Às vezes, parece que a coisa mais difícil que existe é começar. Por que sentimos tanto quando começamos algo? Por que é tão complicado dar início a alguma coisa? Começo me recorda narrativa, o início das histórias, o momento em que o movimento ganha forma material e nos faz esperar pelos fatos seguintes. De algum modo temos que colocar um ponto numa linha do tempo para dizer que aquele é o início, assim como nas corridas (a linha de largada). Então o começo é relativo, sempre está em conexão com um processo mais amplo que implica pressupor seu fim. Eu começo a escrever essas linhas e me pergunto sobre essas e outras questões. De onde começar? Começar o quê? Para quê? Se começo é início, o que havia antes? Quando sabemos realmente que começamos algo? Como temos provas concretas disso? O que é o começo fora da lógica que nos foi legada pelos gregos? Começar significa abrir mão do passado e gerar algo novo? É uma ruptura? É uma experiência? É um ponto determinado no tempo? Afinal, por que resolvi escrever depois de tantos anos? Se eu estabeleci um começo, é pelo fato de imaginar que possa dar conta de todo o resto. Então começo aqui algo que não sei o que é e nem para onde vai parar. Sinto apenas a necessidade de escrever.
terça-feira, março 29, 2011
terça-feira, janeiro 25, 2011
Wie man mit dem Hammer philosophirt

Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades, em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante desse mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo como um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.
NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873). Coleção Os Pensadores. 3ªed. p. 45, 1983.
sexta-feira, dezembro 03, 2010
traiter les faits sociaux scientifiquement?
quarta-feira, setembro 15, 2010
O "espírito", por Sombart

Na alma do empresário, a conseqüência de um excesso de trabalho, e especialmente pela ocupação na questão de negócios que não lhe deixa tempo para outra coisa, todos os demais interesses esfumam-se; natureza, arte, literatura, estado, amigos, família, não podem exercer já nenhuma sedução sobre ele, que conseqüentemente sente-se possuído de um insuportável sentimento de tédio e de desolação no instante em que abandona o mundo dos números, que lhe dá apoio, calor e vida. Nesse mundo dos negócios, pelo contrário, encontra tudo o que lhe renova, lhe dá ânimo, lhe faz feliz; tem a sensação de encontrar ali sua verdadeira pátria, a força da juventude que lhe cria novas forças, o manancial que lhe dá nova vida quando está sedento. Não tem nada de estranho que finalmente acabe consagrando seu amor a esse mundo.
Werner Sombart (1863-1941). El apogeo del capitalismo
quarta-feira, agosto 25, 2010
A Dialética das Luzes americana

As esperanças da espécie humana parecem hoje mais distantes de serem realizadas do que mesmo nas épocas ainda tateantes em que primeiro foram formuladas pelos humanistas. Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. Assim, o progresso ameaça anular o que se supõe ser o seu próprio objetivo: a idéia de homem.
Max Horkheimer, Eclipse da Razão
quarta-feira, agosto 18, 2010
A história
A história tira ainda mais daqueles que
tudo perderam e dá ainda mais àqueles que tudo
tomaram. A história nunca confessa.
Maurice Merleau-Ponty (1908-1961)
quarta-feira, julho 21, 2010
Enigmas do conceito
"Há um engodo presente em todo ato de definir: através do conceito é fixado algo a respeito da coisa que facilita seu manejo, por isso nem sujeito nem objeto podem ser reduzidos à sua definição, há sempre algo que fica de fora. Definir é delimitar, impor limites à coisa para que se torne assimilável conceitualmente. O conceito é necessário, mas não se deve pensá-lo como o espaço dentro do qual tudo se encaixará e aparecerá de modo claro à compreensão. A pretensão de definição de subsumir em si um objeto deve cessar para garantir sua própria validade. Até porque, como bem nota Adorno, em Terminologia filosófica, o procedimento da definição não é suficiente à filosofia, já que os próprios conceitos modificam-se (Adorno, 1973d, p.9). Graças à dialética, o conceito é possível, sem decidir-se por uma rigidez parcial que acabe, por ver a verdade apenas no particular ou apenas no universal. Se a questão não é eliminar a definição - pois, mesmo sendo falta de liberdade, ela é necessária ao pensar - deve-se propô-la de modo dialético"
(TIBURI, Márcia. Metamorfoses do conceito: ética e dialética negativa em Theodor Adorno. UFRGS, 2005, p. 122).
quarta-feira, junho 30, 2010
Fragen eines lesenden Arbeiter
De Benjamin para Brecht:
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída -
Quem a reconstruiu várias vezes? [...]
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os césares? [...]
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
Passagem de Benjamin muito parecida com um poema de Brecht. Extraído de LÖWY, M. Walter Benjamin: avertissement d'incendie. Tradução de Wanda Nogueira Brant.
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída -
Quem a reconstruiu várias vezes? [...]
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os césares? [...]
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
Passagem de Benjamin muito parecida com um poema de Brecht. Extraído de LÖWY, M. Walter Benjamin: avertissement d'incendie. Tradução de Wanda Nogueira Brant.
quarta-feira, junho 23, 2010
A liberdade de seguir o estouro da boiada
Nenhum domador jamais teve tanto poder sobre seus animais. Solta-se o povo como massa leitora, e este corre pelas ruas, lançando-se sobre o alvo indicado, quebrando janelas e ameaçando. Um leve aceno com o chicote da imprensa, e a massa se acalma e volta para casa. A imprensa é hoje um exército com tropas cuidadosamente organizadas, que têm jornalistas como oficiais e leitores soldados. A situação é a mesma em qualquer exército: o soldado obedece cegamente, e as modificações nos objetivos de guerra e nos planos de operação são feitas sem o seu conhecimento. O leitor nada sabe do que se pretende com ele, e nem deve saber, nem mesmo o papel que desempenha nisso tudo. Não existe sátira mais terrível da liberdade de pensamento. Antigamente não se podia ousar pensar livremente; a gora isto é permitido, mas não se consegue fazê-lo. As pessoas desejam pensar apenas o que se deseja que elas pensem, e exatamente isso é sentido como liberdade
Oswald Spengler (1880 - 1936)
sexta-feira, maio 21, 2010
Notas sobre a centralidade do trabalho (uma categoria em vias de extinção?)
No contexto da crise de lucratividade do sistema capitalista e do declínio do Estado de bem-estar social (que trazia garantias e conquistas dos trabalhadores) nas potências ocidentais, várias foram as teorias que, em meio a transformações sociais, tecnológicas e políticas, empenharam-se em reavaliar o papel do trabalho na sociedade capitalista. De um lado, as mudanças no ambiente produtivo (entre as forças produtivas e as relações de produção) suscitaram o aparecimento de novas questões sobre a centralidade do papel do trabalho na produção, na sociedade e na construção de identidades. De outro, tais modificações estariam significando um momento de transição para um novo paradigma societal, sustentado por outros pilares de estruturação (pós-moderna, pós-industrial, informacional, entre outras).
A crise engendrou uma reestruturação produtiva que incluiu formas diferenciadas de se produzir e organizar o trabalho, numa conjuntura de fragmentação e fragilização do movimento sindical. Constatou-se a redução do trabalho assalariado (principalmente na indústria), o crescimento de atividades em serviços, a expansão de formas atípicas de inserção, e a ampliação do desemprego em patamares elevados.
Grande parte da produção teórica desse período destaca um conjunto de constatações acerca de transformações que se intensificaram nas últimas décadas. Um aspecto predominaria dentre as novas tendências: o trabalho estaria em crise, e não seria mais a categoria fundante das relações sociais e da construção identitária dos indivíduos.
Inserem-se com significativo impacto nesse quadro teórico as idéias de fim do trabalho e de sua centralidade como categoria analítica (OFFE, 1989), e de fim do proletariado e de seu papel revolucionário (Gorz). No que tange às alterações no processo produtivo, algumas leituras indicam mudanças no núcleo de acumulação capitalista. O trabalho, nessa esfera, também não estaria mais cumprindo papel decisivo e essencial. Vinculado a esse aspecto, a noção de classes sociais tampouco faria sentido numa realidade que estaria reduzindo o proletariado (assim como os conflitos relacionados ao trabalho / luta de classes).
O crescimento, a produção e a geração de riquezas estão, segundo outros autores de perspectivas semelhantes, em estreita associação à geração de conhecimento mediante processamento da informação. A atividade econômica, por conseguinte, estaria numa mudança de estado de um modelo de produção de bens para o de prestação de serviços.
Nesse ambiente de mudanças, inserem-se novas vozes e discursos que não permeiam, de modo direto, o âmbito da produção. Constituem-se movimentos sociais em prol dos negros, das mulheres, dos gays, e de outras minorias. Aspectos culturais ganham destaque em relação aos aspectos econômicos próprios de uma sociedade de classes.
No liame das teorias sobre essas modificações que se iniciam na produção (nos processos de trabalho) e vão se espalhando por diversos ramos da vida social, acrescentam-se o papel preponderante da inovação tecnológica nessa nova configuração, e as novas lógicas de terceirização da produção em redes e novos arranjos produtivos (com presença mais acentuada a partir dos anos 90).
As transformações no âmbito da tecnologia e de sua utilização no universo do trabalho estimulam formulações sobre o processo de redução da jornada de trabalho e ampliação do tempo dedicado ao lazer (tempo livre, ócio). A revolução tecnológica supostamente permitiria usufruir as necessidades da humanidade com menos trabalho.
Ocorrem mudanças tanto na organização da produção (redução dos níveis hierárquicos, maior comunicação), como nos processos de trabalho (trabalho em equipe nas células). O trabalhador passa a desempenhar um papel mais ativo na produção, na qual se exige criatividade, capacidade de adaptação a contextos transitórios e flexíveis, bem como características de polivalência, e cooperação (numa forma de gestão participativa).
Apesar de quase todos os estudiosos do trabalho constatarem mudanças significativas em torno das formas de organização da produção e do processo de trabalho nas últimas décadas, uma parte desses autores vê de forma crítica essas teses que associam essas alterações com o fim do trabalho e de sua centralidade no capitalismo contemporâneo. Haveria outras questões em jogo que não diriam respeito a uma emergência de novas relações de trabalho (em que o trabalhador teria crescente autonomia, cooperação, liberdade e bem-estar).
