quinta-feira, junho 30, 2011

Rumores cegos de uma máquina fria ou rumores frios de uma máquina cega? Eis aqui um relato de 1793.



Dissociaram-se (neste processo de dilaceramento) (...) as leis dos costumes; separaram-se do trabalho o prazer, dos meios os fins, do esforço a compensação. Ligado eternamente apenas a um pequeno fragmento do todo, o homem se transforma ao fim em pequeno fragmento; ouvindo eternamente só o ruído monótono da roda que gira, nunca desenvolve a harmonia de sua natureza e, em vez de representar no seu ser a humanidade, torna-se apenas em reprodução da sua especialidade (...). Assim, pouco a pouco, a vida individual concreta é devorada a fim de poder alimentar a miserável existência da abstrata vida geral.

Friedrich Schiller (1759-1805). In: Teatro Moderno, de Anatol Rosenfeld.

quarta-feira, junho 29, 2011

Os germes da 'gaiola de ferro'?



Se o homem, pelo saber e pelo gênio criador, domesticou as forças da natureza, estas últimas vingam-se dele, submetendo-o, na proporção em que ele as usa a um verdadeiro despotismo independente de qualquer organização social. Querer abolir a autoridade na grande indústria equivale a querer abolir a própria indústria, a destruir o tear mecânico para retroceder à roca.

Friedrich Engels (1820-1895). On authority.

terça-feira, junho 28, 2011

Negação³



O pensamento dialético começa com a experiência de que o mundo é não-livre; isto quer dizer que o homem e a natureza existem em condições de alienação, existem como "outra coisa que não o que eles são". Qualquer modo de pensamento exclui essa contradição de sua lógica com uma lógica falha. O "pensamento corresponde" à realidade apenas na medida em que transforma a realidade, compreende sua estrutura contraditória. Aqui o princípio dialético leva o pensamento para além dos limites da filosofia. Pois compreender a realidade significa compreender o que as coisas são, e isto, por sua vez, significa rejeitar sua mera facticidade. A rejeição é o processo do pensamento tanto quanto da ação (...) O pensamento dialético torna-se assim negativo em si mesmo, sua função é romper com autoconfiança e auto-satisfação do bom senso, é solapar a confiança sinistra no poder e na linguagem dos fatos. É demonstrar que a não-liberdade está tão no cerne das coisas, que o desenvolvimento das contradições internas leva necessariamente a uma mudança qualitativa: a explosão e catástrofe do estado estabelecido das coisas.

Herbert Marcuse (1898-1979). Razão e revolução.

segunda-feira, junho 27, 2011

O que dura?

Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas (...) por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados (...) Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.

Assim, toda a questão se reduz a isto: pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?

Paul Valéry (1871-1945)

sexta-feira, junho 24, 2011

Estudar ciências sociais – I

"E depois de estrangular o último burocrata nas tripas do último sociólogo, ainda teremos problemas?" (pichação em um muro) Maio de 1968, Paris.



De repente você está lá com os seus 17/18 anos e se depara com a decisão crucial sobre o futuro de sua vida: qual curso superior escolher? E aí, sabe-se lá por que cargas d’água, razões, decisões, motivações você escolhe fazer o quê? Ciências Sociais.... Bom, talvez já tenha alguma inclinação para a coisa desde pequeno ou talvez acabe entrando nessa por não se enquadrar em nenhuma das outras categorias disponíveis. A questão é que não se sabe muito bem por que raios alguém escolhe fazer uma graduação dessas.
Lembro-me vagamente daquelas aulas iniciais, em que os professores sempre querem saber ou ter uma idéia sobre qual vento levou o aluno calouro até ali. Ainda bem que recalquei boa parte das falas proferidas. Uma garota chegou a dizer que tinha feito a tal escolha por uma mera e passageira associação entre um ex-presidente e sua formação de sociólogo. “Ah é, ele é sociólogo. Humm... Legal. Também quero ser”. Pois é, creio que é melhor pular essa parte. Mas é exatamente isso o que acontece. Há um quase completo desconhecimento sobre todo o universo que gravita em torno das ciências sociais.
Hoje ainda até existem mais recursos (cibernéticos) e informações para se ter uma noção prévia do que é entrar nesse mundo. Com a internet encontramos textos e mais textos, livros digitalizados, vídeos, páginas eletrônicas dos cursos de graduação e de pós... Tudo isso pode ajudar. Ah, e atualmente tem também a inserção da Sociologia como matéria obrigatória no ensino médio.
É claro que tudo isso ajuda, mas o certo é que você só vai saber mesmo o que é fazer ciências sociais quando já estiver fazendo. Tal fato não é nenhuma anomalia, se comparado aos outros cursos. Poderia listar uma centena de opções, e todas em todas elas a história é a mesma: há uma surpresa com a escolha tão bem pensada. Não se desanime, pode ainda ser pior. Talvez, só depois de terminada a tão sonhada e planejada graduação é que você vai perceber o que aquela escolha realmente significou para seu futuro. E aí, esse aí, pode ser um grande problema. Por enquanto, fiquemos com a nossa introdução ao mundo ciências sociais.
Você fez seu ensino médio e viu que só as matérias de humanas lhe interessavam. História, filosofia e sociologia eram os seus pontos altos no boletim. Você se vê como uma pessoa engajada, interessada nos destinos do mundo; parece que a maioria de seus outros amigos não consegue ao menos entender os verdadeiros problemas humanos que você levanta em conversas e bate-papos. É, meu caro, você já deve ter defendido os palestinos, os tibetanos, os cubanos, os indígenas, os haitianos, os sem-terra, os sem-teto, os animais em extinção... Certamente participou de passeatas e de todo tipo de manifestação. Talvez já tenha visto filmes-cabeça, dos quais mais ninguém gosta. Geralmente esse tipo de contexto e trajetória de vida, mais outros tantos elementos não destacados aqui é que levam alguém a escolher as sociais.
Essa não é uma condição necessária. Fora esse lado mais politizado, há também aqueles que, por várias razões, têm uma inclinação para um viver chamado de alternativo. Aí, aqui entram roqueiros, hippies, punks, straight edge, poetas e malucos de toda estirpe. Em qualquer universidade de médio ou grande porte, é possível notar que os alunos de ciências sociais são tidos como os mais estranhos e recebem nomes muito carinhosos da ‘comunidade’ universitária: os ‘bicho-grilo’, os ‘pé-sujo’... Há sempre alguém com dreadlocks, um outro com uma barba imensa...camisetas do Raul e adereços diversos adornam a alteridade do grupo.
O que em cursos como design gráfico, comunicação, jornalismo, marketing e propaganda é visto muitas vezes como uma demanda de mercado, o “ser alternativo” (ter estilo despojado, criativo...), lá nas sociais é uma realidade não-fabricada (com seu grau de autenticidade que o afasta da gravitação mercadológica). Talvez nenhum outro curso o coloque tão próximo da diversidade. Por trás de cada uma dessas pessoas existe uma complexa teia de relações aos submundos da cultura não-convencional. Vozes díspares e antagônicas vão querer falar, e você vai aprender a conviver com elas, a ouvi-las e a interagir com elas.


