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terça-feira, junho 17, 2014

Tecnofilia

A tecnologia liberta ao mesmo tempo em que escraviza. A mudança que ela provoca altera profundamente o equilíbrio do ambiente.
Até há pouco tempo, as ferramentas utilizadas (uma chave de fenda, por exemplo) tinham pouca ou nenhuma interferência na sociedade. Hoje, elas desempenham papel central, atacando os pilares tradicionais à medida que propõem nova cultura cuja única meta parece ser a eficiência dos processos.
Família, trabalho, governo, escola, todos os antigos pilares sociais vêm sendo questionados. Em seu lugar, se propõe uma espécie de imperativo estatístico, que subordina as reivindicações da natureza, da biologia e das emoções, sem se responsabilizar pelo impacto humano.
O "como" de cada nova invenção ofusca seu "porquê". Objetividade, eficiência, especialização, padronização e mensuração tornaram-se os únicos objetivos –naturais, esperados e inquestionáveis.
A ênfase na eficiência disfarça a questão óbvia: que processo a tecnologia torna mais eficiente? Os antigos objetivos parecem ter ficado em segundo plano. O importante é se acomodar a novas exigências. A pesquisa de mercado se torna mais importante do que a de produto. Não há mais pessoas, só consumidores.
Quando a tecnologia se transforma na maior conquista da humanidade, o resultado é uma espécie de idolatria, em que cada elemento social busca validação e encontra satisfação na técnica que deveria servi-lo. Tecnófilos contemplam a tecnologia como uma musa, perfeita.
Não há dúvida de que a tecnologia traz progresso, mas é uma aliada que demanda fidelidade e obediência. Quem a segue sem questionar cria uma cultura sem fundamento moral, que se sobrepõe a processos mentais e a relações sociais.
À medida que nos acomodamos ao mundo em que o progresso tecnológico se torna objetivo central, esquecemos que ele diminui a convivência, aumenta o individualismo e submete dados pessoais ao escrutínio de instituições. Cada pessoa é mais facilmente monitorada, classificada, reduzida a número, perplexa com decisões aparentemente irracionais feitas em seu nome.
O computador é uma tecnologia de comando e controle. Seu domínio mostra a perda de confiança no julgamento humano e na subjetividade das dimensões morais. Só fatos importam, não há incentivo ao pensamento crítico. Palavras relevantes, como "liberdade", "verdade", "inteligência" e "memória", são redefinidas discretamente.
O "perfeito", em tempos descartáveis, já não é tão importante quanto a performance. É mais importante fazer rapidamente do que bem. A regra da indústria se tornou "lance antes, conquiste mercado, corrija depois". A quantidade de versões beta e "recalls" não deixa dúvidas.
Toda cultura precisa negociar com a tecnologia. A oposição não deve ser à técnica, mas à sua idolatria, que descarta críticas. A engenhosidade tecnológica é digna de admiração. Mas não é mais importante do que as artes, a música, a arquitetura, a literatura e a ciência.
É preciso cultivar uma ambivalência digital. Não se pode aceitar a eficiência como principal objetivo das relações. A tecnologia não é parte da ordem natural das coisas.
Essa postura crítica tende a devolver a tecnologia ao seu devido lugar e, no processo, torná-la melhor. 

Texto de Luli Radfahrer publicado na Folha de São Paulo do dia 16/062014

segunda-feira, junho 25, 2012

Coronelismo intelectual: não há muita diferença entre a mesa de bar e a mesa-redonda dos acadêmicos


Escrito por Marcia Tiburi. Retirado da Revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2012/05/coronelismo-intelectual/
Podemos chamar de “coronelismo intelectual” a prática autoritária no campo do conhecimento. Este campo é extenso, começa na pesquisa científica universitária e se estende pela sociedade como um todo, dos meios de comunicação ao básico botequim onde ideias entram em jogo.
Coronelismo intelectual é a postura da repetição à exaustão de ideias alheias. A reflexão só atrapalharia, por isso é evitada.
Encarnação de prepotente eloquência, o paradoxo do coronelismo é alimentar uma ordem coletiva de silêncio em que o debate inexiste, o culto da verdade pronta ou da ignorância é a regra, bem como a apologia ao gesto de falar sem ter nada a dizer, que culmina no discurso tão vazio quando maldoso da fofoca, versão popular do eruditismo.
Não há muita diferença entre a mesa de bar e a mesa-redonda dos acadêmicos parafraseando qualquer filósofo clássico apenas pelo amor ao fundamentalismo exegético.
Enquanto todos falam sem nada dizer, ajudados pelo jornalista que repete o que se entende pela sacrossantificada “informação”, mercadoria da contra-reflexão atual, os coronéis podem comentar que os outros é que não sabem nada e praticar o “discurso verdadeiro” em seus artigos estilo “mais do mesmo”, moedinha cadavérica com que se enche o cofrinho das plataformas de medição de produtividade acadêmica em nossos dias.
O coronelismo intelectual infelizmente segue forte na filosofia e nas ciências humanas, na verdade dos especialistas, tanto quanto na dos ignorantes que se separam apenas por titulação ou falta dela. Professores e estudantes, sábios e leigos, todos se servem metodologicamente dos frutos dessa árvore apodrecida. A prática do pensamento livre que se autocritica e busca, consciente de sua inconsciência, seu próprio processo de autocriação talvez seja a contraverdade capaz de cortá-la pela raiz.
Intelectual serviçal
Eis a cultura do lacaio intelectual, do bom serviçal sempre pronto à reprodução do mesmo. Nela, a boa ovelha especialista em assinar embaixo as verdades do senhor feudal que um dia as emitiu num ritual de sacralização já não é fácil de distinguir do lobo. A semelhança entre o puxa-saco, o crente e o líder paranóico que o conduz revela a verdade do mimetismo. Os seguidores dos líderes, de rabinho entre as pernas, latem para mostrar que aprenderam bem o refrão.  Abanam as asas ao redor da lâmpada esperando que ela também fique onde está, do contrário não saberiam o que fazer.