Nesse sentido, outros autores desmistificam tais teses por meio de estudos que demonstram que atualmente o que há é um contexto de precarização do trabalho, individualização das relações de trabalho, intensificação do trabalho, e prevalência de relações de subordinação do trabalho ao capital.
Como diria Enrique de la Garza Toledo (2001), a sociedade do não-trabalho que imaginavam alguns teóricos no início dos anos oitenta por conta da aplicação das novas tecnologias se converteu em uma sociedade do muito e intenso trabalho para os que têm emprego e da desocupação não desejada nem enriquecedora para os outros.
Sob a atual reestruturação produtiva, essa exploração encontra-se qualitativamente agravada já que, para além da força física humana, o que está sendo extraído pela nova maquinaria que a integra é a capacidade cognitiva do trabalho vivo, aquela que produz idéias. É nesse contexto que estão sendo aplicadas as técnicas de gestão do trabalho provenientes da administração participativa, que visam estimular as qualidades criativas da força de trabalho e, através do incitamento da participação ativa dos trabalhadores de todos os níveis no processo de produção total da empresa, promover a formalização, normalização, e conseqüente materialização dos resultados dessa criatividade. É o que, para Arturo Lahera Sánchez, caracteriza-se como sendo a “conquista dos corações e mentes dos trabalhadores” (LAHERA SANCHEZ, 2005).
Há nesse ambiente a idéia de flexibilização de regulamentações que permeia as relações de trabalho e o mercado de trabalho. Flexibilidade é o que marca um modo de produzir atual (HARVEY, 1992), um modo de organização dos processos de trabalho e da produção chamado de Toyotismo. Para Alves (2000), um dos aspectos inovadores dessa técnica de gestão é a operação de um novo tipo de captura da subjetividade operária pela lógica do capital.
A noção de flexibilização pressiona os modos de produzir de forma a colocar, como elemento-chave na organização do trabalho, uma organização flexível e um trabalhador flexível. As estratégias geralmente se concretizam nas formas de subordinação do trabalhador às necessidades da organização, de modo a exigir uma flexibilização da vida em nome do cumprimento das exigências trazidas pelo trabalho. As novas formas de gestão têm por objetivo a gestão das subjetividades a partir de uma incorporação das metas e dos objetivos da empresa, buscando negar, dessa forma, a exploração da força de trabalho e o conflito capital/trabalho (TITTONI; NARDI, 2006).
Nesse sentido, de acordo com as atuais verificações, não faria muito sentido afirmar o fim do trabalho e de sua centralidade. Muitos equívocos se deram porque os autores vinculados a essas teses confundiram, entre outras coisas, trabalho com o emprego assalariado estabelecido nos moldes do Estado de Bem-estar Social dos países de capitalismo avançado.
König (1994), revendo esses debates, faz uma crítica aos estudiosos da crise da sociedade do trabalho, uma vez que não historicizaram o trabalho dentro de suas peculiaridades sócio-históricas e pautaram suas análises em categorias ideais, a-históricas, e quase metafísicas. Fazendo uma ponte com o ideário pós-moderno que circunda essas concepções de crise e fim do trabalho, pode-se lembrar o que diz Enrique de la Garza Toledo (2001): para “a pós-modernidade a fragmentação não é somente do mundo da vida, senão do todo, da cultura, da personalidade; já não haveria a possibilidade de grandes projetos, nem de grandes sujeitos ou identidades, se vive no sincrônico, o conceito de história perdeu o sentido” (DE LA GARZA TOLEDO, 2001, p.17).
Ao contrário do que pretende a tese da perda de centralidade do trabalho, a crise contemporânea do desemprego não consiste em uma ruptura na estrutura do capitalismo ou na dissolução das relações capitalistas de produção. Significa, sim, uma nova forma de exercício do poder de classe, bem como uma reafirmação vigorosa da lógica capitalista. O descarte progressivo de trabalhadores considerados supérfluos para o processo produtivo é realizado à revelia da classe trabalhadora, com o objetivo de reduzir custos. O desemprego estrutural e a precarização da condição proletária não são processos negociados, mas impostos à classe-que-vive-do-trabalho pela classe proprietária. Trata-se, pois, de uma questão de poder, de luta entre classes, cujo diferencial pode ser constatado nas modernas tentativas de desarticulação dos trabalhadores. A questão central é que o direito e o poder do proprietário de dispor das forças produtivas e dos resultados da produção segundo suas necessidades próprias e em busca da extração da mais-valia permanecem não apenas intactos, como foram contemporaneamente revigorados (ANTUNES, 2001).
Um aspecto marcante e contraditório da hipótese do fim da centralidade do trabalho, entretanto, é que foi concebida no bojo de uma contra ofensiva do capital no sentido de abolir as conquistas que a classe trabalhadora obteve durante o pós-guerra, principalmente nos países centrais. É a quebra de certo equilíbrio destacado por Castel (1998) entre o trabalho e o mercado que possibilita atualmente uma “remercadorização do trabalho”.
Ao colocar o interesse dos trabalhadores como pouco significativo ou até mesmo reacionário, a tese do fim da centralidade do trabalho abriu um flanco na classe trabalhadora e promoveu a cisão da aliança entre os trabalhadores e as classes médias (que sustentava politicamente o crescimento com menor desigualdade no pós-guerra nos países centrais).
O trabalho hoje continua central na acumulação do sistema e na construção de relações sociais e de identidades dos indivíduos. Em um contexto de intensas transformações, o trabalho também segue lógicas heterogênicas, flexíveis e precárias. Ordenamentos diversos conectados a novas formatações produzem uma gama diversa de organização da produção, de processo de trabalho, e de tipos de trabalho. Numa mesma região de um país podem coexistir diferenciadas práticas de contratação de mão-de-obra produtiva: subcontratação, mão-de-obra familiar, trabalho domiciliar, trabalho em tempo parcial, trabalho por tarefas, cooperativas de trabalho, etc.
Deixar de reconhecer a importância e o papel que o trabalho representa nas transformações sociais atuais é ausentar-se teoricamente frente a questões significativas sobre as novas formatações do capitalismo. Acima de tudo, é ocultar as questões políticas que envolvem as atuais relações de trabalho. A realidade capitalista ainda faz-se presente, agora com meios mais engenhosos de tentar camuflar o conflito intrínseco a sua lógica entre o capital e o trabalho.
REFERÊNCIAS
ALVES, G. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: FAPESP; Boitempo, 2000.
ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 5. ed. São Paulo: Boitempo, 2001.
CASTEL, R. As metamorfoses do trabalho. In: FIORI, J. L. et. al. Globalização: o fato e o mito. Rio de Janeiro: UERJ, 1998.
DE LA GARZA TOLEDO, E. Problemas clásicos y actuales de la crisis del trabajo. In: DE LA GARZA TOLEDO, E; NEFFA, J. C. (Comps.). El trabajo del futuro. El futuro del trabajo. Buenos Aires: Clacso-Asdi, 2001.
HARVEY, D. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. Adail Ubirajara Sobral; Maria Stela Gonçalves. 10. ed. São Paulo: Loyola, 2001.
KÖNIG, H. A crise da sociedade de trabalho e o futuro do trabalho: crítica de um debate atual. In: MARKERT, W. (Org.). Teorias de Educação do Iluminismo, Conceitos de Trabalho e do Sujeito: contribuições para uma Teoria Crítica da Formação do Homem. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
LAHERA SANCHEZ, A. Conquistando corazones y las almas de los trabajadores: la participación de los trabajadores en la calidad total como nuevo dispositivo disicplinario. In: CASTILLO, J. J. (director) El Trabajo Recobrado. Una evaluación del trabajo realmente existente en España. Madrid: Miño y Dávila, 2005.
OFFE, C. Trabalho: a categoria sociológica chave? In: ______. Capitalismo Desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1989.
TITTONI, J; NARDI, H. C. Subjetividade e trabalho. In: CATTANI, A. D; HOLZMANN. (Orgs). Dicionário de Trabalho e Tecnologia. Porto Alegre: UFRGS, 2006.
A crise engendrou uma reestruturação produtiva que incluiu formas diferenciadas de se produzir e organizar o trabalho, numa conjuntura de fragmentação e fragilização do movimento sindical. Constatou-se a redução do trabalho assalariado (principalmente na indústria), o crescimento de atividades em serviços, a expansão de formas atípicas de inserção, e a ampliação do desemprego em patamares elevados.
Grande parte da produção teórica desse período destaca um conjunto de constatações acerca de transformações que se intensificaram nas últimas décadas. Um aspecto predominaria dentre as novas tendências: o trabalho estaria em crise, e não seria mais a categoria fundante das relações sociais e da construção identitária dos indivíduos.
Inserem-se com significativo impacto nesse quadro teórico as idéias de fim do trabalho e de sua centralidade como categoria analítica (OFFE, 1989), e de fim do proletariado e de seu papel revolucionário (Gorz). No que tange às alterações no processo produtivo, algumas leituras indicam mudanças no núcleo de acumulação capitalista. O trabalho, nessa esfera, também não estaria mais cumprindo papel decisivo e essencial. Vinculado a esse aspecto, a noção de classes sociais tampouco faria sentido numa realidade que estaria reduzindo o proletariado (assim como os conflitos relacionados ao trabalho / luta de classes).
O crescimento, a produção e a geração de riquezas estão, segundo outros autores de perspectivas semelhantes, em estreita associação à geração de conhecimento mediante processamento da informação. A atividade econômica, por conseguinte, estaria numa mudança de estado de um modelo de produção de bens para o de prestação de serviços.
Nesse ambiente de mudanças, inserem-se novas vozes e discursos que não permeiam, de modo direto, o âmbito da produção. Constituem-se movimentos sociais em prol dos negros, das mulheres, dos gays, e de outras minorias. Aspectos culturais ganham destaque em relação aos aspectos econômicos próprios de uma sociedade de classes.
No liame das teorias sobre essas modificações que se iniciam na produção (nos processos de trabalho) e vão se espalhando por diversos ramos da vida social, acrescentam-se o papel preponderante da inovação tecnológica nessa nova configuração, e as novas lógicas de terceirização da produção em redes e novos arranjos produtivos (com presença mais acentuada a partir dos anos 90).