Depois de todas essas etapas, você quer saber, afinal, que curso é esse? O que ele representa? Qual a atuação das pessoas que passam por esse tipo de formação? Calma, a história é longa. Até você entender o que é um cientista social vai tempo (o que faz, então, demora mais ainda, risos). Na certa, até lá você já vai ter passado por boas crises existenciais ou até por experiências bizarras, mas isso fica para depois (para outro capítulo). O interessante é que você vai se deparar, em algum momento dessa empreitada, com célebres perguntas: até que ponto suporta seguir? É realmente intelectual o bastante para ser um acadêmico? Quais opções existem sem ser a vida universitária? Faz o curso para ser cientista ou para ser político? Trabalhar pela causa ou ser professor? Dinheiro...dinheiro...dinheiro....
Vai perceber que tudo aquilo que demora a compreender, vai ser ainda mais complicado para explicar aos outros, principalmente aos que o rodeiam. Se, para descobrir a diferença entre serviço social e ciências sociais bastam algumas semanas, para todo o resto leva quase a totalidade de uma existência. Enfim, essa não é uma tarefa fácil. Descobrir o universo que representa esse curso de graduação leva muito mais do que seus quatro anos de duração. Por isso, vou trazer para essas linhas um pouco do que consegui entender; farei um pequeno manual de introdução à vida de um cientista social em formação. Isso pode servir para alguma coisa. Sei lá, você é que me diz.... Diante de minhas próprias dificuldades, resolvi escrever alguma coisa para auxiliar quem estiver prestes a fazer essa escolha.
Espero continuar escrevendo sobre isso. Não são conselhos, são somente notas marginais sobre a impressão que tive ao passar por essa experiência.

quarta-feira, junho 22, 2011

Preço da autonomia (Jardim Imperfeito)




Tentarás então agarrar-te a teu ego, mas este será por sua vez ameaçado de deslocamento. Serás atravessado por correntes sobre as quais não terás nenhum domínio; crerás decidir, escolher e querer livremente, quando na verdade essas forças subterrâneas o farão em teu lugar. De modo que perderás as vantagens que te parecem justificar todos esses sacrifícios. Esse ego será apenas uma coleção heróclita de pulsões, uma dispensão ao infinito; será um ser alienado e inautêntico, não merecendo mais ser chamado de "sujeito".



Tzvetan Todorov (1939- )

segunda-feira, junho 20, 2011

A Modernidade e o Lager



Tudo agora tornou-se caos: estou só no centro de um nada turvo cinzento. E, de repente, sei o que isso significa, e sei também que sempre soube disso: estou de novo no lager, e nada era verdadeiro fora do lager.



Primo Levi (1919-1987)

quarta-feira, junho 15, 2011

"Homo sum..."

Quando iniciei essa idéia de postar conteúdos em um blog, não imaginei que tal processo fosse se prolongar por tanto tempo. Já nem sei quantos anos são. O certo é que esse espaço já mudou de nome várias vezes e teve lá suas novas roupagens. De um espaço mais privado e próprio do meu mundinho, fui tentando expandir o horizonte do conteúdo, sem com isso ter um amontoado genérico de coisas inclassificáveis. Já não é de hoje que o enfoque do que é postado aqui é puramente acadêmico.
De uns tempos para cá, decidi acrescentar citações que encontrava em minhas leituras diárias. A questão é que, mesmo não tendo compromisso algum com esse ser que gerei, é difícil mantê-lo da forma adequada. Vendo de lá para cá, até acho que não fiz nada do que queria.
Agora, veio-me a intenção de fazer unicamente ensaios; de ir treinando os dedos para saltos mais ousados futuramente. Falta a disciplina de escrever um pouco cada dia. Quem sabe um tema por dia? Ou um por semana? Não adianta. A coisa não anda.
Resmungar não adianta.
Falta-me inspiração abstrato-imaginativa (gostou da palavra?!). Será? Acho que o que falta mesmo é vergonha na cara. Risos. Falta-me vontade. Isso até é verdade mesmo. Falta o querer movimentar-se. Que preguiça!
Faltam problemas? Isso não. Definitivamente não.
Faltam soluções? Talvez. Originais.
Do encontro ao conto, do verso ao regresso. Quantas teclas vejo....

sexta-feira, maio 13, 2011

Aos que têm(em) fome

A ilusão de saber é o artifício ilusório de ser. Não se é, se não se sabe. Mas se pensa saber, na medida em que se supõe ser.
O ardil de dialética me fez acreditar no homem, ser supremo das contradições, artefato herege dos mitos irracionais.
A narrativa do sentido se apequena em meio a intrasigência nefasta dos interesses diários.
Quem é esse ser faminto que anda pelas ruas da cidade? De que ele vive?
Em cada passo, um impulso. Sobrevivência.
Em cada casa, um conforto. Indolência.
De que será que vale o passado? Onde se esboça a imanência? Na mente ou na realidade?
Inverta as imagens, e verá que ainda continua no mesmo lugar. Desespero.

quinta-feira, maio 12, 2011

O barulho pensa?