As consequências do coronelismo em um país de antipolítica e anti-educação generalizadas como este é algo ainda mais grave do que o medo de pensar. É o fato de que já não se pensa mais. A ausência de debate não é medo de expor ideias, mas a falta delas. Inação é o corolário da impossibilidade de mudar, porque o campo das ideias onde surge a vida já foi minado. O coronel ri sozinho da impossibilidade de mudanças, pois ele ama a monocultura enquanto odeia o cultivo de ideias diferentes ou de ideias alheias. O autoritarismo intelectual não é feito apenas de ódio ao outro, mas da inveja de que haja exuberância criativa em outro território, em outra experiência de linguagem. Conservadorismo é seu nome do meio.
Coronelismo não é simplesmente a zona cinzenta onde não podemos mais distinguir o ignorante do culto, mas a política generalizada introjetada por todos – salvo exceções – pela letal dessubjetivação acadêmica da qual somos vítimas enquanto algozes e que, no campo do senso comum, surge como robotização e plastificação das pessoas entregues como zumbis aos mecanismos do nonsense geral, que, é preciso cuidar, deve ser aparentemente desejável pela liberdade de cada um.
Contra a escravidão intelectual somente um contradesejo pode gerar emancipação. A prática da invenção teórica, a liberdade da interpretação e de expressão nos obrigam a ir contra os ordenamentos da ditadura micrológica do cotidiano, em que a lei magna reza o “proibido pensar”. A direção, como se pode ver, parece que só se encontra, atualmente, no desvio dos caminhos dados.

quinta-feira, julho 21, 2011

Wissenschaft als Beruf (1917/1919)

Sem dúvida nenhuma, o progresso é um fragmnento, o mais importante, do processo de intelectualização a que estamos submetidos desde milênios e relativamente ao qual algumas pessoas adotam, atualmente, posição estranhamente negativa.
 Inicialmente, tentemos perceber com clareza o que significa, na prática, essa racionalização intelectualista que devemos à ciência e à técnica científica. Acaso, significará que todos os que estão reunidos nesta sala possuem, no que se refere às respectivas condições de vida, conhecimento superior ao que um índio ou um hotentote poderiam alcançar a respeito de suas próprias condições de vida? É pouco provável. Dentre nós, aquele que entra num trem não tem noção alguma do mecanismo que permite que permite ao veículo pôr-se em marcha - exceto se for um físico de profissão. De outra feita, não temos necessidade de conhecer aquele mecanismo. É suficiente poder "contar" com o trem e orientar, consequentemente, nosso comportamento. Não sabemos, todavia, como se constrói aquela máquina que tem condições de deslizar. Contrariamente, o selvagem conhece, de modo incomparavelmente melhor, os instrumentos de que se utiliza. Eu seria capaz de garantir que todos ou quase todos os meus colegas economistas, porventura presentes nesta sala, dariam respostas diferentes à pergunta: como explicar que, utilizando a mesma quantia de dinheiro, ora se possa adquirir grande porção de coisas e ora uma porção mínima? No entanto, o selvagem sabe perfeitamente como agir para obter o alimento diário e conhece os meios capazes de favorecê-lo em seu propósito. A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente a respeito das condições em que vivemos. Antes, significam que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, conquanto que o quiséssemos, provar que não existe, primordialmente, nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira com o curso de nossa vida. Em outras palavras, que podemos dominar tudo, por meio da previsão. Isso é o mesmo que despojar de magia o mundo. Não se trata para nós, como para o selvagem que acredita na existência daqueles poderes, de apelar a métodos mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, mas de recorrer à técnica e à previsão. Essa é a essência da significação de intelectualização.
Daí surge uma nova pergunta: realizado ao longo dos milênios da civilização ocidental e, em termos mais gerais, esse processo de desencantamento, esse "progresso" do qual participa a ciência, como elemento e motor, tem significação que ultrapasse essa pura prática e essa pura técnica? Mereceu exposição vigorosa na obra de Leon Tolstói essa questão. Por via que lhe é própria, Tolstói a tal questão chegou. Todas as suas meditações cristalizaram-se crescentemente em torno do seguinte tema: a morte é ou não é um acontecimento que encerra sentido? Sua resposta é a de que, para um homem civilizado, não existe tal sentido. Obviamente não pode existir porque a vida individual do civilizado navega no "progresso" e no infinito e, consoante seu sentido imanente, essa vida não deveria ter fim. Por certo, há sempre possibilidade de novo progresso para aquele que vive no progresso. Dos que morrem, nenhum chega jamais a atingir o cimo, já que o cimo se encontra no infinito. Abraão ou os camponeses do passado morreram "velhos e plenos de vida", pois que estavam instalados no ciclo orgânico da vida, porque esta lhes havia reservado, ao fim de seus dias, todo o sentido que podia proporcionar-lhes e porque não subsistia enigma que eles ainda teriam desejado resolver. Portanto, podiam considerar-se plenos com a vida. Contrariamente, o homem civilizado, posto em meio ao caminhar de uma civilização que se enriquece continuamente de pensamentos, de experiências e de problemas, pode sentir-se "cansado" da vida, mas não "pleno" dela. Certamente, jamais ele pode apossar-se senão de uma parte diminuta do que a vida do espírito incessantemente produz. Ele pode captar apenas o provisório e jamais o definitivo. Em virtude disso, a seus olhos a morte não faz sentido, também a vida do civilizado não o faz, já que a "progressividade" sem significação faz da vida um acontecimento igualmente sem significação. Nas últimas obras de Tolstói, por toda parte encontra-se esse pensamento, que dá estilo à sua arte. 
Max Weber (1864-1920). Ciência como vocação.

