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terça-feira, março 27, 2012

A produção e o elemento 'animalidade' do homem

A história do industrialismo sempre foi (e hoje o é de forma mais acentuada e rigorosa) uma luta contínua contra o elemento 'animalidade' do homem, um processo ininterrupto, muitas vezes doloroso e sangrento, de sujeição dos instintos (naturais, isto é, animalescos e primitivos) a sempre novos, complexos e rígidos hábitos e normas de ordem, exatidão, precisão, que tornem possível as formas sempre mais complexas de vida coletiva, que são a consequência necessária do desenvolvimento do industrialismo. Esta luta é imposta do exterior e até agora os resultados obtidos, embora de grande valor prático imediato, são em grande parte puramente mecânicos, não se transformaram numa 'segunda natureza'. Mas, todo novo modo de vida, no período em que se impõe a luta contra o velho, não foi sempre durante certo tempo o resultado de uma compressão mecânica? Inclusive os instintos que hoje devem ser superados como ainda bastante 'animalescos' constituíram, na realidade, um progresso notável em relação aos anteriores, ainda mais primitivos: quem poderia enumerar o 'custo', em vidas humanas e em dolorosas sujeições dos instintos, da passagem do nomadismo à vida sedentária e agrícola? (...)
Até agora, todas as mudanças do modo de ser e viver se verificaram através da coerção brutal, através do domínio de um grupo social sobre todas as forças produtivas da sociedade: a seleção ou 'educação' do homem apto para os novos tipos de civilização, para as novas formas de produção e de trabalho, foi realizada com o emprego de brutalidades inauditas, lançando no inferno das subclasses os débeis e os refratários, ou eliminando-os simplesmente.
Antonio Gramsci (1891-1937). Americanismo e fordismo.

terça-feira, outubro 18, 2011

Cultura crítica e práxis revolucionária (1916)

O homem é acima de tudo espírito, isto é, criação histórica, e não natureza. Não poderia explicar de outra forma por que, havendo existido sempre explorados e exploradores, criadores de riqueza e consumidores egoístas dela, o socialismo ainda não tenha se realizado. O fato é que só de degrau em degrau, de arranco em arranco, a humanidade adquiriu consciência do seu próprio valor...E esta consciência se formou não sob o grilhão brutal das necessidades fisiológicas, mas através da reflexão inteligente, primeiramente de alguns e depois de toda uma classe, sobre as razões de determinados fatos e sobre os meios mais adequados para transformá-los da condição de vassalagem em estandarte de rebelião e de reconstrução social. Isto significa que toda revolução foi precedida de um intenso trabalho de crítica, de penetração cultural.
Antonio Gramsci (1891-1937). Il Grido.