Desde pequeno tenho atração por música e até por ruídos estranhos. Confesso que não sei bem o porquê disso. A música já foi tão central em minha vida a ponto de ser a única referência de mundo da qual eu dispunha. Vivia entorpecido por sons e por batidas. Aquilo era êxtase puro, vontade insaciável, vício descontrolado. Posicionei-me no pequeno universo de seres que seguem as composições como se fossem mensagens sagradas. E havia mesmo algo de sobrenatural naquilo tudo. Como um mantra, entoávamos cantos que só os apreciadores mais íntimos conheciam o significado. A cada show, a cada disco, era um novo impulso de um organismo vivo e autônomo que se retroalimentava. Por bons anos vivi intensamente o espírito dessa arte tão fascinante e milenar. Hoje já não tenho mais o mesmo ímpeto musical. Mas a chama persiste.
Esses sons nos trazem uma comunicação muito autêntica que estabelecemos com nós mesmos. Há um sentido subjetivo, às vezes profundo. A música pode até ser uma explicação para outras coisas. Prefiro pensá-la como uma invenção genuinamente humana, expressão da antítese da vida: um caminho fugaz no descaminho.

sexta-feira, maio 06, 2011

Sustentabilidade????



Uma discussão minimamente decente sobre esse tema não pode excluir o dano que a cultura do consumo propaga nas mentes hoje em dia. A busca por propagandas criativas gera monstruosidades como essa destacada abaixo:










Comentários da internet sobre a propaganda (Renault Fluence):
"É um absurdo uma propaganda que mostra um cara colocando fogo no próprio carro. Em tempos de vandalismo, esse é um péssimo exemplo, principalmente para as crianças que imitam tudo o que veem! Para mim as melhores propagandas são aquelas que conseguem unir beleza, encantamento e boas atitudes para a vida das pessoas. Eu penso que assim conseguem associar suas marcas a coisas legais. Agora eu associo Renault=Irresponsabilidade."


"Qual é o teu problema?Essa é uma das melhores propagandas que eu já vi...propagandas tem que ser engraçadas e chamar a atenção do público...muito criativa,perfeita!Essa propaganda não faz apologia a merda nenhuma,só pode que tu é uma bixinha que quer dar uma de crítico!"
"excelente, parabéns ao pessoal do marketing, uma das melhores propagandas de 2011"




O homem está hoje em dia fascinado pela possibilidade de comprar mais coisas, coisas melhores e, acima de tudo, coisas novas. Está sedento de consumo. O ato de comprar e consumir converteu-se em uma finalidade compulsiva e irracional, porque é um fim em si, com pouca relação com o uso ou o prazer das coisas compradas e consumidas. Comprar a última engenhoca, o último modelo de qualquer coisa que apareça no mercado, é o sonho de todos, em comparação com o que o prazer real do uso é bastante secundário. O homem moderno, caso ousasse falar claramente de sua concepção do céu, descreveria uma visão que pareceria a maior loja de departamentos do mundo, apresentando coisas e engenhocas novas, e ele entre elas com dinheiro bastante para comprá-las. Andaria boquiaberto por esse céu de engenhocas e mercadorias, sendo condição apenas a de que existisse número cada vez maior de coisas novas para ele comprar e, talvez também a de os seus vizinhos serem um pouco menos privilegiados do que ele.


Erich Fromm (1900-1980). Psicanálise da sociedade contemporânea.

terça-feira, abril 19, 2011

Código de conduta




1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.


Bertrand Russell (1872-1970)

segunda-feira, abril 18, 2011

Admirável mundo instantâneo

Há momentos na vida em que a indecisão é um lugar-comum entre vazios e descrenças. O árido deserto de opções só traz mais inocuidade na vontade fugaz manifestada diuturnamente por pequenos sopros de desespero. Grandes templos de adoração são construídos e modificados ao movimento dos megabytes transmitidos por um computador. Recombinar. Parece ser essa a palavra que mescla os retalhos finos e empobrecidos dessa grande rede de identidades mutantes. Ao mesmo tempo, o sólido ainda persiste. A desigualdade se reforma sob os mesmos moldes. A intolerância se refunda com base nos mesmos princípios segregantes. O mundo ainda é o mesmo: norte/sul, centro/margem, cultura/barbárie, ricos/pobres, brancos/negros, ocidente/oriente, certos/errados. O que há de novo nessa novidade? O que há de vivo nessa liberdade? Os bolsos continuam os mesmos e os muros também.

terça-feira, março 29, 2011

Sobre o começo

Às vezes, parece que a coisa mais difícil que existe é começar. Por que sentimos tanto quando começamos algo? Por que é tão complicado dar início a alguma coisa? Começo me recorda narrativa, o início das histórias, o momento em que o movimento ganha forma material e nos faz esperar pelos fatos seguintes. De algum modo temos que colocar um ponto numa linha do tempo para dizer que aquele é o início, assim como nas corridas (a linha de largada). Então o começo é relativo, sempre está em conexão com um processo mais amplo que implica pressupor seu fim. Eu começo a escrever essas linhas e me pergunto sobre essas e outras questões. De onde começar? Começar o quê? Para quê? Se começo é início, o que havia antes? Quando sabemos realmente que começamos algo? Como temos provas concretas disso? O que é o começo fora da lógica que nos foi legada pelos gregos? Começar significa abrir mão do passado e gerar algo novo? É uma ruptura? É uma experiência? É um ponto determinado no tempo? Afinal, por que resolvi escrever depois de tantos anos? Se eu estabeleci um começo, é pelo fato de imaginar que possa dar conta de todo o resto. Então começo aqui algo que não sei o que é e nem para onde vai parar. Sinto apenas a necessidade de escrever.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Wie man mit dem Hammer philosophirt


Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades, em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante desse mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo como um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873). Coleção Os Pensadores. 3ªed. p. 45, 1983.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

traiter les faits sociaux scientifiquement?