quinta-feira, julho 14, 2011

Um relato memorável de um tempo não tão distante



Não será tanto a minha vida que narrarei, mas sim a de uma geração inteira, a da nossa geração que como quase nenhuma outra no curso da História foi cheia de vicissitudes. Cada um de nós, mesmo o mais instigante, em sua existência íntima foi revolvido pelos tremores vulcânicos quase ininterruptos do nosso solo europeu. E eu entre os inúmeros indivíduos dessa geração não sei atribuir a mim outra preeminência senão esta: a de como austríaco, como judeu, como escritor, como humanista e pacifista achar-me sempre precisamente no lugar em que esses abalos de terra se manifestaram com mais violência. Três vezes eles me derribaram a casa e a existência, desligaram-me de todo o passado e com sua veemência dramática arremessaram-me no vácuo, no já bem conhecido "não sei para onde ir". [...] o indivíduo sem pátria [...]. Desprendido de todas as raízes e do solo que as nutria, em verdade estou como raramente alguém esteve ou está. [...] Por isso já não pertenço a lugar algum, em toda parte sou estrangeiro [...]. Contra minha vontade tornei-me testemunha da mais terrível derrota da razão e do mais bárbaro triunfo da brutalidade que se encontram na crônica dos tempos; nunca - não é absolutamente com orgulho e sim com vergonha que registro este fato - uma geração sofreu, como a nossa, tamanha queda de tão elevado nível do espírito. No pequeno lapso de tempo decorrido desde que a barba me começou a aparecer até que começou a ficar grisalha, nesse meio século, operaram-se mais mudanças e transformações radicais do que de ordinário no período de dez gerações humanas [...]. Toda vez que em conversa narro a amigos mais moços episódios da época anterior à primeira grande guerra, por suas perguntas admirativas vejo quanta coisa para mim ainda é realidade e para eles se tornou histórica ou inimaginável [...] entre o nosso hoje, o nosso ontem e o nosso anteontem destruíram-se todas as partes [...]. Lemos o catálogo de todas as catástrofes que se possam imaginar, mais ainda não estamos na última página. [...] Todos os sinistros ginetes do Apocalipse passaram impetuosamente pela minha vida, a revolução e a fome, a desvalorização do dinheiro e o terror, as epidemias e a emigração, vi crescerem e propagarem-se sob as minhas vistas as grandes ideologias das massas, o fascismo na Itália, o socialismo nacional na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e sobretudo essa arquipeste, o nacionalismo, que aniquilou a florescência da nossa civilização européia. Tive de ser testemunha indefesa e impotente do mais inimaginável retrocesso da humanidade para uma barbárie, havia muito julgada esquecida, com seu dogma consciente e programático de anti-humanitarismo. A nós estava reservado vermos novamente, após séculos, guerras sem declarações de guerra, campos de concentração, torturas, pilhagens de populações e lançamento de bombas sobre cidades indefesas, todas essas brutalidades que as últimas cinqüenta gerações não mais conheciam e as futuras, como é de esperar, não mais suportarão. Mas, paradoxalmente, na mesmíssima época em que na moral o nosso mundo precipitadamente retrocedia um milênio, vi a mesma humanidade no terreno da técnica e no intelectual elevar-se a feitos imprevistos, sobrepujando com um surto tudo o que fora produzido em milhares de anos: a conquista do éter pelo avião, a transmissão da palavra humana, em segundos, por todo o globo terrestre e, com isso, o triunfo sobre o espaço, a divisão do átomo, o triunfo sobre as mais traiçoeiras doenças, a quase diária possibilitação do que ainda na véspera era impossível. Nunca até a hora presente a humanidade como um todo se mostrou mais diabólica e nunca produziu de maneira tão semelhante a Deus. [...] por toda parte a mão do destino nos agarrava e puxava à força para seu giro interminável. Constantemente tínhamos de nos submeter às exigências do Estado, servir de presas para a mais estúpida política, de nos adaptar às mais fantásticas alterações. Por mais que resistíssemos indignados, sempre estávamos acorrentados à totalidade, éramos inevitavelmente arrastados. [...] daquela época que nos plasmou e educou [...]. Não tenho à mão nenhum exemplar dos meus livros, notas, cartas de amigos, no meu quarto de hotel. Em nenhuma parte posso pedir informações, pois no mundo inteiro o correio está interrompido de um país para outro ou sujeito à censura. Vivemos tão separados uns dos outros como em séculos passados, antes da invenção do correio, do navio a vapor, da estrada de ferro e do avião. De todo o meu passado não tenho comigo senão o que trago no cérebro.