As transformações no âmbito da tecnologia e de sua utilização no universo do trabalho estimulam formulações sobre o processo de redução da jornada de trabalho e ampliação do tempo dedicado ao lazer (tempo livre, ócio). A revolução tecnológica supostamente permitiria usufruir as necessidades da humanidade com menos trabalho.
Ocorrem mudanças tanto na organização da produção (redução dos níveis hierárquicos, maior comunicação), como nos processos de trabalho (trabalho em equipe nas células). O trabalhador passa a desempenhar um papel mais ativo na produção, na qual se exige criatividade, capacidade de adaptação a contextos transitórios e flexíveis, bem como características de polivalência, e cooperação (numa forma de gestão participativa).
Apesar de quase todos os estudiosos do trabalho constatarem mudanças significativas em torno das formas de organização da produção e do processo de trabalho nas últimas décadas, uma parte desses autores vê de forma crítica essas teses que associam essas alterações com o fim do trabalho e de sua centralidade no capitalismo contemporâneo. Haveria outras questões em jogo que não diriam respeito a uma emergência de novas relações de trabalho (em que o trabalhador teria crescente autonomia, cooperação, liberdade e bem-estar).
Nesse sentido, outros autores desmistificam tais teses por meio de estudos que demonstram que atualmente o que há é um contexto de precarização do trabalho, individualização das relações de trabalho, intensificação do trabalho, e prevalência de relações de subordinação do trabalho ao capital.
Como diria Enrique de la Garza Toledo (2001), a sociedade do não-trabalho que imaginavam alguns teóricos no início dos anos oitenta por conta da aplicação das novas tecnologias se converteu em uma sociedade do muito e intenso trabalho para os que têm emprego e da desocupação não desejada nem enriquecedora para os outros.
Sob a atual reestruturação produtiva, essa exploração encontra-se qualitativamente agravada já que, para além da força física humana, o que está sendo extraído pela nova maquinaria que a integra é a capacidade cognitiva do trabalho vivo, aquela que produz idéias. É nesse contexto que estão sendo aplicadas as técnicas de gestão do trabalho provenientes da administração participativa, que visam estimular as qualidades criativas da força de trabalho e, através do incitamento da participação ativa dos trabalhadores de todos os níveis no processo de produção total da empresa, promover a formalização, normalização, e conseqüente materialização dos resultados dessa criatividade. É o que, para Arturo Lahera Sánchez, caracteriza-se como sendo a “conquista dos corações e mentes dos trabalhadores” (LAHERA SANCHEZ, 2005).
Há nesse ambiente a idéia de flexibilização de regulamentações que permeia as relações de trabalho e o mercado de trabalho. Flexibilidade é o que marca um modo de produzir atual (HARVEY, 1992), um modo de organização dos processos de trabalho e da produção chamado de Toyotismo. Para Alves (2000), um dos aspectos inovadores dessa técnica de gestão é a operação de um novo tipo de captura da subjetividade operária pela lógica do capital.
A noção de flexibilização pressiona os modos de produzir de forma a colocar, como elemento-chave na organização do trabalho, uma organização flexível e um trabalhador flexível. As estratégias geralmente se concretizam nas formas de subordinação do trabalhador às necessidades da organização, de modo a exigir uma flexibilização da vida em nome do cumprimento das exigências trazidas pelo trabalho. As novas formas de gestão têm por objetivo a gestão das subjetividades a partir de uma incorporação das metas e dos objetivos da empresa, buscando negar, dessa forma, a exploração da força de trabalho e o conflito capital/trabalho (TITTONI; NARDI, 2006).
Nesse sentido, de acordo com as atuais verificações, não faria muito sentido afirmar o fim do trabalho e de sua centralidade. Muitos equívocos se deram porque os autores vinculados a essas teses confundiram, entre outras coisas, trabalho com o emprego assalariado estabelecido nos moldes do Estado de Bem-estar Social dos países de capitalismo avançado.
König (1994), revendo esses debates, faz uma crítica aos estudiosos da crise da sociedade do trabalho, uma vez que não historicizaram o trabalho dentro de suas peculiaridades sócio-históricas e pautaram suas análises em categorias ideais, a-históricas, e quase metafísicas. Fazendo uma ponte com o ideário pós-moderno que circunda essas concepções de crise e fim do trabalho, pode-se lembrar o que diz Enrique de la Garza Toledo (2001): para “a pós-modernidade a fragmentação não é somente do mundo da vida, senão do todo, da cultura, da personalidade; já não haveria a possibilidade de grandes projetos, nem de grandes sujeitos ou identidades, se vive no sincrônico, o conceito de história perdeu o sentido” (DE LA GARZA TOLEDO, 2001, p.17).
Ao contrário do que pretende a tese da perda de centralidade do trabalho, a crise contemporânea do desemprego não consiste em uma ruptura na estrutura do capitalismo ou na dissolução das relações capitalistas de produção. Significa, sim, uma nova forma de exercício do poder de classe, bem como uma reafirmação vigorosa da lógica capitalista. O descarte progressivo de trabalhadores considerados supérfluos para o processo produtivo é realizado à revelia da classe trabalhadora, com o objetivo de reduzir custos. O desemprego estrutural e a precarização da condição proletária não são processos negociados, mas impostos à classe-que-vive-do-trabalho pela classe proprietária. Trata-se, pois, de uma questão de poder, de luta entre classes, cujo diferencial pode ser constatado nas modernas tentativas de desarticulação dos trabalhadores. A questão central é que o direito e o poder do proprietário de dispor das forças produtivas e dos resultados da produção segundo suas necessidades próprias e em busca da extração da mais-valia permanecem não apenas intactos, como foram contemporaneamente revigorados (ANTUNES, 2001).
Um aspecto marcante e contraditório da hipótese do fim da centralidade do trabalho, entretanto, é que foi concebida no bojo de uma contra ofensiva do capital no sentido de abolir as conquistas que a classe trabalhadora obteve durante o pós-guerra, principalmente nos países centrais. É a quebra de certo equilíbrio destacado por Castel (1998) entre o trabalho e o mercado que possibilita atualmente uma “remercadorização do trabalho”.
Ao colocar o interesse dos trabalhadores como pouco significativo ou até mesmo reacionário, a tese do fim da centralidade do trabalho abriu um flanco na classe trabalhadora e promoveu a cisão da aliança entre os trabalhadores e as classes médias (que sustentava politicamente o crescimento com menor desigualdade no pós-guerra nos países centrais).
O trabalho hoje continua central na acumulação do sistema e na construção de relações sociais e de identidades dos indivíduos. Em um contexto de intensas transformações, o trabalho também segue lógicas heterogênicas, flexíveis e precárias. Ordenamentos diversos conectados a novas formatações produzem uma gama diversa de organização da produção, de processo de trabalho, e de tipos de trabalho. Numa mesma região de um país podem coexistir diferenciadas práticas de contratação de mão-de-obra produtiva: subcontratação, mão-de-obra familiar, trabalho domiciliar, trabalho em tempo parcial, trabalho por tarefas, cooperativas de trabalho, etc.
Deixar de reconhecer a importância e o papel que o trabalho representa nas transformações sociais atuais é ausentar-se teoricamente frente a questões significativas sobre as novas formatações do capitalismo. Acima de tudo, é ocultar as questões políticas que envolvem as atuais relações de trabalho. A realidade capitalista ainda faz-se presente, agora com meios mais engenhosos de tentar camuflar o conflito intrínseco a sua lógica entre o capital e o trabalho.
REFERÊNCIAS
ALVES, G. O Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo: FAPESP; Boitempo, 2000.
ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 5. ed. São Paulo: Boitempo, 2001.
CASTEL, R. As metamorfoses do trabalho. In: FIORI, J. L. et. al. Globalização: o fato e o mito. Rio de Janeiro: UERJ, 1998.
DE LA GARZA TOLEDO, E. Problemas clásicos y actuales de la crisis del trabajo. In: DE LA GARZA TOLEDO, E; NEFFA, J. C. (Comps.). El trabajo del futuro. El futuro del trabajo. Buenos Aires: Clacso-Asdi, 2001.
HARVEY, D. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. Adail Ubirajara Sobral; Maria Stela Gonçalves. 10. ed. São Paulo: Loyola, 2001.
KÖNIG, H. A crise da sociedade de trabalho e o futuro do trabalho: crítica de um debate atual. In: MARKERT, W. (Org.). Teorias de Educação do Iluminismo, Conceitos de Trabalho e do Sujeito: contribuições para uma Teoria Crítica da Formação do Homem. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
LAHERA SANCHEZ, A. Conquistando corazones y las almas de los trabajadores: la participación de los trabajadores en la calidad total como nuevo dispositivo disicplinario. In: CASTILLO, J. J. (director) El Trabajo Recobrado. Una evaluación del trabajo realmente existente en España. Madrid: Miño y Dávila, 2005.
OFFE, C. Trabalho: a categoria sociológica chave? In: ______. Capitalismo Desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1989.
TITTONI, J; NARDI, H. C. Subjetividade e trabalho. In: CATTANI, A. D; HOLZMANN. (Orgs). Dicionário de Trabalho e Tecnologia. Porto Alegre: UFRGS, 2006.
Texto de Leonardo de Lucas Domingues. Escrito em julho de 2008.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Monsieur le Capital et Madame la Terre
No capital portador de juro, esse fetiche automático está, portanto, em evidência em sua forma mais pura, valor que valoriza a si mesmo, dinheiro que gera filhos e não traz mais, sob essa forma, nenhuma marca de nascença. A relação social é completada como relação de uma coisa, do dinheiro, consigo mesma. Em vez da transformação real do dinheiro em capital, vemos aqui apenas sua forma desprovida de conteúdo [...]. Sendo assim, criar valor, dar juros como a macieira dá maçãs, tornou-se inteiramente uma propriedade do dinheiro. E aquele que empresta seu dinheiro o vende como algo que traz rendimento. Isso não basta. O capital efetivamente ativo, como vimos, apresenta-se de tal modo que faz render o juro não como capital ativo, mas como capital em si, como capital financeiro. Isso também se inverte: enquanto o juro é apenas uma parte do lucro, isto é, da mais-valia que o capital ativo extrai do trabalhador, o juro aparece desta vez, inversamente, como o verdadeiro fruto do capital, como a realidade primitiva, e o lucro, transformado então em forma de ganho do empresário, aparece como um simples acessório e suplemento que se adiciona no decorrer do processo de reprodução. Nesse caso, a forma fetichista do capital e a representação do fetiche do capital são completadas. Na fórmula D-D', temos a forma não-conceitual do capital, a inversão e a coisificação das relações de produção na mais alta potência: a forma portadora de juro, forma simples do capital que tem como condição de sua própria reprodução a capacidade do dinheiro, ou seja, da mercadoria, de valorizar seu próprio valor, independente da reprodução - mistificação do capital sob sua forma mais gritante. Para a economia vulgar, que quer representar o capital como fonte autônoma e de criação do valor, essa forma é naturalmente abençoada, pois nela a fonte do juro não é mais reconhecida, nela o resultado do processo capitalista de produção - separado do próprio processo - adquire uma existência autônoma.