Un espirit cultivé aime mieux ne pas vivre que de recononcer aux joies de l'intelligence.
Émile Durkheim. Éducation et sociologie. Paris: Presses Universitaires de France, 1973, p. 43.

quarta-feira, setembro 15, 2010

O "espírito", por Sombart


Na alma do empresário, a conseqüência de um excesso de trabalho, e especialmente pela ocupação na questão de negócios que não lhe deixa tempo para outra coisa, todos os demais interesses esfumam-se; natureza, arte, literatura, estado, amigos, família, não podem exercer já nenhuma sedução sobre ele, que conseqüentemente sente-se possuído de um insuportável sentimento de tédio e de desolação no instante em que abandona o mundo dos números, que lhe dá apoio, calor e vida. Nesse mundo dos negócios, pelo contrário, encontra tudo o que lhe renova, lhe dá ânimo, lhe faz feliz; tem a sensação de encontrar ali sua verdadeira pátria, a força da juventude que lhe cria novas forças, o manancial que lhe dá nova vida quando está sedento. Não tem nada de estranho que finalmente acabe consagrando seu amor a esse mundo.

Werner Sombart (1863-1941). El apogeo del capitalismo

quarta-feira, agosto 25, 2010

A Dialética das Luzes americana


As esperanças da espécie humana parecem hoje mais distantes de serem realizadas do que mesmo nas épocas ainda tateantes em que primeiro foram formuladas pelos humanistas. Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. Assim, o progresso ameaça anular o que se supõe ser o seu próprio objetivo: a idéia de homem.


Max Horkheimer, Eclipse da Razão

quarta-feira, agosto 18, 2010

A história

A história tira ainda mais daqueles que
tudo perderam e dá ainda mais àqueles que tudo
tomaram. A história nunca confessa.
Maurice Merleau-Ponty (1908-1961)

quarta-feira, julho 21, 2010

Enigmas do conceito

"Há um engodo presente em todo ato de definir: através do conceito é fixado algo a respeito da coisa que facilita seu manejo, por isso nem sujeito nem objeto podem ser reduzidos à sua definição, há sempre algo que fica de fora. Definir é delimitar, impor limites à coisa para que se torne assimilável conceitualmente. O conceito é necessário, mas não se deve pensá-lo como o espaço dentro do qual tudo se encaixará e aparecerá de modo claro à compreensão. A pretensão de definição de subsumir em si um objeto deve cessar para garantir sua própria validade. Até porque, como bem nota Adorno, em Terminologia filosófica, o procedimento da definição não é suficiente à filosofia, já que os próprios conceitos modificam-se (Adorno, 1973d, p.9). Graças à dialética, o conceito é possível, sem decidir-se por uma rigidez parcial que acabe, por ver a verdade apenas no particular ou apenas no universal. Se a questão não é eliminar a definição - pois, mesmo sendo falta de liberdade, ela é necessária ao pensar - deve-se propô-la de modo dialético"
(TIBURI, Márcia. Metamorfoses do conceito: ética e dialética negativa em Theodor Adorno. UFRGS, 2005, p. 122).

quarta-feira, junho 30, 2010

Fragen eines lesenden Arbeiter

De Benjamin para Brecht:

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída -
Quem a reconstruiu várias vezes? [...]
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os césares? [...]
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.

Passagem de Benjamin muito parecida com um poema de Brecht. Extraído de LÖWY, M. Walter Benjamin: avertissement d'incendie. Tradução de Wanda Nogueira Brant.

quarta-feira, junho 23, 2010

A liberdade de seguir o estouro da boiada


Nenhum domador jamais teve tanto poder sobre seus animais. Solta-se o povo como massa leitora, e este corre pelas ruas, lançando-se sobre o alvo indicado, quebrando janelas e ameaçando. Um leve aceno com o chicote da imprensa, e a massa se acalma e volta para casa. A imprensa é hoje um exército com tropas cuidadosamente organizadas, que têm jornalistas como oficiais e leitores soldados. A situação é a mesma em qualquer exército: o soldado obedece cegamente, e as modificações nos objetivos de guerra e nos planos de operação são feitas sem o seu conhecimento. O leitor nada sabe do que se pretende com ele, e nem deve saber, nem mesmo o papel que desempenha nisso tudo. Não existe sátira mais terrível da liberdade de pensamento. Antigamente não se podia ousar pensar livremente; a gora isto é permitido, mas não se consegue fazê-lo. As pessoas desejam pensar apenas o que se deseja que elas pensem, e exatamente isso é sentido como liberdade
Oswald Spengler (1880 - 1936)

sexta-feira, maio 21, 2010

Notas sobre a centralidade do trabalho (uma categoria em vias de extinção?)