Stefan Zweig (1881-1942). O mundo que eu vi.

quinta-feira, junho 30, 2011

Rumores cegos de uma máquina fria ou rumores frios de uma máquina cega? Eis aqui um relato de 1793.



Dissociaram-se (neste processo de dilaceramento) (...) as leis dos costumes; separaram-se do trabalho o prazer, dos meios os fins, do esforço a compensação. Ligado eternamente apenas a um pequeno fragmento do todo, o homem se transforma ao fim em pequeno fragmento; ouvindo eternamente só o ruído monótono da roda que gira, nunca desenvolve a harmonia de sua natureza e, em vez de representar no seu ser a humanidade, torna-se apenas em reprodução da sua especialidade (...). Assim, pouco a pouco, a vida individual concreta é devorada a fim de poder alimentar a miserável existência da abstrata vida geral.

Friedrich Schiller (1759-1805). In: Teatro Moderno, de Anatol Rosenfeld.

quarta-feira, junho 29, 2011

Os germes da 'gaiola de ferro'?



Se o homem, pelo saber e pelo gênio criador, domesticou as forças da natureza, estas últimas vingam-se dele, submetendo-o, na proporção em que ele as usa a um verdadeiro despotismo independente de qualquer organização social. Querer abolir a autoridade na grande indústria equivale a querer abolir a própria indústria, a destruir o tear mecânico para retroceder à roca.

Friedrich Engels (1820-1895). On authority.

quarta-feira, agosto 25, 2010

A Dialética das Luzes americana


As esperanças da espécie humana parecem hoje mais distantes de serem realizadas do que mesmo nas épocas ainda tateantes em que primeiro foram formuladas pelos humanistas. Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. Assim, o progresso ameaça anular o que se supõe ser o seu próprio objetivo: a idéia de homem.


Max Horkheimer, Eclipse da Razão

sexta-feira, julho 03, 2009

Sísifos do dia-a-dia



Como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade? (Herbert Marcuse)
A moderna barbárie, para Löwy (2000), define-se e manifesta-se pela utilização do que há de mais avançado em termos de técnica para produzir a industrialização do homicídio e o extermínio em massa graças às tecnologias de ponta. A destruição, nesse novo tipo de barbárie, é impessoal, ou seja, os massacres não têm contato entre quem toma as decisões e as vítimas; a mediação entre os combates é feita por máquinas militares que matam à distância. Por mais brutal e monstruoso que possa ser esse confronto, por trás dele há uma gestão burocrática e administrativa, a qual se preocupa unicamente com a eficiência da ação. Ademais, para legitimar as investidas militares, o Estado se municia com um poderoso artefato ideológico por meio de discursos “biológicos”, “higiênicos” e “científicos”, que corroboram a perpetuação da dominação e da exploração.
Um dos momentos mais explícitos dessa catástrofe humana se deu nos campos de concentração que se proliferaram nos territórios da Europa. Auschwitz é o exemplo do mais monstruoso uso da razão, uma utilização racional para a produção de irracionalidades impensáveis em tal grau de esclarecimento. “Milhões de homens inocentes [...] foram sistematicamente assassinados” (ADORNO, 1970c, p.81) em um fenômeno que não deve ser tratado como uma aberração na história, mas como algo que era possível de ser feito naquela época segundo a forma unilateral pela qual foi conduzido o desenvolvimento humano. Tal fato não representa uma “regressão” em direção ao passado, em direção aos primórdios da raça humana, mas se trata de um dos possíveis rostos da civilização industrial ocidental. “Que aquilo tenha acontecido é por si só indício de tendência extremamente poderosa da sociedade" (ADORNO, 1970c, p.81). Esse tipo de processo civilizador constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e emancipatória dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossos tempos.

Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, ‘a organização científica do trabalho’ de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber (LÖWY, 2000, p.51).

Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa estar dormindo para produzir monstros[1]. Pior: quando acordada, produz as piores e inimagináveis monstruosidades que ela própria desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso racional, ético ou moral, porque, em nossa época, até a razão e a linguagem são usadas para fins irracionais.
Cada vez mais a razão é usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos nazistas, soviéticos, e na carnificina americana que levou à dizimação de duas cidades japonesas por uma demonstração de força e poder.
Benjamin, voraz crítico do progresso capitalista, vê esse suposto movimento do progresso em direção ao futuro da nossa civilização, como algo prenhe de catástrofes, gestadas no próprio coração da modernidade. Se por meio dele atingimos, como nunca na história da humanidade, um patamar excepcional de bem-estar material, podemos também creditar ao progresso uma exploração mais destrutiva, sistemática e mortífera da natureza e o inegável aperfeiçoamento das técnicas de guerra e de extermínio de seres humanos. Igualmente, podemos creditar a ele, como uma perfeita combinação entre progresso técnico e regressão social, a emergência do fascismo, que não deve ser descartada como historicamente acidental, nem como um estado de exceção político/social que não se repetirá. Num de seus mais famosos e últimos escritos, as “Teses sobre o conceito de história”, o autor adverte o que para ele é central no processo da Aufklärung (esclarecimento): “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1996c, p.225).
Havia também uma outra catástrofe que preocupava Benjamin: a que se apresentava ainda como a “eterna repetição do mesmo”, a que transforma grandes massas em Sísifos e Tântalos (Benjamin Apud LÖWY, 1990, p.211; LÖWY, 1992, p.121), condenados à mesmice a ver os objetos de seu desejo diante de seus olhos e infinitamente distantes de sua posse. Movimentos mecânicos, gestos automáticos, tarefas fragmentadas, pensamentos fragmentados, mundo em eterna incompletude, tudo sempre disfarçado em moda e novidade. Substituição frenética do novo pelo cada vez mais novo que já nasce obsoleto.
Essa é uma barbárie menos explícita, está difusa no meio social entre um trânsito dinâmico de ideologias pulverizadas pelos grandes aparelhos estatais. É por esse tipo de ordem que a razão instrumental irá se hipertrofiar, dominando todas as esferas da vida social. O discurso técnico-calculista irá permear as mediações humanas e irá se tornar o imperativo da ordem do mundo capitalista, em que, antes de tudo, está presente o lucro, a produção, a eficiência e a economia. A ética e os preceitos morais são inócuos diante do desenvolvimento desenfreado da técnica. Ao homem só cabe se adaptar a sua lógica perversa.
O que se percebe, desde os primórdios da utilização da racionalidade como ordenação do mundo e organização do cosmos, até a caótica produção racional do capitalismo tardio, é que a razão humana tem se frustrado em sua intenção de descobrir a verdade sobre o seu uso, de se auto-iluminar (autocriticar). A ela cabe recuperar sua concepção objetiva de transformação dos homens e do mundo, por meio dos homens.
Ao se hipertrofiar, a razão instrumental penetra no meio administrativo das grandes empresas, no meio jurídico, nos grandes laboratórios, nos mass media, nos exércitos, nas universidades, enfim, em tudo o que se refira às relações de produção dessa sociedade e a sua forma de controle e manutenção. Essa nova conjuntura social é o cenário de investigação da Teoria Crítica com relação àquilo que seus membros diziam ser o “mundo administrado”. Esse último seria a realidade do pós-guerra, ao qual o Estado não só tem o domínio legítimo da coerção física, como também da coerção ideologicamente aparelhada pelos meios de comunicação de massa. A dominação se estende da fábrica às mentes e ao inconsciente das pessoas em torno de um controle absoluto e ilimitado pela burguesia. O mundo administrado é aquele em que se desapareceram os esconderijos (ADORNO, 1966, p.91). Ao cidadão comum, resta nada mais do que agir mecanicamente segundo o direcionamento das leis do mercado e atuar no mundo mediante duas ações: consumir e descartar tudo o que estiver ao alcance financeiro de um mundo em que a troca é generalizada e impessoal. Os teóricos frankfurtianos se lançam na crítica à razão instrumental, para descobrir o porquê de a complexidade do todo ser reduzida à particularidade de coisa; qual o motivo de esse tipo de razão instrumentalizar tudo, até a vida humana, como um meio por si só.
Desde a secularização do conhecimento iniciado com o fim da tutela eclesiástica e passando pela emancipação política, econômica, cultural e social da classe burguesa, até o fim trágico e catastrófico do século XX, a razão teve um profundo impacto na coordenação desses eventos. Seja para libertar e conciliar, ou para oprimir e destruir, o uso da razão durante esse processo foi resultado de uma condução unilateral em torno do desenvolvimento humano. Se a história de formação do sistema capitalista por um lado libertou e emancipou os homens de domínios arbitrários da tradição e da natureza, por outro, empreendeu formas cruéis e destrutivas de dominação e exploração. Assim sendo, é por um entendimento mais claro do uso meramente instrumental do conhecimento racional que se torna necessário investigar como esse tipo de racionalidade calculista-instrumental se hipertrofiou e abrangeu todos os campos da vida social.

