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quarta-feira, junho 22, 2011

Preço da autonomia (Jardim Imperfeito)




Tentarás então agarrar-te a teu ego, mas este será por sua vez ameaçado de deslocamento. Serás atravessado por correntes sobre as quais não terás nenhum domínio; crerás decidir, escolher e querer livremente, quando na verdade essas forças subterrâneas o farão em teu lugar. De modo que perderás as vantagens que te parecem justificar todos esses sacrifícios. Esse ego será apenas uma coleção heróclita de pulsões, uma dispensão ao infinito; será um ser alienado e inautêntico, não merecendo mais ser chamado de "sujeito".



Tzvetan Todorov (1939- )

segunda-feira, junho 20, 2011

A Modernidade e o Lager



Tudo agora tornou-se caos: estou só no centro de um nada turvo cinzento. E, de repente, sei o que isso significa, e sei também que sempre soube disso: estou de novo no lager, e nada era verdadeiro fora do lager.



Primo Levi (1919-1987)

terça-feira, abril 19, 2011

Código de conduta




1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.


Bertrand Russell (1872-1970)

terça-feira, janeiro 25, 2011

Wie man mit dem Hammer philosophirt


Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades, em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante desse mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo como um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873). Coleção Os Pensadores. 3ªed. p. 45, 1983.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

traiter les faits sociaux scientifiquement?

Un espirit cultivé aime mieux ne pas vivre que de recononcer aux joies de l'intelligence.
Émile Durkheim. Éducation et sociologie. Paris: Presses Universitaires de France, 1973, p. 43.

quarta-feira, setembro 15, 2010

O "espírito", por Sombart


Na alma do empresário, a conseqüência de um excesso de trabalho, e especialmente pela ocupação na questão de negócios que não lhe deixa tempo para outra coisa, todos os demais interesses esfumam-se; natureza, arte, literatura, estado, amigos, família, não podem exercer já nenhuma sedução sobre ele, que conseqüentemente sente-se possuído de um insuportável sentimento de tédio e de desolação no instante em que abandona o mundo dos números, que lhe dá apoio, calor e vida. Nesse mundo dos negócios, pelo contrário, encontra tudo o que lhe renova, lhe dá ânimo, lhe faz feliz; tem a sensação de encontrar ali sua verdadeira pátria, a força da juventude que lhe cria novas forças, o manancial que lhe dá nova vida quando está sedento. Não tem nada de estranho que finalmente acabe consagrando seu amor a esse mundo.

Werner Sombart (1863-1941). El apogeo del capitalismo

quarta-feira, agosto 25, 2010

A Dialética das Luzes americana


As esperanças da espécie humana parecem hoje mais distantes de serem realizadas do que mesmo nas épocas ainda tateantes em que primeiro foram formuladas pelos humanistas. Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. Assim, o progresso ameaça anular o que se supõe ser o seu próprio objetivo: a idéia de homem.


Max Horkheimer, Eclipse da Razão

quarta-feira, julho 21, 2010

Enigmas do conceito

"Há um engodo presente em todo ato de definir: através do conceito é fixado algo a respeito da coisa que facilita seu manejo, por isso nem sujeito nem objeto podem ser reduzidos à sua definição, há sempre algo que fica de fora. Definir é delimitar, impor limites à coisa para que se torne assimilável conceitualmente. O conceito é necessário, mas não se deve pensá-lo como o espaço dentro do qual tudo se encaixará e aparecerá de modo claro à compreensão. A pretensão de definição de subsumir em si um objeto deve cessar para garantir sua própria validade. Até porque, como bem nota Adorno, em Terminologia filosófica, o procedimento da definição não é suficiente à filosofia, já que os próprios conceitos modificam-se (Adorno, 1973d, p.9). Graças à dialética, o conceito é possível, sem decidir-se por uma rigidez parcial que acabe, por ver a verdade apenas no particular ou apenas no universal. Se a questão não é eliminar a definição - pois, mesmo sendo falta de liberdade, ela é necessária ao pensar - deve-se propô-la de modo dialético"
(TIBURI, Márcia. Metamorfoses do conceito: ética e dialética negativa em Theodor Adorno. UFRGS, 2005, p. 122).

quarta-feira, junho 23, 2010

A liberdade de seguir o estouro da boiada


Nenhum domador jamais teve tanto poder sobre seus animais. Solta-se o povo como massa leitora, e este corre pelas ruas, lançando-se sobre o alvo indicado, quebrando janelas e ameaçando. Um leve aceno com o chicote da imprensa, e a massa se acalma e volta para casa. A imprensa é hoje um exército com tropas cuidadosamente organizadas, que têm jornalistas como oficiais e leitores soldados. A situação é a mesma em qualquer exército: o soldado obedece cegamente, e as modificações nos objetivos de guerra e nos planos de operação são feitas sem o seu conhecimento. O leitor nada sabe do que se pretende com ele, e nem deve saber, nem mesmo o papel que desempenha nisso tudo. Não existe sátira mais terrível da liberdade de pensamento. Antigamente não se podia ousar pensar livremente; a gora isto é permitido, mas não se consegue fazê-lo. As pessoas desejam pensar apenas o que se deseja que elas pensem, e exatamente isso é sentido como liberdade
Oswald Spengler (1880 - 1936)