Karl Marx. Das Kapital
segunda-feira, agosto 31, 2009
Mímesis e carceragem
segunda-feira, agosto 24, 2009
No fim da tarde: pagamento
As diferenças são muitas, mas não tantas. Hoje, enquanto fui devolver alguns filmes, presenciei uma estranha situação. Estacionei na garagem da vídeolocadora e deixei minha esposa no carro. Quando cheguei ao balcão para consumar a entrega dos dvd´s perguntei ao atendente se o pagamento podia ser feito por cartão em débito. Na realidade, só mostrei o cartão para o rapaz e fiz alguns gestos. Ele entendeu o que eu queria dizer e me respondeu: “Só gerocheque. O cartão é somente para compras de dvd´s”. Pensei: “gerocheque, o que deve ser isso?”. Não perguntei nada ao funcionário da locadora. Fiquei um tanto bravo com o fato. Ao mesmo tempo, alguma coisa me consolou para que eu engolisse aquilo. Moro no RS, e aqui tudo é bem diferente de tudo que já conheci. Aqui o cartão famoso é o Banricompras do banco estatal Banrisul. Em vários lugares já vi que a única coisa que os lojistas aceitavam era o Banricompras. Mesmo assim, em quase todos os estabelecimentos pode-se comprar com qualquer cartão. No entanto, quando ouvi aquele nome incomum facilmente comparei-o ao Banricompras. Veio-me imediatamente à cabeça a idéia de que isso era mais alguma coisa típica da terra dos pampas. Estava sem nenhum ‘pila’. Fui ao carro e perguntei à minha digníssima sobre dinheiro. Disse: “ah, falaram que não aceitam cartão, só um tal de gerocheque”. Voltei ao balcão e paguei a dívida. Já no carro, minha companheira retrucou: “Não era ‘dinheiro ou cheque’ não?”.
quinta-feira, agosto 20, 2009
Memórias da práxis: XI tese

A filosofia, que outrora pareceu ultrapassada, conserva-se vive porque o momento de sua realização não foi aproveitado. O juízo sumário segundo o qual ela apenas interpretou o mundo e que, por resignação ante a realidade, ter-se-ia atrofiado em si mesma, tornou-se derrotismo da razão depois que a transformação do mundo fracassou.
Theodor W. Adorno
terça-feira, agosto 18, 2009
Vêem-se artesãos, mas não pessoas; pensadores, mas não pessoas; sacerdotes, mas não pessoas; senhores e servos, jovens e gente de propriedade, mas não pessoas. Não seria isso como um campo de batalha em que mãos, braços e membros de todos os tipos estão espalhados uns entre os outros enquanto o sangue derramado de sua vida é sugado pela areia?
Friedrich Hölderlin
sexta-feira, julho 03, 2009
Sísifos do dia-a-dia
Como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade? (Herbert Marcuse)
A moderna barbárie, para Löwy (2000), define-se e manifesta-se pela utilização do que há de mais avançado em termos de técnica para produzir a industrialização do homicídio e o extermínio em massa graças às tecnologias de ponta. A destruição, nesse novo tipo de barbárie, é impessoal, ou seja, os massacres não têm contato entre quem toma as decisões e as vítimas; a mediação entre os combates é feita por máquinas militares que matam à distância. Por mais brutal e monstruoso que possa ser esse confronto, por trás dele há uma gestão burocrática e administrativa, a qual se preocupa unicamente com a eficiência da ação. Ademais, para legitimar as investidas militares, o Estado se municia com um poderoso artefato ideológico por meio de discursos “biológicos”, “higiênicos” e “científicos”, que corroboram a perpetuação da dominação e da exploração.
Um dos momentos mais explícitos dessa catástrofe humana se deu nos campos de concentração que se proliferaram nos territórios da Europa. Auschwitz é o exemplo do mais monstruoso uso da razão, uma utilização racional para a produção de irracionalidades impensáveis em tal grau de esclarecimento. “Milhões de homens inocentes [...] foram sistematicamente assassinados” (ADORNO, 1970c, p.81) em um fenômeno que não deve ser tratado como uma aberração na história, mas como algo que era possível de ser feito naquela época segundo a forma unilateral pela qual foi conduzido o desenvolvimento humano. Tal fato não representa uma “regressão” em direção ao passado, em direção aos primórdios da raça humana, mas se trata de um dos possíveis rostos da civilização industrial ocidental. “Que aquilo tenha acontecido é por si só indício de tendência extremamente poderosa da sociedade" (ADORNO, 1970c, p.81). Esse tipo de processo civilizador constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e emancipatória dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossos tempos.
Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, ‘a organização científica do trabalho’ de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber (LÖWY, 2000, p.51).
Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa estar dormindo para produzir monstros[1]. Pior: quando acordada, produz as piores e inimagináveis monstruosidades que ela própria desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso racional, ético ou moral, porque, em nossa época, até a razão e a linguagem são usadas para fins irracionais.
Cada vez mais a razão é usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos nazistas, soviéticos, e na carnificina americana que levou à dizimação de duas cidades japonesas por uma demonstração de força e poder.
Benjamin, voraz crítico do progresso capitalista, vê esse suposto movimento do progresso em direção ao futuro da nossa civilização, como algo prenhe de catástrofes, gestadas no próprio coração da modernidade. Se por meio dele atingimos, como nunca na história da humanidade, um patamar excepcional de bem-estar material, podemos também creditar ao progresso uma exploração mais destrutiva, sistemática e mortífera da natureza e o inegável aperfeiçoamento das técnicas de guerra e de extermínio de seres humanos. Igualmente, podemos creditar a ele, como uma perfeita combinação entre progresso técnico e regressão social, a emergência do fascismo, que não deve ser descartada como historicamente acidental, nem como um estado de exceção político/social que não se repetirá. Num de seus mais famosos e últimos escritos, as “Teses sobre o conceito de história”, o autor adverte o que para ele é central no processo da Aufklärung (esclarecimento): “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1996c, p.225).
Havia também uma outra catástrofe que preocupava Benjamin: a que se apresentava ainda como a “eterna repetição do mesmo”, a que transforma grandes massas em Sísifos e Tântalos (Benjamin Apud LÖWY, 1990, p.211; LÖWY, 1992, p.121), condenados à mesmice a ver os objetos de seu desejo diante de seus olhos e infinitamente distantes de sua posse. Movimentos mecânicos, gestos automáticos, tarefas fragmentadas, pensamentos fragmentados, mundo em eterna incompletude, tudo sempre disfarçado em moda e novidade. Substituição frenética do novo pelo cada vez mais novo que já nasce obsoleto.
Essa é uma barbárie menos explícita, está difusa no meio social entre um trânsito dinâmico de ideologias pulverizadas pelos grandes aparelhos estatais. É por esse tipo de ordem que a razão instrumental irá se hipertrofiar, dominando todas as esferas da vida social. O discurso técnico-calculista irá permear as mediações humanas e irá se tornar o imperativo da ordem do mundo capitalista, em que, antes de tudo, está presente o lucro, a produção, a eficiência e a economia. A ética e os preceitos morais são inócuos diante do desenvolvimento desenfreado da técnica. Ao homem só cabe se adaptar a sua lógica perversa.
O que se percebe, desde os primórdios da utilização da racionalidade como ordenação do mundo e organização do cosmos, até a caótica produção racional do capitalismo tardio, é que a razão humana tem se frustrado em sua intenção de descobrir a verdade sobre o seu uso, de se auto-iluminar (autocriticar). A ela cabe recuperar sua concepção objetiva de transformação dos homens e do mundo, por meio dos homens.
Ao se hipertrofiar, a razão instrumental penetra no meio administrativo das grandes empresas, no meio jurídico, nos grandes laboratórios, nos mass media, nos exércitos, nas universidades, enfim, em tudo o que se refira às relações de produção dessa sociedade e a sua forma de controle e manutenção. Essa nova conjuntura social é o cenário de investigação da Teoria Crítica com relação àquilo que seus membros diziam ser o “mundo administrado”. Esse último seria a realidade do pós-guerra, ao qual o Estado não só tem o domínio legítimo da coerção física, como também da coerção ideologicamente aparelhada pelos meios de comunicação de massa. A dominação se estende da fábrica às mentes e ao inconsciente das pessoas em torno de um controle absoluto e ilimitado pela burguesia. O mundo administrado é aquele em que se desapareceram os esconderijos (ADORNO, 1966, p.91). Ao cidadão comum, resta nada mais do que agir mecanicamente segundo o direcionamento das leis do mercado e atuar no mundo mediante duas ações: consumir e descartar tudo o que estiver ao alcance financeiro de um mundo em que a troca é generalizada e impessoal. Os teóricos frankfurtianos se lançam na crítica à razão instrumental, para descobrir o porquê de a complexidade do todo ser reduzida à particularidade de coisa; qual o motivo de esse tipo de razão instrumentalizar tudo, até a vida humana, como um meio por si só.