[1] “Auschwitz não é para se considerar por uma analogia com a destruição das cidades-Estado da Grécia antiga, como um simples aumento gradual do horror, diante do qual é possível manter sua alma tranqüila. Mas certamente o martírio e a humilhação sem precedente daqueles que foram deportados como gado irradia uma luz mortalmente crua sobre o passado mais longínquo, em cuja violência obtusa e sem planejamento já estava posta de maneira teleológica a violência tramada cientificamente” (ADORNO, 1993, p.205).
Leonardo de Lucas S. Domingues - novembro de 2006.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Cansei! – o engodo burlesco de tacanhos filisteus modernos



Nos encontramos hoje numa situação de plena calamidade social. Em nenhum outro momento da história convivemos com tamanha brutalidade absurdamente gerenciada pelos poderosos:
“Problemas ambientais; aumento significativo da violência nos grandes centros urbanos; crescimento desordenado das cidades e o inchaço das favelas e moradias precárias; constante investimento em tecnologia e armamentos pesados, visando ‘segurança’; acentuação da desigualdade a níveis alarmantes; e concentração de renda cada vez mais brutal na mão de poucos e a generalização da miséria a vastos territórios do globo terrestre” (O desenvolvimento paradoxal do progresso e a hipertrofia da razão instrumental, 2006, p.76, de minha autoria: Leonardo Domingues).
Como se não bastasse essa gélida realidade, alguns pseudodemocratas se intitulam defensores do bastião da moral e da vergonha na cara. Essa cidadela da ética e do respeito mútuo traz à tona toda a bandalheira reinante no país. São pessoas de bem; são indivíduos que se importam com a vida dos outros e, de forma merecida, ganham o reconhecimento sobre seus atos. Esses cidadãos de boa índole serram fileiras na vanguarda da decência e do decoro cívico.
Em outros momentos de nossa história humana, fenômenos parecidos se manifestaram em situações de profunda tensão política, em que a sapiência dos homens tornou-se impotente e cega, perante o assalto da insensatez e da barbárie. Abaixo do solo dos tempos, adormecidos estão esses germes da soberba inquisição a toda e qualquer forma de prudência racional. Só ficam esperando o momento certo para saírem da toca. Cito dois exemplos de acirramento ideológico em torno da “defesa” da moral e da ética: Quem não se lembra da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que preconizava quase as mesmas coisas? Pouco mais de trinta anos antes desse fato, na Alemanha estava ocorrendo um movimento de renovação nacional, apoiado, principalmente, pela classe média e pela burguesia, que culminou com a ascendência de Hitler ao cargo de Chanceler da nação. Trago esse dois exemplos para analisarmos, no que diz respeito ao movimento Cansei, quais são as reais intenções que motivam essas pessoas a agirem dessa forma. Quem está cansado? Por que motivo? Cansado de que? Como está cansado?
Assim sendo, proporciono uma pequena anátema crítica, estabelecendo um diálogo com o outro lado da moeda, com aqueles que já estão cansados há muito tempo. O manifesto seria proferido não em aeroportos ou shopping centers, mas sim, nos bolsões de miséria desse vasto e rico Brasil.

Cansei de ser invisível à sociedade, que só se lembra de mim quando a minha violência diária chega a casa dela.
Cansei de ver meus filhos sem perspectiva alguma, vítimas da dor e do flagelo, lutando a cada instante pela existência desumana e miserável que nos cabe.
Cansei de ser a força produtiva de uma produção que não me pertence, e sim ao outro, que me explora diuturnamente a troco de uma ração inumana.
Cansei de esperar e esperar pela esperança de um dia ser tratado de forma mais digna e humana.
Cansei de ser cercado pelos frios mundos da desigualdade e de viver num cárcere econômico antagônico, vil, covarde e cruel.
Cansei de perceber que é dessa contradição insensata que brota a “igualdade de condições” entre os homens. De sentir, de forma intensa, o quanto que de meu padecimento é que se eleva o prazer luxuoso do outro, do dono.
Cansei de ser escorraçado, vilipendiado e atrozmente ceifado em favor da ordem pública e do bom andamento dos processos.
Cansei de viver como animal, em pocilgas fétidas de sórdidos entulhos e ver que estou em pior condição que isso, porque o animal de estimação do outro vive em melhores condições do que a maioria de nós.
Cansei de ver que somos nós que cremos em Deus, mas são eles que são abençoados.
Cansei de repetir que “rico pede paz para continuar rico, e que pobre pede paz para continuar vivo”.
Cansei! Estou cansada!