quinta-feira, setembro 24, 2009

Monsieur le Capital et Madame la Terre




No capital portador de juro, esse fetiche automático está, portanto, em evidência em sua forma mais pura, valor que valoriza a si mesmo, dinheiro que gera filhos e não traz mais, sob essa forma, nenhuma marca de nascença. A relação social é completada como relação de uma coisa, do dinheiro, consigo mesma. Em vez da transformação real do dinheiro em capital, vemos aqui apenas sua forma desprovida de conteúdo [...]. Sendo assim, criar valor, dar juros como a macieira dá maçãs, tornou-se inteiramente uma propriedade do dinheiro. E aquele que empresta seu dinheiro o vende como algo que traz rendimento. Isso não basta. O capital efetivamente ativo, como vimos, apresenta-se de tal modo que faz render o juro não como capital ativo, mas como capital em si, como capital financeiro. Isso também se inverte: enquanto o juro é apenas uma parte do lucro, isto é, da mais-valia que o capital ativo extrai do trabalhador, o juro aparece desta vez, inversamente, como o verdadeiro fruto do capital, como a realidade primitiva, e o lucro, transformado então em forma de ganho do empresário, aparece como um simples acessório e suplemento que se adiciona no decorrer do processo de reprodução. Nesse caso, a forma fetichista do capital e a representação do fetiche do capital são completadas. Na fórmula D-D', temos a forma não-conceitual do capital, a inversão e a coisificação das relações de produção na mais alta potência: a forma portadora de juro, forma simples do capital que tem como condição de sua própria reprodução a capacidade do dinheiro, ou seja, da mercadoria, de valorizar seu próprio valor, independente da reprodução - mistificação do capital sob sua forma mais gritante. Para a economia vulgar, que quer representar o capital como fonte autônoma e de criação do valor, essa forma é naturalmente abençoada, pois nela a fonte do juro não é mais reconhecida, nela o resultado do processo capitalista de produção - separado do próprio processo - adquire uma existência autônoma.
Karl Marx. Das Kapital

segunda-feira, agosto 31, 2009

Mímesis e carceragem



A masoquítica cultura de massa é o fenômeno necessário da própria produção todo-poderosa. A ocupação afetiva do valor de troca não é qualquer transubstanciação mística. Ela corresponde ao comportamento do prisioneiro que ama sua cela, porque nada mais lhe é dado amar.


Theodor W. Adorno

terça-feira, agosto 18, 2009

Vêem-se artesãos, mas não pessoas; pensadores, mas não pessoas; sacerdotes, mas não pessoas; senhores e servos, jovens e gente de propriedade, mas não pessoas. Não seria isso como um campo de batalha em que mãos, braços e membros de todos os tipos estão espalhados uns entre os outros enquanto o sangue derramado de sua vida é sugado pela areia?

Friedrich Hölderlin

segunda-feira, maio 19, 2008

Lukács e a Teoria do Romance



Bem aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhes estão abertos e que têm de seguir! Bem aventurados os tempos cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para eles tudo é novo e todavia familiar; tudo significa aventura e todavia tudo lhes pertence. O mundo é vasto e contudo, nele se encontram à vontade, porque o fogo que arde na sua alma é da mesma natureza que as estrelas. O mundo e o eu, a luz e o fogo distinguem-se porque o fogo é a alma de toda a luz e todo o fogo se veste de luz. Assim não há um único ato da alma que não adquira plena significação e não venha a finalizar nesta dualidade: perfeito no seu sentido e perfeito para os sentidos: perfeito porque o seu agir se destaca dela e porque, tornando autônomo, encontra o seu próprio sentido e o traça como que em círculo à sua volta. “Filosofia”, diz Novalis, “significa propriamente nostalgia, aspiração a estar em toda parte como em sua casa”. É por isso que a filosofia, enquanto forma de vida assim como enquanto determina a forma e o conteúdo da criação literária, é sempre o sintoma de uma laceração entre o interior e o exterior, significativa de uma diferença essencial entre o eu e o mundo, de uma não-adequação entre a alma e a ação. É a razão pela qual os tempos felizes não tem filosofia, ou – o que vem a dar no mesmo – todos os homens desses tempos são filósofos, detentores do objetivo utópico de qualquer filosofia. Porque qual pode ser a tarefa da verdadeira filosofia, senão levantar essa carta arquetípica.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Tecelões da Silésia


Sem lágrimas em teares que tremem
tecemos e batemos os dentes.
Alemanha, tecemos nesta ocasião
aqui a tua mortalha e a tríplice maldição
Tecemos. Tecemos.

Maldição ao Deus falso, ao qual rezamos
enquanto o frio e a fome agüentamos.
Em vão confiamos e esperamos;
tem fraudado, mentido e enganado.
Tecemos. Tecemos.