Um dos momentos mais explícitos dessa catástrofe humana se deu nos campos de concentração que se proliferaram nos territórios da Europa. Auschwitz é o exemplo do mais monstruoso uso da razão, uma utilização racional para a produção de irracionalidades impensáveis em tal grau de esclarecimento. “Milhões de homens inocentes [...] foram sistematicamente assassinados” (ADORNO, 1970c, p.81) em um fenômeno que não deve ser tratado como uma aberração na história, mas como algo que era possível de ser feito naquela época segundo a forma unilateral pela qual foi conduzido o desenvolvimento humano. Tal fato não representa uma “regressão” em direção ao passado, em direção aos primórdios da raça humana, mas se trata de um dos possíveis rostos da civilização industrial ocidental. “Que aquilo tenha acontecido é por si só indício de tendência extremamente poderosa da sociedade" (ADORNO, 1970c, p.81). Esse tipo de processo civilizador constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e emancipatória dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossos tempos.
Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, ‘a organização científica do trabalho’ de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber (LÖWY, 2000, p.51).
Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa estar dormindo para produzir monstros[1]. Pior: quando acordada, produz as piores e inimagináveis monstruosidades que ela própria desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso racional, ético ou moral, porque, em nossa época, até a razão e a linguagem são usadas para fins irracionais.
Cada vez mais a razão é usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos nazistas, soviéticos, e na carnificina americana que levou à dizimação de duas cidades japonesas por uma demonstração de força e poder.
Benjamin, voraz crítico do progresso capitalista, vê esse suposto movimento do progresso em direção ao futuro da nossa civilização, como algo prenhe de catástrofes, gestadas no próprio coração da modernidade. Se por meio dele atingimos, como nunca na história da humanidade, um patamar excepcional de bem-estar material, podemos também creditar ao progresso uma exploração mais destrutiva, sistemática e mortífera da natureza e o inegável aperfeiçoamento das técnicas de guerra e de extermínio de seres humanos. Igualmente, podemos creditar a ele, como uma perfeita combinação entre progresso técnico e regressão social, a emergência do fascismo, que não deve ser descartada como historicamente acidental, nem como um estado de exceção político/social que não se repetirá. Num de seus mais famosos e últimos escritos, as “Teses sobre o conceito de história”, o autor adverte o que para ele é central no processo da Aufklärung (esclarecimento): “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1996c, p.225).
Havia também uma outra catástrofe que preocupava Benjamin: a que se apresentava ainda como a “eterna repetição do mesmo”, a que transforma grandes massas em Sísifos e Tântalos (Benjamin Apud LÖWY, 1990, p.211; LÖWY, 1992, p.121), condenados à mesmice a ver os objetos de seu desejo diante de seus olhos e infinitamente distantes de sua posse. Movimentos mecânicos, gestos automáticos, tarefas fragmentadas, pensamentos fragmentados, mundo em eterna incompletude, tudo sempre disfarçado em moda e novidade. Substituição frenética do novo pelo cada vez mais novo que já nasce obsoleto.
Essa é uma barbárie menos explícita, está difusa no meio social entre um trânsito dinâmico de ideologias pulverizadas pelos grandes aparelhos estatais. É por esse tipo de ordem que a razão instrumental irá se hipertrofiar, dominando todas as esferas da vida social. O discurso técnico-calculista irá permear as mediações humanas e irá se tornar o imperativo da ordem do mundo capitalista, em que, antes de tudo, está presente o lucro, a produção, a eficiência e a economia. A ética e os preceitos morais são inócuos diante do desenvolvimento desenfreado da técnica. Ao homem só cabe se adaptar a sua lógica perversa.
O que se percebe, desde os primórdios da utilização da racionalidade como ordenação do mundo e organização do cosmos, até a caótica produção racional do capitalismo tardio, é que a razão humana tem se frustrado em sua intenção de descobrir a verdade sobre o seu uso, de se auto-iluminar (autocriticar). A ela cabe recuperar sua concepção objetiva de transformação dos homens e do mundo, por meio dos homens.
Ao se hipertrofiar, a razão instrumental penetra no meio administrativo das grandes empresas, no meio jurídico, nos grandes laboratórios, nos mass media, nos exércitos, nas universidades, enfim, em tudo o que se refira às relações de produção dessa sociedade e a sua forma de controle e manutenção. Essa nova conjuntura social é o cenário de investigação da Teoria Crítica com relação àquilo que seus membros diziam ser o “mundo administrado”. Esse último seria a realidade do pós-guerra, ao qual o Estado não só tem o domínio legítimo da coerção física, como também da coerção ideologicamente aparelhada pelos meios de comunicação de massa. A dominação se estende da fábrica às mentes e ao inconsciente das pessoas em torno de um controle absoluto e ilimitado pela burguesia. O mundo administrado é aquele em que se desapareceram os esconderijos (ADORNO, 1966, p.91). Ao cidadão comum, resta nada mais do que agir mecanicamente segundo o direcionamento das leis do mercado e atuar no mundo mediante duas ações: consumir e descartar tudo o que estiver ao alcance financeiro de um mundo em que a troca é generalizada e impessoal. Os teóricos frankfurtianos se lançam na crítica à razão instrumental, para descobrir o porquê de a complexidade do todo ser reduzida à particularidade de coisa; qual o motivo de esse tipo de razão instrumentalizar tudo, até a vida humana, como um meio por si só.
Desde a secularização do conhecimento iniciado com o fim da tutela eclesiástica e passando pela emancipação política, econômica, cultural e social da classe burguesa, até o fim trágico e catastrófico do século XX, a razão teve um profundo impacto na coordenação desses eventos. Seja para libertar e conciliar, ou para oprimir e destruir, o uso da razão durante esse processo foi resultado de uma condução unilateral em torno do desenvolvimento humano. Se a história de formação do sistema capitalista por um lado libertou e emancipou os homens de domínios arbitrários da tradição e da natureza, por outro, empreendeu formas cruéis e destrutivas de dominação e exploração. Assim sendo, é por um entendimento mais claro do uso meramente instrumental do conhecimento racional que se torna necessário investigar como esse tipo de racionalidade calculista-instrumental se hipertrofiou e abrangeu todos os campos da vida social.
[1] “Auschwitz não é para se considerar por uma analogia com a destruição das cidades-Estado da Grécia antiga, como um simples aumento gradual do horror, diante do qual é possível manter sua alma tranqüila. Mas certamente o martírio e a humilhação sem precedente daqueles que foram deportados como gado irradia uma luz mortalmente crua sobre o passado mais longínquo, em cuja violência obtusa e sem planejamento já estava posta de maneira teleológica a violência tramada cientificamente” (ADORNO, 1993, p.205).
Leonardo de Lucas S. Domingues - novembro de 2006.
quarta-feira, julho 01, 2009
"Meine Damen und Herren: das ist sehr dialektisch!" (Adorno)
A construção da vida está, atualmente, muito mais em poder dos fatos que em poder de convicções, e de fatos que quase nunca serviram como base de convicções (BENJAMIN, Rua de Mão Única).
Pense sobre isso o que quiser, mas pense. Weiterdenken!
Pense sobre isso o que quiser, mas pense. Weiterdenken!
segunda-feira, junho 08, 2009
Experiência e Pobreza

1933
Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: "Ele é muito jovem, em breve poderá compreender". Ou: "Um dia ainda compreenderá". Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?
Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: "Ele é muito jovem, em breve poderá compreender". Ou: "Um dia ainda compreenderá". Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?
Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boca em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano.
Uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica, sobrepondo-se ao homem. A angustiante riqueza de idéias que se difundiu entre, ou melhor, sobre as pessoas, com a renovação da astrologia e da ioga, da Christian Science e da quiromancia, do vegetarismo e da gnose, da escolástica e do espiritualismo, é o reverso dessa miséria. Porque não é uma renovação autêntica que está em jogo, e sim uma galvanização. Pensemos nos esplêndidos quadros de Ensor, nos quais uma grande fantasmagoria enche as ruas das metrópoles: pequeno-burgueses com fantasias canavalescas, máscaras disformes brancas de farinha, coroas de folha de estanho, rodopiam imprevisivelmente ao longo das ruas. Esses quadros são talvez a cópia da Renascença terrível e caótica na qual tantos depositam suas esperanças. Aqui se revela, com toda clareza, que nossa pobreza de experiências é apenas uma parte da grande pobreza que recebeu novamente um rosto, nítido e preciso como o do mendigo medieval. Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós? A horrível mixórdia de estilos e concepções do mundo do século passado mostrou-nos com tanta clareza aonde esses valores culturais podem nos conduzir, quando a experiência nos é subtraída, hipócrita ou sorrateiramente, que é hoje em dia uma prova de honradez confessar nossa pobreza. Sim, é preferível confessar que essa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge assim uma nova barbárie.
Barbárie? Sim. Respondemos afirmativamente para introduzir um conceito novo e positivo de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de experiência? Ela o impele a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda. Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir de uma tábula rasa. Queriam uma prancheta: foram construtores. A essa estirpe de construtores pertenceu Descartes, que baseou sua filosofia numa única certeza — penso, logo existo — e dela partiu. Também Einstein foi um construtor assim, que subitamente perdeu o interesse por todo o universo da física, exceto por um único problema — uma pequena discrepância entre as equações de Newton e as observações astronômicas. Os artistas tinham em mente essa mesma preocupação de começar do principio quando se inspiravam na matemática e reconstruíam o mundo, como os cubistas, a partir de formas estereométricas, ou quando, como Klee, se inspiravam nos engenheiros. Pois as figuras de Klee são por assim dizer desenhadas na prancheta, e, assim como num bom automóvel a própria carroceria obedece à necessidade interna do motor, a expressão fisionômica dessas figuras obedece ao que está dentro. Ao que está dentro, e não à interioridade: é por isso que elas são bárbaras.