“O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão” (...) “Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria”(...)”O trabalhador põe a sua vida no objeto; porém agora ela já não lhe pertence, mas sim ao objeto. Quanto maior a sua atividade, mais o trabalhador se encontra objeto. O que se incorporou no objeto do seu trabalho já não é seu. Assim, quanto maior é o produto, mas ele fica diminuído.”(...) “O trabalhador torna-se escravo do objeto”(..) “Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades”(..)”ele não é o seu trabalho, mas o de outro”(...)”Chega-se à conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo nas suas funções animais – comer, beber e procriar, quando muito, na habitação, no adorno etc. – enquanto nas funções humanas se vê reduzido a animal”(..)”Esta é a auto-alienação”(...)”A vida revela-se simplesmente como meio de vida”(...)”Se a sua atividade constitui para ele um martírio, tem de ser fonte de deleite e de prazer para outro”.


Este é um texto escrito por um jovem de 26 anos, herdeiro do mais profundo pensamento humanístico. Em suas palavras ecoam as idéias de toda a tradição que o precedeu. O herético, o novo, a vontade de realizar de forma plena a existência humana: esse era o lema de toda a Filosofia Clássica Alemã, assim como, também o era do Renascimento, do Humanismo e da Grécia Antiga. Seu nome? Karl Heinrich Marx. Manuscritos econômico-filosóficos.

Que castigo tenho a temer, se mal algum eu faço? Possuís muitos escravos, que como asnos, cães e mulos tratais, e que em serviços empregais vis e abjetos, sob a escusa de os haverdes comprado. Já vos disse que os pusésseis, acaso, em liberdade? que com vossas herdeiras os casásseis? por que suam sob fardos? que lhes désseis leitos iguais aos vossos? e iguarias que como ao vosso paladar soubessem? Em resposta, decerto, me diríeis: “Os escravos são nossos”.


Essa é uma das falas de Shylock, pronunciada durante o famoso julgamento em “O mercador de Veneza”, de William Shakespeare.

Cansei de um progresso que só eterniza a desigualdade do presente. Onde está o progresso humano?

Cito mais um trecho de meu breve texto supracitado:


O triunfo dos meios sobre os fins deriva de um largo processo de promoção de um desenvolvimento desigual e desumano. Os fins essencialmente humanos, autônomos e emancipatórios foram transubstanciados em formas eminentemente modernas de produção e reprodução de miséria e de sofrimento. A tão conclamada globalização, panacéia dos novos tempos, escamoteia em seu comércio ilimitado de mercadorias quais são as verdadeiras faces desse progresso antagônico. Pelo uso instrumental de formas racionalizadas de produção e escoamento de produtos não existem mais barreiras de qualquer tipo para findar a expansão pela busca de novos mercados. Ao mesmo tempo em que as mercadorias têm trânsito livre por todos os cantos, o mesmo não acontece com a riqueza, nem com a ciência, nem com o conhecimento. Estes ficam monopolizados nos grandes centros industriais, nas universidades tecnológicas e nas grandes empresas. A liberdade que a mercadoria desfruta se converte em confinamento para o indivíduo. Se aos produtos comercializáveis tudo é permitido, para os seres humanos somam-se as segregações étnicas, religiosas, econômicas, culturais, políticas, para a sua conciliação com os outros.
Num capitalismo cada vez mais tecnológico, racionalizado, administrado e expansivo, a racionalidade instrumental é imanente aos processos de valorização de capital. Contra barreiras de dominação sofisticada, o homem padece diante de uma, cada vez mais intransponível e inexorável, “gaiola de ferro”. Se nos pressupostos weberianos tais constatações já estavam muito avançadas, na teorização frankfurtiana esse fenômeno é repensado de acordo com os novos desenvolvimentos do capitalismo tardio. Num mundo instrumentalizado, onde somente são válidas as ações que sirvam para atingir algum fim prático e útil, todas as atuações dos indivíduos tendem a se submeter a uma só lógica: seus desejos, suas vontades, seus sentimentos, sua consciência, tudo se torna um mero instrumento.

O pensamento crítico luta por conceituar o caráter irracional da racionalidade estabelecida e por definir as tendências que fazem com que essa racionalidade gere sua própria transformação. Apesar da constatação desesperançada e concreta sobre a atual complexidade da realidade, a Teoria Crítica não perdeu a esperança em torno da razão humana. “Não alimentamos dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.13). Horkheimer, em sua última frase de Eclipse da Razão, nos lembra que, “se por evolução científica e progresso intelectual queremos significar a libertação do homem [...] então a denúncia daquilo que atualmente se chama razão é o maior serviço que a razão pode prestar” (HORKHEIMER, 2003, p.187). Portanto, enquanto possibilidades efetivas de transformação objetiva e subjetiva não estão no horizonte, o espírito crítico e contestatório será o norte para a produção de um mundo mais justo e sensato.