No contexto da crise de lucratividade do sistema capitalista e do declínio do Estado de bem-estar social (que trazia garantias e conquistas dos trabalhadores) nas potências ocidentais, várias foram as teorias que, em meio a transformações sociais, tecnológicas e políticas, empenharam-se em reavaliar o papel do trabalho na sociedade capitalista. De um lado, as mudanças no ambiente produtivo (entre as forças produtivas e as relações de produção) suscitaram o aparecimento de novas questões sobre a centralidade do papel do trabalho na produção, na sociedade e na construção de identidades. De outro, tais modificações estariam significando um momento de transição para um novo paradigma societal, sustentado por outros pilares de estruturação (pós-moderna, pós-industrial, informacional, entre outras).
A crise engendrou uma reestruturação produtiva que incluiu formas diferenciadas de se produzir e organizar o trabalho, numa conjuntura de fragmentação e fragilização do movimento sindical. Constatou-se a redução do trabalho assalariado (principalmente na indústria), o crescimento de atividades em serviços, a expansão de formas atípicas de inserção, e a ampliação do desemprego em patamares elevados.
Grande parte da produção teórica desse período destaca um conjunto de constatações acerca de transformações que se intensificaram nas últimas décadas. Um aspecto predominaria dentre as novas tendências: o trabalho estaria em crise, e não seria mais a categoria fundante das relações sociais e da construção identitária dos indivíduos.
Inserem-se com significativo impacto nesse quadro teórico as idéias de fim do trabalho e de sua centralidade como categoria analítica (OFFE, 1989), e de fim do proletariado e de seu papel revolucionário (Gorz). No que tange às alterações no processo produtivo, algumas leituras indicam mudanças no núcleo de acumulação capitalista. O trabalho, nessa esfera, também não estaria mais cumprindo papel decisivo e essencial. Vinculado a esse aspecto, a noção de classes sociais tampouco faria sentido numa realidade que estaria reduzindo o proletariado (assim como os conflitos relacionados ao trabalho / luta de classes).
O crescimento, a produção e a geração de riquezas estão, segundo outros autores de perspectivas semelhantes, em estreita associação à geração de conhecimento mediante processamento da informação. A atividade econômica, por conseguinte, estaria numa mudança de estado de um modelo de produção de bens para o de prestação de serviços.
Nesse ambiente de mudanças, inserem-se novas vozes e discursos que não permeiam, de modo direto, o âmbito da produção. Constituem-se movimentos sociais em prol dos negros, das mulheres, dos gays, e de outras minorias. Aspectos culturais ganham destaque em relação aos aspectos econômicos próprios de uma sociedade de classes.
No liame das teorias sobre essas modificações que se iniciam na produção (nos processos de trabalho) e vão se espalhando por diversos ramos da vida social, acrescentam-se o papel preponderante da inovação tecnológica nessa nova configuração, e as novas lógicas de terceirização da produção em redes e novos arranjos produtivos (com presença mais acentuada a partir dos anos 90).
As transformações no âmbito da tecnologia e de sua utilização no universo do trabalho estimulam formulações sobre o processo de redução da jornada de trabalho e ampliação do tempo dedicado ao lazer (tempo livre, ócio). A revolução tecnológica supostamente permitiria usufruir as necessidades da humanidade com menos trabalho.
Ocorrem mudanças tanto na organização da produção (redução dos níveis hierárquicos, maior comunicação), como nos processos de trabalho (trabalho em equipe nas células). O trabalhador passa a desempenhar um papel mais ativo na produção, na qual se exige criatividade, capacidade de adaptação a contextos transitórios e flexíveis, bem como características de polivalência, e cooperação (numa forma de gestão participativa).
Apesar de quase todos os estudiosos do trabalho constatarem mudanças significativas em torno das formas de organização da produção e do processo de trabalho nas últimas décadas, uma parte desses autores vê de forma crítica essas teses que associam essas alterações com o fim do trabalho e de sua centralidade no capitalismo contemporâneo. Haveria outras questões em jogo que não diriam respeito a uma emergência de novas relações de trabalho (em que o trabalhador teria crescente autonomia, cooperação, liberdade e bem-estar).
Nesse sentido, outros autores desmistificam tais teses por meio de estudos que demonstram que atualmente o que há é um contexto de precarização do trabalho, individualização das relações de trabalho, intensificação do trabalho, e prevalência de relações de subordinação do trabalho ao capital.
Como diria Enrique de la Garza Toledo (2001), a sociedade do não-trabalho que imaginavam alguns teóricos no início dos anos oitenta por conta da aplicação das novas tecnologias se converteu em uma sociedade do muito e intenso trabalho para os que têm emprego e da desocupação não desejada nem enriquecedora para os outros.
Sob a atual reestruturação produtiva, essa exploração encontra-se qualitativamente agravada já que, para além da força física humana, o que está sendo extraído pela nova maquinaria que a integra é a capacidade cognitiva do trabalho vivo, aquela que produz idéias. É nesse contexto que estão sendo aplicadas as técnicas de gestão do trabalho provenientes da administração participativa, que visam estimular as qualidades criativas da força de trabalho e, através do incitamento da participação ativa dos trabalhadores de todos os níveis no processo de produção total da empresa, promover a formalização, normalização, e conseqüente materialização dos resultados dessa criatividade. É o que, para Arturo Lahera Sánchez, caracteriza-se como sendo a “conquista dos corações e mentes dos trabalhadores” (LAHERA SANCHEZ, 2005).
Há nesse ambiente a idéia de flexibilização de regulamentações que permeia as relações de trabalho e o mercado de trabalho. Flexibilidade é o que marca um modo de produzir atual (HARVEY, 1992), um modo de organização dos processos de trabalho e da produção chamado de Toyotismo. Para Alves (2000), um dos aspectos inovadores dessa técnica de gestão é a operação de um novo tipo de captura da subjetividade operária pela lógica do capital.
A noção de flexibilização pressiona os modos de produzir de forma a colocar, como elemento-chave na organização do trabalho, uma organização flexível e um trabalhador flexível. As estratégias geralmente se concretizam nas formas de subordinação do trabalhador às necessidades da organização, de modo a exigir uma flexibilização da vida em nome do cumprimento das exigências trazidas pelo trabalho. As novas formas de gestão têm por objetivo a gestão das subjetividades a partir de uma incorporação das metas e dos objetivos da empresa, buscando negar, dessa forma, a exploração da força de trabalho e o conflito capital/trabalho (TITTONI; NARDI, 2006).
Nesse sentido, de acordo com as atuais verificações, não faria muito sentido afirmar o fim do trabalho e de sua centralidade. Muitos equívocos se deram porque os autores vinculados a essas teses confundiram, entre outras coisas, trabalho com o emprego assalariado estabelecido nos moldes do Estado de Bem-estar Social dos países de capitalismo avançado.
König (1994), revendo esses debates, faz uma crítica aos estudiosos da crise da sociedade do trabalho, uma vez que não historicizaram o trabalho dentro de suas peculiaridades sócio-históricas e pautaram suas análises em categorias ideais, a-históricas, e quase metafísicas. Fazendo uma ponte com o ideário pós-moderno que circunda essas concepções de crise e fim do trabalho, pode-se lembrar o que diz Enrique de la Garza Toledo (2001): para “a pós-modernidade a fragmentação não é somente do mundo da vida, senão do todo, da cultura, da personalidade; já não haveria a possibilidade de grandes projetos, nem de grandes sujeitos ou identidades, se vive no sincrônico, o conceito de história perdeu o sentido” (DE LA GARZA TOLEDO, 2001, p.17).
Ao contrário do que pretende a tese da perda de centralidade do trabalho, a crise contemporânea do desemprego não consiste em uma ruptura na estrutura do capitalismo ou na dissolução das relações capitalistas de produção. Significa, sim, uma nova forma de exercício do poder de classe, bem como uma reafirmação vigorosa da lógica capitalista. O descarte progressivo de trabalhadores considerados supérfluos para o processo produtivo é realizado à revelia da classe trabalhadora, com o objetivo de reduzir custos. O desemprego estrutural e a precarização da condição proletária não são processos negociados, mas impostos à classe-que-vive-do-trabalho pela classe proprietária. Trata-se, pois, de uma questão de poder, de luta entre classes, cujo diferencial pode ser constatado nas modernas tentativas de desarticulação dos trabalhadores. A questão central é que o direito e o poder do proprietário de dispor das forças produtivas e dos resultados da produção segundo suas necessidades próprias e em busca da extração da mais-valia permanecem não apenas intactos, como foram contemporaneamente revigorados (ANTUNES, 2001).
Um aspecto marcante e contraditório da hipótese do fim da centralidade do trabalho, entretanto, é que foi concebida no bojo de uma contra ofensiva do capital no sentido de abolir as conquistas que a classe trabalhadora obteve durante o pós-guerra, principalmente nos países centrais. É a quebra de certo equilíbrio destacado por Castel (1998) entre o trabalho e o mercado que possibilita atualmente uma “remercadorização do trabalho”.
Ao colocar o interesse dos trabalhadores como pouco significativo ou até mesmo reacionário, a tese do fim da centralidade do trabalho abriu um flanco na classe trabalhadora e promoveu a cisão da aliança entre os trabalhadores e as classes médias (que sustentava politicamente o crescimento com menor desigualdade no pós-guerra nos países centrais).
O trabalho hoje continua central na acumulação do sistema e na construção de relações sociais e de identidades dos indivíduos. Em um contexto de intensas transformações, o trabalho também segue lógicas heterogênicas, flexíveis e precárias. Ordenamentos diversos conectados a novas formatações produzem uma gama diversa de organização da produção, de processo de trabalho, e de tipos de trabalho. Numa mesma região de um país podem coexistir diferenciadas práticas de contratação de mão-de-obra produtiva: subcontratação, mão-de-obra familiar, trabalho domiciliar, trabalho em tempo parcial, trabalho por tarefas, cooperativas de trabalho, etc.
Deixar de reconhecer a importância e o papel que o trabalho representa nas transformações sociais atuais é ausentar-se teoricamente frente a questões significativas sobre as novas formatações do capitalismo. Acima de tudo, é ocultar as questões políticas que envolvem as atuais relações de trabalho. A realidade capitalista ainda faz-se presente, agora com meios mais engenhosos de tentar camuflar o conflito intrínseco a sua lógica entre o capital e o trabalho.