Maldição ao rei o rei dos ricos,
o monstro que traga os peixes pequenos;
que nos oprime, explora e tortura
e, como os cães, nos fuzila.
Tecemos. Tecemos.

Maldição à Pátria falsa e funesta,
que só à vergonha se presta,
que a toda flor precocemente esmaga,
e ao verme alimenta em podridão nefasta.
Tecemos. Tecemos.

Voa a lançadeira e treme o tear.
Tecemos com dedicação sem cessar.
Alemanha de ontem, nesta ocasião,
eis a tua mortalha e a tríplice maldição.
Tecemos. Tecemos.
Heinrich Heine (1797-1856)

segunda-feira, setembro 03, 2007

Não bater à porta



A tecnificação torna, entrementes, precisos e rudes os gestos, e com isso os homens. Ela expulsa das maneiras toda hesitação, toda ponderação, toda civilidade, subordinando-as às exigências intransigentes e como que a-históricas das coisas. Desse modo, desaprende-se a fechar uma porta de maneira silenciosa, cuidadosa e, no entanto firme. As portas dos carros e das geladeiras são para serem batidas, outras têm a tendência a fechar-se por si mesmas, incentivando naqueles que entram o mau costume de não olhar para trás, de ignorar o interior da casa que o acolhe. Não se faz justiça ao novo tipo de homem, se não se tem consciência daquilo a que está incessantemente exposto pelas coisas do mundo a seu redor, até mesmo em suas mais secretas inervações. O que significa para o sujeito que não existam mais janelas que se abram como asas, mas somente vidraças de correr para serem bruscamente impelidas? Que não existam mais trincos de portas, e sim maçanetas giratórias, que não existam mais vestíbulos, nem soleiras dando para a rua, nem muros ao redor do jardim? E qual o motorista que já não foi tentado pela potência do motor de seu veículo a atropelar a piolhada da rua, pedestres, crianças e ciclistas? Nos movimentos que as máquinas exigem daqueles que delas se servem localizam-se já a violência, os espancamentos, a incessante progressão aos solavancos das brutalidades fascistas. No desaparecimento da experiência, um fato possui uma considerável responsabilidade: que as coisas, sob a lei de sua pura funcionalidade, adquirem uma forma que restringe o trato delas a um mero manejo, sem tolerar um só excedente – seja em termos de liberdade de comportamento, seja de independência da coisa - que subsista como núcleo da experiência porque não é consumido pelo instante da ação.


ADORNO, Theodor W. 19. In:______. Minima Moralia. Trad. de Luiz Eduardo Bicca, com revisão de Guido de Almeida. São Paulo: Ática, 1993.

sexta-feira, agosto 24, 2007

O Insensato


Não ouvistes falar desse louco que, em pleno dia, acendia uma lanterna e se punha a correr pela praça pública gritando incessantemente: "Procuro Deus! Procuro Deus!". Como estavam ali muitos que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou uma grande gargalhada. Dizia um: "Então, Deus se perdeu?”. “O quê? Deus perdeu-se como uma criança?”, perguntava outro. “Ou escondeu-se? Tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou?” – assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo. O louco precipitou-se para o meio deles e trespassou-os com o olhar: “Para onde foi Deus?” - gritou-lhe. “Eu vou dizer-vos isso. Nós o matamos, vós e eu! Todos nós somos os seus assassinos. Como pudemos fazer isso? Como fomos capazes de esvaziar todo o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos quando separamos esta terra de seu sol? Para onde ela se movimenta agora? Para onde nos levam seus movimentos? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem cessar? Para trás, para o lado, para a frente, para todos os lados? Existe ainda um acima e um abaixo? Não erramos como através de um nada infinito? O espaço vazio não sopra sobre nós? Não faz mais frio? Não vem a noite e cada vez mais noite? Não é preciso acender lanternas em pleno dia? Não ouvimos ainda o ruído dos coveiros que enterraram Deus? Não sentimos putrefação divina? Também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E fomos nós que o matamos! Como nos consolaremos, nós, os assassinos de todos os assassinos? O que o mundo possuía de mais sagrado e mais poderoso perdeu seu sangue sob nossas lâminas – quem lavará esse sangue de nossas mãos? Com que água poderemos purificar-nos? Que expirações, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não temos de converter-nos em deuses, para parecermos dignos desse ato? Nunca houve ato mais grandioso – e quem nascer depois de nós fará parte, por causa desse ato mesmo, de uma história superior a tudo o que foi história até agora”. Aqui se calou o louco e encarou outra vez os ouvintes; também eles se calavam e o olhavam com estranheza. Por fim, atirou ao chão a lanterna, que se partiu em pedaços e se apagou. “Vim cedo demais”, disse então: “Ainda não é chegado o meu tempo. Esse enorme acontecimento ainda está a caminho e viaja – ainda não atingiu os ouvidos dos homens. O relâmpago e o trovão precisam de tempo, depois de terem sido realizados, para serem vistos e ouvidos. Esse ato está ainda mais distante dos homens que o astro mais distante – e no entanto foram eles que o reaizaram!” (Grifos meus)


NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Hemus, 1981.