÖWY, 1992, p.121), condenados à mesmice a ver os objetos de seu desejo diante de seus olhos e infinitamente distantes de sua posse. Movimentos mecânicos, gestos automáticos, tarefas fragmentadas, pensamentos fragmentados, mundo em eterna incompletude, tudo sempre disfarçado em moda e novidade. Substituição frenética do novo pelo cada vez mais novo que já nasce obsoleto.
Essa é uma barbárie menos explícita, está difusa no meio social entre um trânsito dinâmico de ideologias pulverizadas pelos grandes aparelhos estatais. É por esse tipo de ordem que a razão instrumental irá se hipertrofiar, dominando todas as esferas da vida social. O discurso técnico-calculista irá permear as mediações humanas e irá se tornar o imperativo da ordem do mundo capitalista, em que, antes de tudo, está presente o lucro, a produção, a eficiência e a economia. A ética e os preceitos morais são inócuos diante do desenvolvimento desenfreado da técnica. Ao homem só cabe se adaptar a sua lógica perversa.
O que se percebe, desde os primórdios da utilização da racionalidade como ordenação do mundo e organização do cosmos, até a caótica produção racional do capitalismo tardio, é que a razão humana tem se frustrado em sua intenção de descobrir a verdade sobre o seu uso, de se auto-iluminar (autocriticar). A ela cabe recuperar sua concepção objetiva de transformação dos homens e do mundo, por meio dos homens.
Ao se hipertrofiar, a razão instrumental penetra no meio administrativo das grandes empresas, no meio jurídico, nos grandes laboratórios, nos mass media, nos exércitos, nas universidades, enfim, em tudo o que se refira às relações de produção dessa sociedade e a sua forma de controle e manutenção. Essa nova conjuntura social é o cenário de investigação da Teoria Crítica com relação àquilo que seus membros diziam ser o “mundo administrado”. Esse último seria a realidade do pós-guerra, ao qual o Estado não só tem o domínio legítimo da coerção física, como também da coerção ideologicamente aparelhada pelos meios de comunicação de massa. A dominação se estende da fábrica às mentes e ao inconsciente das pessoas em torno de um controle absoluto e ilimitado pela burguesia. O mundo administrado é aquele em que se desapareceram os esconderijos (ADORNO, 1966, p.91). Ao cidadão comum, resta nada mais do que agir mecanicamente segundo o direcionamento das leis do mercado e atuar no mundo mediante duas ações: consumir e descartar tudo o que estiver ao alcance financeiro de um mundo em que a troca é generalizada e impessoal. Os teóricos frankfurtianos se lançam na crítica à razão instrumental, para descobrir o porquê de a complexidade do todo ser reduzida à particularidade de coisa; qual o motivo de esse tipo de razão instrumentalizar tudo, até a vida humana, como um meio por si só.
[1] “Auschwitz não é para se considerar por uma analogia com a destruição das cidades-Estado da Grécia antiga, como um simples aumento gradual do horror, diante do qual é possível manter sua alma tranqüila. Mas certamente o martírio e a humilhação sem precedente daqueles que foram deportados como gado irradia uma luz mortalmente crua sobre o passado mais longínquo, em cuja violência obtusa e sem planejamento já estava posta de maneira teleológica a violência tramada cientificamente” (ADORNO, 1993, p.205).
quarta-feira, julho 01, 2009
"Meine Damen und Herren: das ist sehr dialektisch!" (Adorno)
Pense sobre isso o que quiser, mas pense. Weiterdenken!