REFERÊNCIAS
ALVES, G. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: FAPESP; Boitempo, 2000.
ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 5. ed. São Paulo: Boitempo, 2001.
CASTEL, R. As metamorfoses do trabalho. In: FIORI, J. L. et. al. Globalização: o fato e o mito. Rio de Janeiro: UERJ, 1998.
DE LA GARZA TOLEDO, E. Problemas clásicos y actuales de la crisis del trabajo. In: DE LA GARZA TOLEDO, E; NEFFA, J. C. (Comps.). El trabajo del futuro. El futuro del trabajo. Buenos Aires: Clacso-Asdi, 2001.
HARVEY, D. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. Adail Ubirajara Sobral; Maria Stela Gonçalves. 10. ed. São Paulo: Loyola, 2001.
KÖNIG, H. A crise da sociedade de trabalho e o futuro do trabalho: crítica de um debate atual. In: MARKERT, W. (Org.). Teorias de Educação do Iluminismo, Conceitos de Trabalho e do Sujeito: contribuições para uma Teoria Crítica da Formação do Homem. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
LAHERA SANCHEZ, A. Conquistando corazones y las almas de los trabajadores: la participación de los trabajadores en la calidad total como nuevo dispositivo disicplinario. In: CASTILLO, J. J. (director) El Trabajo Recobrado. Una evaluación del trabajo realmente existente en España. Madrid: Miño y Dávila, 2005.
OFFE, C. Trabalho: a categoria sociológica chave? In: ______. Capitalismo Desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1989.
TITTONI, J; NARDI, H. C. Subjetividade e trabalho. In: CATTANI, A. D; HOLZMANN. (Orgs). Dicionário de Trabalho e Tecnologia. Porto Alegre: UFRGS, 2006.


Texto de Leonardo de Lucas Domingues. Escrito em julho de 2008.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Monsieur le Capital et Madame la Terre