Algumas das melhores cabeças já começaram a ajustar-se a essas coisas. Sua característica é uma desilusão radical com o século e ao mesmo tempo uma total fidelidade a esse século. Pouco importa se é o poeta Bert Brecht afirmando que o comunismo não é a repartição mais justa da riqueza, mas da pobreza, ou se é o precursor da moderna arquitetura, Adolf Loos, afirmando: "Só escrevo para pessoas dotadas de uma sensibilidade moderna.. Não escrevo para os nostálgicos da Renascença ou do Rococó". Tanto um pintor complexo como Paul Klee quanto um arquiteto programático como Loos rejeitam a imagem do homem tradicional, solene, nobre, adornado com todas as oferendas do passado, para dirigir-se ao contemporâneo nu, deitado como um recém-nascido nas fraldas sujas de nossa época. Ninguém o saudou tão alegre e risonhamente como Paul Scheerbart. Ele escreveu romances que de longe se parecem com os de Júlio Verne, mas ao contrário de Verne, que se limita a catapultar interminavelmente no espaço, nos veículos mais fantásticos, pequenos rentiers ingleses ou franceses, Scheerbart se interessa pela questão de como nossos telescópios, aviões e foguetes transformam os homens antigos em criaturas inteiramente novas, dignas de serem vistas e amadas. De resto, essas criaturas também falam uma língua inteiramente nova. Decisiva, nessa linguagem, é a dimensão arbitrária e construtiva, em contraste com a dimensão orgânica. É esse o aspecto inconfundível na linguagem dos homens de Scheerbart, ou melhor, da sua "gente"; pois tal linguagem recusa qualquer semelhança com o humano, princípio fundamental do humanismo. Mesmo em seus nomes próprios: os personagens do seu livro, intitulado Lesabéndio, segundo o nome do seu herói, chamam-se Peka, Labu, Sofanti e outros do mesmo gênero. Também os russos dão aos seus filhos nomes "desumanizados": são nomes como Outubro, aludindo à Revolução, ou Pjatiletka, aludindo ao Plano Qüinqüenal, ou Aviachim, aludindo a uma companhia de aviação. Nenhuma renovação técnica da língua, mas sua mobilização a serviço da luta ou do trabalho e, em todo caso, a serviço da transformação da realidade, e não da sua descrição.
Mas, para voltarmos a Scheerbart: ele atribui a maior importância à tarefa de hospedar sua "gente", e os co-cidadãos, modelados à sua imagem, em acomodações adequadas à sua condição social, em casas de vidro, ajustáveis e móveis, tais como as construídas, no meio tempo, por Loos e Le Corbusier. Não é por acaso que o vidro é um material tão duro e tão liso, no qual nada se fixa. É também um material frio e sóbrio. As coisas de vidro não têm nenhuma aura. O vidro é em geral o inimigo do mistério. E também o inimigo da propriedade. O grande romancista André Gide disse certa vez: cada coisa que possuo se torna opaca para mim. Será que homens como Scheerbart sonham com edifícios de vidro, porque professam uma nova pobreza? Mas uma comparação talvez seja aqui mais útil que qualquer teoria. Se entrarmos num quarto burguês dos anos oitenta, apesar de todo o "aconchego" que ele irradia, talvez a impressão mais forte que ele produz se exprima na frase: "Não tens nada a fazer aqui". Não temos nada a fazer ali porque não há nesse espaço um único ponto em que seu habitante não tivesse deixado seus vestígios. Esses vestígios são os bibelôs sobre as prateleiras, as franjas ao pé das poltronas, as cortinas transparentes atrás das janelas, o guarda-fogo diante da lareira. Uma bela frase de Brecht pode ajudar-nos a compreender o que está em jogo: "Apaguem os rastros!", diz o estribilho do primeiro poema da Cartilha para os citadinos. Essa atitude é a oposta da que é determinada pelo hábito, num salão burguês. Nele, o "interior" obriga o habitante a adquirir o máximo possível de hábitos, que se ajustam melhor a esse interior que a ele próprio. Isso pode ser compreendido por qualquer pessoa que se lembra ainda da indignação grotesca que acometia o ocupante desses espaços de pelúcia quando algum objeto da sua casa se quebrava. Mesmo seu modo de encolerizar-se — e essa emoção, que começa a extinguir-se, era manipulada com grande virtuosismo — era antes de mais nada a reação de um homem cujos "vestígios sobre a terra" estavam sendo abolidos. Tudo isso foi eliminado por Scheerbart com seu vidro e pelo Bauhaus com seu aço: eles criaram espaços em que é difícil deixar rastros. "Pelo que foi dito", explicou Scheerbart há vinte anos, "podemos falar de uma cultura de vidro. O novo ambiente de vidro mudará completamente os homens. Deve-se apenas esperar que a nova cultura de vidro não encontre muitos adversários."
Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso. Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes, podemos afirmar o oposto: eles "devoraram" tudo, a "cultura" e os "homens", e ficaram saciados e exaustos. "Vocês estão todos tão cansados — e tudo porque não concentraram todos os seus pensamentos num plano totalmente simples mas absolutamente grandioso." Ao cansaço segue-se o sonho, e não é raro que o sonho compense a tristeza e o desânimo do dia, realizando a existência inteiramente simples e absolutamente grandiosa que não pode ser realizada durante o dia, por falta de forças. A existência do camundongo Mickey é um desses sonhos do homem contemporâneo. É uma existência cheia de milagres, que não somente superam os milagres técnicos como zombam deles. Pois o mais extraordinário neles é que todos, sem qualquer improvisadamente, saem do corpo do camundongo Mickey, dos seus aliados e perseguidores, dos móveis mais cotidianos, das árvores, nuvens e lagos. A natureza e a técnica, o primitivismo e o conforto se unificam completamente, e aos olhos das pessoas, fatigadas com as complicações infinitas da vida diária e que vêem o objetivo da vida apenas como o mais remoto ponto de fuga numa interminável perspectiva de meios, surge uma existência que se basta a si mesma, em cada episódio, do modo mais simples e mais cômodo, e na qual um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha, e uma fruta na árvore se arredonda como a gôndola de um balão.
Podemos agora tomar distância para avaliar o conjunto. Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá-las muitas vezes a um centésimo do seu valor para recebermos em troca a moeda miúda do "atual". A crise econômica está diante da porta, atrás dela está uma sombra, a próxima guerra. A tenacidade é hoje privilégio de um pequeno grupo dos poderosos, que sabe Deus não são mais humanos que os outros; na maioria bárbaros, mas não no bom sentido. Porém os outros precisam instalar-se, de novo e com poucos meios. São solidários dos homens que fizeram do novo uma coisa essencialmente sua, com lucidez e capacidade de renúncia. Em seus edifícios, quadros e narrativas a humanidade se prepara, se necessário, para sobreviver à cultura. E o que é mais importante: ela o faz rindo. Talvez esse riso tenha aqui e ali um som bárbaro. Perfeito. No meio tempo, possa o indivíduo dar um pouco de humanidade àquela massa, que um dia talvez retribua com juros e com os juros dos juros.
Texto de Walter Benjamin
Tradução de Sérgio Paulo Rouanet
Ensaio obtido em Walter Benjamin – Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 114-119.
Retirado de: http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/benjamin/benjamin_02.htm
quinta-feira, maio 28, 2009
AMASSA
AMASSA
Amassa a massa
Põe o ovo na massa
Amassa o povo até virar massa
Assa
Assa a massa com ovo
Passa do ponto e queima o povo
Acha o ponto da massa
Que o povo virou ovo
E começa tudo de novo
Amassa a massa
Põe ovo na massa de novo.
Gerinho da Terra
Ourinhos 28/02/2004
Amassa a massa
Põe o ovo na massa
Amassa o povo até virar massa
Assa
Assa a massa com ovo
Passa do ponto e queima o povo
Acha o ponto da massa
Que o povo virou ovo
E começa tudo de novo
Amassa a massa
Põe ovo na massa de novo.
Gerinho da Terra
Ourinhos 28/02/2004
quinta-feira, abril 30, 2009
Harry Braverman: o operário letrado do qual falava o poema de Brecht
Estudamos muito e aperfeiçoamos, ultimamente, a grande invenção civilizada da divisão do trabalho; só lhe damos um falso nome. Não é, a rigor, o trabalho que é dividido; mas os homens: divididos em meros segmentos de homens - quebrados em pequenos fragmentos e migalhas de vida; de tal modo que toda partícula de inteligência deixada no homem não é bastante para fazer um alfinete, um prego, mas se exaure ao fazer a ponta de um alfinete ou a cabeça de um prego (1977, p. 76)
BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
terça-feira, abril 21, 2009
Teses sobre Karl Marx
FERNANDO HADDAD
I
O S SOCIALISTAS, até hoje, incidiram no erro de acreditar que o desenvolvimento
das forças produtivas, sob o capitalismo, faria explodir as relações
de produção que o configuram, quando na verdade, ao contrário das antigas
formações sociais, o capitalismo se vale desse desenvolvimento para se legitimar,
sendo que a dialética entre as forças produtivas e as flexíveis relações capitalistas
de produção se desdobra de uma maneira historicamente nova, a um só
tempo dinâmica e estaticamente.
II
Os socialistas se valem das crises do capitalismo, expressão do seu caráter
inerentemente contraditório e irracional, para afirmar seu ponto de vista. Não
obstante, a questão sobre qual será a crise final desse sistema é uma questão
político-prática e não econômico-teórica.
III
Os socialistas querem erradicar do mundo a pobreza de espírito. Tomam-
na como produto direto das atuais condições materiais de existência. O
movimento socialista funda-se no materialismo, mas entendido como crítica
social, tendente a sua consumação.
IV
O socialismo não deve ser tomado como um fim, como telos, mas como
um novo começo, como reconciliação entre homem e natureza que não reivindica
um passado longínquo, pois essa reconciliação se dá num outro plano,
num patamar jamais atingido.
V
O socialismo não deve ser tomado como uma ordem fundada em valores
por ele criados. O socialismo é o desentrave definitivo do processo de
individuação, obstruído pela sociedade de classes. O socialismo é a exuberância
dos indivíduos de uma vez por todas libertos de valores prescritos, unidos solidariamente
pelos laços de justiça, exclusivamente.
VI
O socialismo é igualmente o desentrave do processo de formação de urna
comunidade internacional que preserva as diferenças entre os povos, e que faz
délas o testemunho da riqueza do enfim realizado gênero humano.
VII
O socialismo é o reino da justiça onde se exerce a liberdade.
VIII
Os socialistas pretenderam transformar o mundo; cabe, porém, transformar
os homens, isto é, motivá-los para aquela transformação. O socialismo
depende de um salto psicoterapêutico para além da dominação orquestrada
democraticamente na esfera pública.
IX
O socialismo não é um desdobramento lógico do capitalismo, embora
seja uma possibilidade objetiva. O lógico é tão-somente o histórico que se impôs,
por vezes ilógicamente. O socialismo é a saída talvez ilógica de um mundo
certamente irracional.