O desenvolvimento paradoxal do progresso e a hipertrofia da razão instrumental - 2006, p.80

terça-feira, abril 17, 2007

Qual a atualidade em Adorno?

O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça à qual servia”.
Adorno e Horkheimer, Dialética do esclarecimento

Na dedicatória de Minima Moralia, livro escrito entre o período de 1944 até 1947, Adorno (1993) propõe uma compreensão partindo de “reflexões a partir da vida danificada”, de um mundo fragmentado em que houve a “dissolução do sujeito”, no qual o todo se tornou reificado e o indivíduo foi reduzido ao caráter de coisa, meio, objeto, instrumento, um “acessório de maquinaria” ocultado da verdade de que “não há mais vida” (ADORNO, 1993, p.7). A dura constatação do filósofo frankfurtiano reflete uma vida cada vez mais empobrecida dos indivíduos em experiências coletivas e em promover relações mais humanas. A vida fácil, segura e agradável que se origina com os acúmulos técnicos dos avanços tecnológicos provém e é sustentada pela base desigual das relações de produção, na qual muitos são submetidos a uma vida penosa e sacrificante “desce[ndo] até o nível de mercadoria, e de miserabilíssima mercadoria” (MARX, 2004, p.110) para a benesse de alguns poucos[1]. O indivíduo vira coisa porque “ele não é o seu trabalho, mas o de outro” (MARX, 2204, p.114) e, desse modo, “a vida revela-se simplesmente como meio de vida” (MARX, 2004, p.116, grifo do autor). Nesse mundo, podemos verificar que não só os homens viraram mercadoria, como tudo que deles provêm[2], até mesmo as idéias (ADORNO, 1970a, p.180).
Adorno averiguou, então, que este era um mundo onde todas as mediações do homem estavam pautadas em relações de troca, em relações de consumo, as quais seriam reguladas pela ganância do mercado. “Se a estrutura dominante da sociedade reside na forma de troca, então a racionalidade desta constitui os homens; o que estes são para si mesmos, o que pretendem ser, é secundário” (ADORNO, 1970b, p.147). O importante é fomentar a valorização do capital, portanto, a ninguém ocorre que poderiam existir tarefas que não se deixassem expressar no valor de troca (ADORNO, 1993, p.171). “Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens” (MARX, 2004, p.111, grifos do autor), ou seja, a técnica não é só usada como uma útil ferramenta na produção de bens, como também, uma mais útil ainda forma de manipulação e de dominação dos anseios humanos. Há implicações extremamente importantes nesses apontamentos que direcionam para uma vida cada vez mais mecânica e homogênea.
É a partir dessa verificação que Adorno chega à conclusão de que “no interior da sociedade coisificada, nada tem chance de sobreviver que por sua vez não seja coisificado” (ADORNO, 2005a, p.116). Assim sendo, “o sujeito retraído sobre si, separado de seu outro por um abismo, é incapaz de ação” (ADORNO, 1970a, p.160). Sem ação devido ao seu pouco grau de união com os outros e sem reflexão e compreensão à altura das contradições imanentes a uma realidade cada vez mais complexa, o homem agora se vê numa desilusão permanente no interior da ordem capitalista.

Não só o espírito se orienta segundo a sua venalidade mercadológica e, com isso, reproduz as categorias sociais preponderantes, mas se assemelha, objetivamente, ao status quo, mesmo onde, subjetivamente, não se converteu em mercadoria. As malhas do tecido social vão sendo atadas cada vez mais de acordo com o modelo de ato de troca. Permite à consciência individual cada vez menos espaço de manobra, passa a preformá-la de um modo cada vez mais radical, como que lhe cortando, a priori, a possibilidade da diferença, que passa a se reduzir à mera nuance dentro da homogeneidade da oferta (ADORNO, 1986, p.78).




Nesta sociedade, partindo do pressuposto da relação de troca capitalista empreendida pela moeda, os indivíduos são forçados a manter relações que não denotam qualquer caráter eminentemente humano. Trata-se de relações frias, impessoais, muitas vezes mediadas por máquinas (MARCUSE, 1999, p.81; ADORNO, 1970c, p.92). Desse modo, as pessoas podem viver nesta sociedade sem ter qualquer obrigação com o próximo, sem qualquer companheirismo, ou mesmo, sem qualquer dever para com o coletivo. “O homem médio dificilmente se importa com outro ser vivo com a intensidade e persistência que demonstra por seu automóvel” (MARCUSE, 1999, p.81). No entanto, os direitos à posse e a uma competição desleal são mantidos e assegurados por uma cortina ideológica que escamoteia as desigualdades das relações de produção da vida material.
[1] “Se a sua atividade constitui para ele um martírio, tem de ser fonte de deleite e de prazer para outro” (MARX, 2004, p.119).
[2] “O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria” (MARX, 2004, p.111).

Trecho de um trabalho meu: O Desenvolvimento Paradoxal do Progresso e a Hipertrofia da Razão Instrumental