No capital portador de juro, esse fetiche automático está, portanto, em evidência em sua forma mais pura, valor que valoriza a si mesmo, dinheiro que gera filhos e não traz mais, sob essa forma, nenhuma marca de nascença. A relação social é completada como relação de uma coisa, do dinheiro, consigo mesma. Em vez da transformação real do dinheiro em capital, vemos aqui apenas sua forma desprovida de conteúdo [...]. Sendo assim, criar valor, dar juros como a macieira dá maçãs, tornou-se inteiramente uma propriedade do dinheiro. E aquele que empresta seu dinheiro o vende como algo que traz rendimento. Isso não basta. O capital efetivamente ativo, como vimos, apresenta-se de tal modo que faz render o juro não como capital ativo, mas como capital em si, como capital financeiro. Isso também se inverte: enquanto o juro é apenas uma parte do lucro, isto é, da mais-valia que o capital ativo extrai do trabalhador, o juro aparece desta vez, inversamente, como o verdadeiro fruto do capital, como a realidade primitiva, e o lucro, transformado então em forma de ganho do empresário, aparece como um simples acessório e suplemento que se adiciona no decorrer do processo de reprodução. Nesse caso, a forma fetichista do capital e a representação do fetiche do capital são completadas. Na fórmula D-D', temos a forma não-conceitual do capital, a inversão e a coisificação das relações de produção na mais alta potência: a forma portadora de juro, forma simples do capital que tem como condição de sua própria reprodução a capacidade do dinheiro, ou seja, da mercadoria, de valorizar seu próprio valor, independente da reprodução - mistificação do capital sob sua forma mais gritante. Para a economia vulgar, que quer representar o capital como fonte autônoma e de criação do valor, essa forma é naturalmente abençoada, pois nela a fonte do juro não é mais reconhecida, nela o resultado do processo capitalista de produção - separado do próprio processo - adquire uma existência autônoma.
Karl Marx. Das Kapital

segunda-feira, agosto 31, 2009

Mímesis e carceragem



A masoquítica cultura de massa é o fenômeno necessário da própria produção todo-poderosa. A ocupação afetiva do valor de troca não é qualquer transubstanciação mística. Ela corresponde ao comportamento do prisioneiro que ama sua cela, porque nada mais lhe é dado amar.


Theodor W. Adorno

segunda-feira, agosto 24, 2009

No fim da tarde: pagamento


As diferenças são muitas, mas não tantas. Hoje, enquanto fui devolver alguns filmes, presenciei uma estranha situação. Estacionei na garagem da vídeolocadora e deixei minha esposa no carro. Quando cheguei ao balcão para consumar a entrega dos dvd´s perguntei ao atendente se o pagamento podia ser feito por cartão em débito. Na realidade, só mostrei o cartão para o rapaz e fiz alguns gestos. Ele entendeu o que eu queria dizer e me respondeu: “Só gerocheque. O cartão é somente para compras de dvd´s”. Pensei: “gerocheque, o que deve ser isso?”. Não perguntei nada ao funcionário da locadora. Fiquei um tanto bravo com o fato. Ao mesmo tempo, alguma coisa me consolou para que eu engolisse aquilo. Moro no RS, e aqui tudo é bem diferente de tudo que já conheci. Aqui o cartão famoso é o Banricompras do banco estatal Banrisul. Em vários lugares já vi que a única coisa que os lojistas aceitavam era o Banricompras. Mesmo assim, em quase todos os estabelecimentos pode-se comprar com qualquer cartão. No entanto, quando ouvi aquele nome incomum facilmente comparei-o ao Banricompras. Veio-me imediatamente à cabeça a idéia de que isso era mais alguma coisa típica da terra dos pampas. Estava sem nenhum ‘pila’. Fui ao carro e perguntei à minha digníssima sobre dinheiro. Disse: “ah, falaram que não aceitam cartão, só um tal de gerocheque”. Voltei ao balcão e paguei a dívida. Já no carro, minha companheira retrucou: “Não era ‘dinheiro ou cheque’ não?”.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Memórias da práxis: XI tese


A filosofia, que outrora pareceu ultrapassada, conserva-se vive porque o momento de sua realização não foi aproveitado. O juízo sumário segundo o qual ela apenas interpretou o mundo e que, por resignação ante a realidade, ter-se-ia atrofiado em si mesma, tornou-se derrotismo da razão depois que a transformação do mundo fracassou.


Theodor W. Adorno

terça-feira, agosto 18, 2009

Vêem-se artesãos, mas não pessoas; pensadores, mas não pessoas; sacerdotes, mas não pessoas; senhores e servos, jovens e gente de propriedade, mas não pessoas. Não seria isso como um campo de batalha em que mãos, braços e membros de todos os tipos estão espalhados uns entre os outros enquanto o sangue derramado de sua vida é sugado pela areia?

Friedrich Hölderlin

sexta-feira, julho 03, 2009

Sísifos do dia-a-dia



Como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade? (Herbert Marcuse)
A moderna barbárie, para Löwy (2000), define-se e manifesta-se pela utilização do que há de mais avançado em termos de técnica para produzir a industrialização do homicídio e o extermínio em massa graças às tecnologias de ponta. A destruição, nesse novo tipo de barbárie, é impessoal, ou seja, os massacres não têm contato entre quem toma as decisões e as vítimas; a mediação entre os combates é feita por máquinas militares que matam à distância. Por mais brutal e monstruoso que possa ser esse confronto, por trás dele há uma gestão burocrática e administrativa, a qual se preocupa unicamente com a eficiência da ação. Ademais, para legitimar as investidas militares, o Estado se municia com um poderoso artefato ideológico por meio de discursos “biológicos”, “higiênicos” e “científicos”, que corroboram a perpetuação da dominação e da exploração.
Um dos momentos mais explícitos dessa catástrofe humana se deu nos campos de concentração que se proliferaram nos territórios da Europa. Auschwitz é o exemplo do mais monstruoso uso da razão, uma utilização racional para a produção de irracionalidades impensáveis em tal grau de esclarecimento. “Milhões de homens inocentes [...] foram sistematicamente assassinados” (ADORNO, 1970c, p.81) em um fenômeno que não deve ser tratado como uma aberração na história, mas como algo que era possível de ser feito naquela época segundo a forma unilateral pela qual foi conduzido o desenvolvimento humano. Tal fato não representa uma “regressão” em direção ao passado, em direção aos primórdios da raça humana, mas se trata de um dos possíveis rostos da civilização industrial ocidental. “Que aquilo tenha acontecido é por si só indício de tendência extremamente poderosa da sociedade" (ADORNO, 1970c, p.81). Esse tipo de processo civilizador constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e emancipatória dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossos tempos.

Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, ‘a organização científica do trabalho’ de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber (LÖWY, 2000, p.51).

Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa estar dormindo para produzir monstros[1]. Pior: quando acordada, produz as piores e inimagináveis monstruosidades que ela própria desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso racional, ético ou moral, porque, em nossa época, até a razão e a linguagem são usadas para fins irracionais.
Cada vez mais a razão é usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos nazistas, soviéticos, e na carnificina americana que levou à dizimação de duas cidades japonesas por uma demonstração de força e poder.
Benjamin, voraz crítico do progresso capitalista, vê esse suposto movimento do progresso em direção ao futuro da nossa civilização, como algo prenhe de catástrofes, gestadas no próprio coração da modernidade. Se por meio dele atingimos, como nunca na história da humanidade, um patamar excepcional de bem-estar material, podemos também creditar ao progresso uma exploração mais destrutiva, sistemática e mortífera da natureza e o inegável aperfeiçoamento das técnicas de guerra e de extermínio de seres humanos. Igualmente, podemos creditar a ele, como uma perfeita combinação entre progresso técnico e regressão social, a emergência do fascismo, que não deve ser descartada como historicamente acidental, nem como um estado de exceção político/social que não se repetirá. Num de seus mais famosos e últimos escritos, as “Teses sobre o conceito de história”, o autor adverte o que para ele é central no processo da Aufklärung (esclarecimento): “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1996c, p.225).
Havia também uma outra catástrofe que preocupava Benjamin: a que se apresentava ainda como a “eterna repetição do mesmo”, a que transforma grandes massas em Sísifos e Tântalos (Benjamin Apud LÖWY, 1990, p.211; LÖWY, 1992, p.121), condenados à mesmice a ver os objetos de seu desejo diante de seus olhos e infinitamente distantes de sua posse. Movimentos mecânicos, gestos automáticos, tarefas fragmentadas, pensamentos fragmentados, mundo em eterna incompletude, tudo sempre disfarçado em moda e novidade. Substituição frenética do novo pelo cada vez mais novo que já nasce obsoleto.
Essa é uma barbárie menos explícita, está difusa no meio social entre um trânsito dinâmico de ideologias pulverizadas pelos grandes aparelhos estatais. É por esse tipo de ordem que a razão instrumental irá se hipertrofiar, dominando todas as esferas da vida social. O discurso técnico-calculista irá permear as mediações humanas e irá se tornar o imperativo da ordem do mundo capitalista, em que, antes de tudo, está presente o lucro, a produção, a eficiência e a economia. A ética e os preceitos morais são inócuos diante do desenvolvimento desenfreado da técnica. Ao homem só cabe se adaptar a sua lógica perversa.
O que se percebe, desde os primórdios da utilização da racionalidade como ordenação do mundo e organização do cosmos, até a caótica produção racional do capitalismo tardio, é que a razão humana tem se frustrado em sua intenção de descobrir a verdade sobre o seu uso, de se auto-iluminar (autocriticar). A ela cabe recuperar sua concepção objetiva de transformação dos homens e do mundo, por meio dos homens.
Ao se hipertrofiar, a razão instrumental penetra no meio administrativo das grandes empresas, no meio jurídico, nos grandes laboratórios, nos mass media, nos exércitos, nas universidades, enfim, em tudo o que se refira às relações de produção dessa sociedade e a sua forma de controle e manutenção. Essa nova conjuntura social é o cenário de investigação da Teoria Crítica com relação àquilo que seus membros diziam ser o “mundo administrado”. Esse último seria a realidade do pós-guerra, ao qual o Estado não só tem o domínio legítimo da coerção física, como também da coerção ideologicamente aparelhada pelos meios de comunicação de massa. A dominação se estende da fábrica às mentes e ao inconsciente das pessoas em torno de um controle absoluto e ilimitado pela burguesia. O mundo administrado é aquele em que se desapareceram os esconderijos (ADORNO, 1966, p.91). Ao cidadão comum, resta nada mais do que agir mecanicamente segundo o direcionamento das leis do mercado e atuar no mundo mediante duas ações: consumir e descartar tudo o que estiver ao alcance financeiro de um mundo em que a troca é generalizada e impessoal. Os teóricos frankfurtianos se lançam na crítica à razão instrumental, para descobrir o porquê de a complexidade do todo ser reduzida à particularidade de coisa; qual o motivo de esse tipo de razão instrumentalizar tudo, até a vida humana, como um meio por si só.
Desde a secularização do conhecimento iniciado com o fim da tutela eclesiástica e passando pela emancipação política, econômica, cultural e social da classe burguesa, até o fim trágico e catastrófico do século XX, a razão teve um profundo impacto na coordenação desses eventos. Seja para libertar e conciliar, ou para oprimir e destruir, o uso da razão durante esse processo foi resultado de uma condução unilateral em torno do desenvolvimento humano. Se a história de formação do sistema capitalista por um lado libertou e emancipou os homens de domínios arbitrários da tradição e da natureza, por outro, empreendeu formas cruéis e destrutivas de dominação e exploração. Assim sendo, é por um entendimento mais claro do uso meramente instrumental do conhecimento racional que se torna necessário investigar como esse tipo de racionalidade calculista-instrumental se hipertrofiou e abrangeu todos os campos da vida social.

[1] “Auschwitz não é para se considerar por uma analogia com a destruição das cidades-Estado da Grécia antiga, como um simples aumento gradual do horror, diante do qual é possível manter sua alma tranqüila. Mas certamente o martírio e a humilhação sem precedente daqueles que foram deportados como gado irradia uma luz mortalmente crua sobre o passado mais longínquo, em cuja violência obtusa e sem planejamento já estava posta de maneira teleológica a violência tramada cientificamente” (ADORNO, 1993, p.205).
Leonardo de Lucas S. Domingues - novembro de 2006.

quarta-feira, julho 01, 2009

"Meine Damen und Herren: das ist sehr dialektisch!" (Adorno)

A construção da vida está, atualmente, muito mais em poder dos fatos que em poder de convicções, e de fatos que quase nunca serviram como base de convicções (BENJAMIN, Rua de Mão Única).
Pense sobre isso o que quiser, mas pense. Weiterdenken!