X
O socialismo é a superação prática da metafísica realmente existente.
Como a dialética é tão-somente o fruto do esforço mental de compreensão da
fantasmagoria reinante, o advento do socialismo implicará sua obsolescência.
XI
Até lá, os socialistas devem reinterpretar continuamente o mundo social
para uma práxis transformadora sempre renovada.
Fernando Haddad professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
I
O S SOCIALISTAS, até hoje, incidiram no erro de acreditar que o desenvolvimento
das forças produtivas, sob o capitalismo, faria explodir as relações
de produção que o configuram, quando na verdade, ao contrário das antigas
formações sociais, o capitalismo se vale desse desenvolvimento para se legitimar,
sendo que a dialética entre as forças produtivas e as flexíveis relações capitalistas
de produção se desdobra de uma maneira historicamente nova, a um só
tempo dinâmica e estaticamente.
II
Os socialistas se valem das crises do capitalismo, expressão do seu caráter
inerentemente contraditório e irracional, para afirmar seu ponto de vista. Não
obstante, a questão sobre qual será a crise final desse sistema é uma questão
político-prática e não econômico-teórica.
III
Os socialistas querem erradicar do mundo a pobreza de espírito. Tomam-
na como produto direto das atuais condições materiais de existência. O
movimento socialista funda-se no materialismo, mas entendido como crítica
social, tendente a sua consumação.
IV
O socialismo não deve ser tomado como um fim, como telos, mas como
um novo começo, como reconciliação entre homem e natureza que não reivindica
um passado longínquo, pois essa reconciliação se dá num outro plano,
num patamar jamais atingido.
V
O socialismo não deve ser tomado como uma ordem fundada em valores
por ele criados. O socialismo é o desentrave definitivo do processo de
individuação, obstruído pela sociedade de classes. O socialismo é a exuberância
dos indivíduos de uma vez por todas libertos de valores prescritos, unidos solidariamente
pelos laços de justiça, exclusivamente.
VI
O socialismo é igualmente o desentrave do processo de formação de urna
comunidade internacional que preserva as diferenças entre os povos, e que faz
délas o testemunho da riqueza do enfim realizado gênero humano.
VII
O socialismo é o reino da justiça onde se exerce a liberdade.
VIII
Os socialistas pretenderam transformar o mundo; cabe, porém, transformar
os homens, isto é, motivá-los para aquela transformação. O socialismo
depende de um salto psicoterapêutico para além da dominação orquestrada
democraticamente na esfera pública.
IX
O socialismo não é um desdobramento lógico do capitalismo, embora
seja uma possibilidade objetiva. O lógico é tão-somente o histórico que se impôs,
por vezes ilógicamente. O socialismo é a saída talvez ilógica de um mundo
certamente irracional.
X
O socialismo é a superação prática da metafísica realmente existente.
Como a dialética é tão-somente o fruto do esforço mental de compreensão da
fantasmagoria reinante, o advento do socialismo implicará sua obsolescência.
XI
Até lá, os socialistas devem reinterpretar continuamente o mundo social
para uma práxis transformadora sempre renovada.
Fernando Haddad professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
quarta-feira, abril 15, 2009
Síntese/Antítese
Quando o poder da síntese desaparece da vida dos homens e quando as antíteses perdem sua relação vital e seu poder de interação e conquistam a independência, é então que a filosofia se torna uma necessidade sentida.
G.W.F. Hegel
G.W.F. Hegel
sexta-feira, janeiro 16, 2009
Quem é o sujeito que está na foto em p&b utilizando minha identidade?
Ele já pensou em escrever um livro sobre a ética em Tolstoi e via no processo revolucionário russo, iniciado em 1905, a grande alternativa ao mundo ocidental. Ficou tão entusiasmado com esse último fato que até aprendeu a língua de Dostoiévski e Máximo Gorki em pouquíssimo tempo.
terça-feira, junho 03, 2008
Ensino de Filosofia e Sociologia passa a ser obrigatório
O presidente em exercício José Alencar sancionou nesta segunda (2), em solenidade no Palácio do Planalto, o projeto de lei que obriga as escolas públicas e particulares do ensino médio a incluir nos seus currículos filosofia e sociologia. A medida atingirá um universo de 10 milhões de estudantes matriculados em mais de 25 mil escolas no país.
As disciplinas foram retiradas dos currículos em 1971 durante o regime militar. Elas foram substituídas pela matéria Organização Social e Política Brasileira (OSPB). O resgate delas foi proposto pelo deputado Ribamar Alves (PSB-MA) que teve seu projeto aprovado no Senado no início do mês passado.
“São disciplinas que permitem ao cidadão exercer seu direito, jamais poderiam ficar fora das disciplinas do ensino médio. Isso é uma grande vitória para o país”, disse José Alencar, que afirmou que o mesmo teria feito (sanção) o presidente Lula se estivesse em Brasília.
A solenidade contou com a presença de representantes de entidades estudantis, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), sindicatos de professores e associações profissionais de sociólogos e filósofos.
O ministro Fernando Haddad (Educação) afirmou que os ensinos de sociologia e filosofia vão ajudar a formar indivíduos capazes de exercer plenamente seus direitos, “de se situar no mundo do trabalho, social e deslumbrar novos horizontes”. Com a lei, que passa a vigorar assim que for publicada no Diário Oficial da União, o ministro diz ainda que será ampliada a rede federal de ensino médio que passará a funcionar com uma política pedagógica diferenciada: educação científica, profissional e humanística.
O representante do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Calegari, afirmou que durante a ditadura militar as duas disciplinas foram alvos preferenciais de todos aqueles que temiam “a luz e a vida, não por acaso foi grande a perseguição de professores e alunos envolvidos no aprendizado”. Ele também criticou o governo de Fernando Henrique Cardoso que teve a oportunidade de sancionar um projeto de lei da mesma natureza, mas preferiu vetá-lo. “Nos anos 90, no alto do pensamento das práticas neoliberais, essas disciplinas voltaram a ser alvo preferencial daqueles que imaginavam uma educação pobre, uma idéia de currículo mínimo e reduzido”.
As disciplinas foram retiradas dos currículos em 1971 durante o regime militar. Elas foram substituídas pela matéria Organização Social e Política Brasileira (OSPB). O resgate delas foi proposto pelo deputado Ribamar Alves (PSB-MA) que teve seu projeto aprovado no Senado no início do mês passado.
“São disciplinas que permitem ao cidadão exercer seu direito, jamais poderiam ficar fora das disciplinas do ensino médio. Isso é uma grande vitória para o país”, disse José Alencar, que afirmou que o mesmo teria feito (sanção) o presidente Lula se estivesse em Brasília.
A solenidade contou com a presença de representantes de entidades estudantis, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), sindicatos de professores e associações profissionais de sociólogos e filósofos.
O ministro Fernando Haddad (Educação) afirmou que os ensinos de sociologia e filosofia vão ajudar a formar indivíduos capazes de exercer plenamente seus direitos, “de se situar no mundo do trabalho, social e deslumbrar novos horizontes”. Com a lei, que passa a vigorar assim que for publicada no Diário Oficial da União, o ministro diz ainda que será ampliada a rede federal de ensino médio que passará a funcionar com uma política pedagógica diferenciada: educação científica, profissional e humanística.
O representante do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Calegari, afirmou que durante a ditadura militar as duas disciplinas foram alvos preferenciais de todos aqueles que temiam “a luz e a vida, não por acaso foi grande a perseguição de professores e alunos envolvidos no aprendizado”. Ele também criticou o governo de Fernando Henrique Cardoso que teve a oportunidade de sancionar um projeto de lei da mesma natureza, mas preferiu vetá-lo. “Nos anos 90, no alto do pensamento das práticas neoliberais, essas disciplinas voltaram a ser alvo preferencial daqueles que imaginavam uma educação pobre, uma idéia de currículo mínimo e reduzido”.
Retirado de: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=38119
segunda-feira, maio 19, 2008
Lukács e a Teoria do Romance
Bem aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhes estão abertos e que têm de seguir! Bem aventurados os tempos cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para eles tudo é novo e todavia familiar; tudo significa aventura e todavia tudo lhes pertence. O mundo é vasto e contudo, nele se encontram à vontade, porque o fogo que arde na sua alma é da mesma natureza que as estrelas. O mundo e o eu, a luz e o fogo distinguem-se porque o fogo é a alma de toda a luz e todo o fogo se veste de luz. Assim não há um único ato da alma que não adquira plena significação e não venha a finalizar nesta dualidade: perfeito no seu sentido e perfeito para os sentidos: perfeito porque o seu agir se destaca dela e porque, tornando autônomo, encontra o seu próprio sentido e o traça como que em círculo à sua volta. “Filosofia”, diz Novalis, “significa propriamente nostalgia, aspiração a estar em toda parte como em sua casa”. É por isso que a filosofia, enquanto forma de vida assim como enquanto determina a forma e o conteúdo da criação literária, é sempre o sintoma de uma laceração entre o interior e o exterior, significativa de uma diferença essencial entre o eu e o mundo, de uma não-adequação entre a alma e a ação. É a razão pela qual os tempos felizes não tem filosofia, ou – o que vem a dar no mesmo – todos os homens desses tempos são filósofos, detentores do objetivo utópico de qualquer filosofia. Porque qual pode ser a tarefa da verdadeira filosofia, senão levantar essa carta arquetípica.
segunda-feira, outubro 15, 2007
"ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de esperança."
O último discurso
de “O Grande Ditador”
Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
Canto ao Homem do Povo - Charles Chaplin
Carlos Drummond de Andrade
I
Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,
era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,
era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.
Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,
vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.
Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.
Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.
Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.
Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.
E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
(...)
V
Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.
Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos
VI
Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.
Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.
O ofício é o ofício
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.
Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.
E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e de esperança.
segunda-feira, setembro 24, 2007
De profundis
É um campo de restolho, sob uma chuva negra.
É uma árvore castanha, que se eleva solitária.
É um vento sibilante, que ronda cabanas vazias –
Que triste tarde esta.
Passando pela aldeia
A terna órfã recolhe ainda a escassa espiga.
Os grandes olhos de oiro procuram no entardecer
E o seu seio aspira ao noivo celestial.
No regresso
Os pastores encontraram o doce corpo
Apodrecido entre espinheiros.
Sou uma sombra longe de ameaçadoras aldeias.
Bebi da fonte do bosque
O silêncio de Deus.
Sobre a minha fronte cai frio metal.
Aranhas procuram o meu coração.
Há uma luz que se apaga na minha boca.
À noite encontrei-me numa charneca,
Cheio de dejectos e poeira sideral.
Nas aveleiras
Voltavam a soar anjos de cristal.
(1913)
Georg Trakl
(Tradução de João Barrento)
É uma árvore castanha, que se eleva solitária.
É um vento sibilante, que ronda cabanas vazias –
Que triste tarde esta.
Passando pela aldeia
A terna órfã recolhe ainda a escassa espiga.
Os grandes olhos de oiro procuram no entardecer
E o seu seio aspira ao noivo celestial.
No regresso
Os pastores encontraram o doce corpo
Apodrecido entre espinheiros.
Sou uma sombra longe de ameaçadoras aldeias.
Bebi da fonte do bosque
O silêncio de Deus.
Sobre a minha fronte cai frio metal.
Aranhas procuram o meu coração.
Há uma luz que se apaga na minha boca.
À noite encontrei-me numa charneca,
Cheio de dejectos e poeira sideral.
Nas aveleiras
Voltavam a soar anjos de cristal.
(1913)
Georg Trakl
(Tradução de João Barrento)
terça-feira, setembro 18, 2007
Perguntas de um Operário Letrado
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
Bertold Brecht (1898-1956)
sexta-feira, setembro 14, 2007
Discurso no Aniversário de "The People's Paper"
Proferido em Londres, a 14 de Abril de 1856
Primeira Edição: Publicado no The People's Paper de n." 207, de 19 de Abril de 1856.
Fonte: . Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA (Traduzido do inglês e publicado segundo o texto do jornal).
Transcrição e HTML: Fernando Antônio de Souza Araújo, março 2007.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.
As chamadas revoluções de 1848 não foram mais do que pobres incidentes — pequenas fracturas e fissuras na dura crosta da sociedade europeia. No entanto, elas denunciavam o abismo. Por detrás da superfície aparentemente sólida, elas revelavam oceanos de matéria líquida que apenas precisavam de expansão para fazer em bocados continentes de rocha firme. Barulhenta e confusamente, proclamaram a emancipação do proletário, isto é, o segredo do século XIX e da revolução deste século.
Esta revolução social — é certo — não foi uma novidade inventada em 1848. O vapor, a electricidade e a máquina de fiação foram revolucionários de um tipo muito mais perigoso do que mesmo os cidadãos Barbès, Raspail e Blanqui. Mas, embora a atmosfera em que vivemos pese sobre cada um de nós com uma força de 20 000 libras, senti-la vós? Não a [sentis] mais do que a sociedade europeia antes de 1848 sentia a atmosfera revolucionária que a envolvia e pressionava de todos os lados.
Há um grande facto, característico deste nosso século XIX, um facto que nenhum partido ousa negar. Por um lado, despontaram para a vida forças industriais e científicas, de que nenhuma época da história humana anterior alguma vez tinha suspeitado. Por outro lado, existem sintomas de decadência que ultrapassam de longe os horrores registados nos últimos tempos do Império Romano.
Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário. Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido. Alguns partidos podem lamentar-se disso; outros podem desejar ver-se livres das artes modernas, a fim de se verem livres dos conflitos modernos. Ou podem imaginar que tão assinalável progresso na indústria requer que seja completado por uma igualmente assinalável regressão na política. Pela nossa parte, não nos engana a forma do espírito astucioso que continua a marcar todas estas contradições. Sabemos que, para trabalharem bem, as novas forças da sociedade apenas precisam de ser dominadas por novos homens — e os operários são esses [novos homens]. Eles são tanto uma invenção dos tempos modernos como a própria maquinaria. Nos sinais que desorientam a classe média, a aristocracia e os pobres profetas da regressão, reconhecemos o nosso bom amigo, Robin Goodfellow(1*), a velha toupeira que sabe trabalhar a terra tão rapidamente, esse digno sapador — a Revolução. Os operários ingleses são os primeiros filhos da indústria moderna. Certamente que não serão, então, os últimos a ajudar a revolução social produzida por essa indústria, uma revolução que significa a emancipação da sua própria classe em todo o mundo, [uma revolução] que é tão universal como a dominação do capital e a escravidão assalariada. Eu conheço as lutas heróicas por que a classe operária inglesa passou desde os meados do século passado — lutas menos celebradas, porque são amortalhadas em obscuridade e abafadas pelo historiador da classe média. Para vingar as malfeitorias da classe dominante havia na Idade Média, na Alemanha, um tribunal secreto, chamado "Vehmgericht". Se se visse uma cruz encarnada a marcar uma casa, as pessoas sabiam que o seu proprietário estava condenado pelo "Vehm". Todas as casas da Europa estão hoje marcadas com a misteriosa cruz encarnada. A História é o juiz — o seu executor, o proletário.
Primeira Edição: Publicado no The People's Paper de n." 207, de 19 de Abril de 1856.
Fonte: . Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA (Traduzido do inglês e publicado segundo o texto do jornal).
Transcrição e HTML: Fernando Antônio de Souza Araújo, março 2007.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.
As chamadas revoluções de 1848 não foram mais do que pobres incidentes — pequenas fracturas e fissuras na dura crosta da sociedade europeia. No entanto, elas denunciavam o abismo. Por detrás da superfície aparentemente sólida, elas revelavam oceanos de matéria líquida que apenas precisavam de expansão para fazer em bocados continentes de rocha firme. Barulhenta e confusamente, proclamaram a emancipação do proletário, isto é, o segredo do século XIX e da revolução deste século.
Esta revolução social — é certo — não foi uma novidade inventada em 1848. O vapor, a electricidade e a máquina de fiação foram revolucionários de um tipo muito mais perigoso do que mesmo os cidadãos Barbès, Raspail e Blanqui. Mas, embora a atmosfera em que vivemos pese sobre cada um de nós com uma força de 20 000 libras, senti-la vós? Não a [sentis] mais do que a sociedade europeia antes de 1848 sentia a atmosfera revolucionária que a envolvia e pressionava de todos os lados.
Há um grande facto, característico deste nosso século XIX, um facto que nenhum partido ousa negar. Por um lado, despontaram para a vida forças industriais e científicas, de que nenhuma época da história humana anterior alguma vez tinha suspeitado. Por outro lado, existem sintomas de decadência que ultrapassam de longe os horrores registados nos últimos tempos do Império Romano.
Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário. Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido. Alguns partidos podem lamentar-se disso; outros podem desejar ver-se livres das artes modernas, a fim de se verem livres dos conflitos modernos. Ou podem imaginar que tão assinalável progresso na indústria requer que seja completado por uma igualmente assinalável regressão na política. Pela nossa parte, não nos engana a forma do espírito astucioso que continua a marcar todas estas contradições. Sabemos que, para trabalharem bem, as novas forças da sociedade apenas precisam de ser dominadas por novos homens — e os operários são esses [novos homens]. Eles são tanto uma invenção dos tempos modernos como a própria maquinaria. Nos sinais que desorientam a classe média, a aristocracia e os pobres profetas da regressão, reconhecemos o nosso bom amigo, Robin Goodfellow(1*), a velha toupeira que sabe trabalhar a terra tão rapidamente, esse digno sapador — a Revolução. Os operários ingleses são os primeiros filhos da indústria moderna. Certamente que não serão, então, os últimos a ajudar a revolução social produzida por essa indústria, uma revolução que significa a emancipação da sua própria classe em todo o mundo, [uma revolução] que é tão universal como a dominação do capital e a escravidão assalariada. Eu conheço as lutas heróicas por que a classe operária inglesa passou desde os meados do século passado — lutas menos celebradas, porque são amortalhadas em obscuridade e abafadas pelo historiador da classe média. Para vingar as malfeitorias da classe dominante havia na Idade Média, na Alemanha, um tribunal secreto, chamado "Vehmgericht". Se se visse uma cruz encarnada a marcar uma casa, as pessoas sabiam que o seu proprietário estava condenado pelo "Vehm". Todas as casas da Europa estão hoje marcadas com a misteriosa cruz encarnada. A História é o juiz — o seu executor, o proletário.
Karl Marx (1818-1883)
Notas de Rodapé:
(1*) Robin Goodfellow: ser lendário que, segundo a crença popular inglesa, protegia e ajudava os homens. Vêmo-lo, por exemplo, em acção como Puck na peça de Shakespeare Sonho de Uma Noite de Verão. (Notada edição portuguesa.) (retornar ao texto)
Notas de Fim de Tomo:
Em 14 de Abril de 1856, num banquete em honra do quarto aniversário do jornal cartista The People's Paper, Marx, usando do direito que lhe foi concedido de falar em primeiro lugar, pronunciou um discurso sobre o papel histórico mundial do proletariado. A participação de Marx no aniversário de The People's Paper foi um dos exemplos mais brilhantes da ligação dos fundadores do comunismo científico com os cartistas ingleses, da aspiração de Marx e Engels de exercer uma influência ideológica no proletariado inglês e de apoiar os dirigentes cartistas com o objectivo de fazer ressurgir o movimento operário na Inglaterra numa base nova, socialista.
The People's Paper (O Jornal do Povo): semanário cartista publicado de Maio de 1852 até Junho de 1858 em Londres; entre Outubro de 1852 e Dezembro de 1856 Marx e Engels colaboraram no jornal, ajudando também a redigi-lo. Em Junho de 1858 o jornal passou para as mãos de homens de negócios ingleses.
quarta-feira, setembro 12, 2007
Eu, Etiqueta
Em minha calça está grudado um nome, que não é meu de batismo ou de cartório,
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto que nunca experimentei,
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada,
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens, letras falantes, gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências, costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação.
Não sou – vê-lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares, festas, praias, piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa. sou gravado de forma universal,
Seio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a coisa, coisamente.
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto que nunca experimentei,
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada,
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens, letras falantes, gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências, costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação.
Não sou – vê-lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares, festas, praias, piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa. sou gravado de forma universal,
Seio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
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