quinta-feira, maio 26, 2005

Réquiem para o blog


Olá pessoas, estou indo para Nhandeara, a minha terra querida, aquela que não é recanto dos pinheirais mas que tá valendo.
Não tenho muito o que dizer, estou aproveitando o feriado para atualizar, ou dar uma pseudoatualizada, neste blog. Na realidade nem estou com muito saco para escrever. Agora eu vou ter que arrumar minhas malas, já dei uma geral no carro e gastei uma graninha, tomara que o carro não caia em nenhum buraco.

Desejo a todos um feliz fim de semana, ótimo feriado! Pois é, eu nem sei sobre o que é este feriado, não sei o que estou comemorando. Brasileiro é assim mesmo. Viva! Viva! Viva o Papa Maledeto XVI ter falado em português!

segunda-feira, maio 23, 2005

A fantástica fabrica de ilusão


Olá caros amiguinhos que adoram perder preciosos minutos de suas vidas para lerem este falido blog. Bom, atualmente eu estou sem tempo para escrever ou copiar coisas que acho interessantes e dividi-las com vocês. Não quero dizer que irei abandonar o blog, isto não seria muito ético. Vou continuar, mas em ritmo mais lento.

Neste tempo estarei tentando entender mais de Html e essas coisas estranhas que estruturam as páginas da web. Não se esqueçam de mim, qualquer coisa é só mandarem sugestões. A idéia de fazer um blog em conjunto com várias pessoas ainda está no forno, não desisti dela.
Também quero informar às pessoas que assiduamente me viam no MSN que eu não estou conectando mais. Cortei a net a cabo, agora só estou na discada mesmo. As conexões agora só ocorrem depois da meia-noite (quando estou sem sono), ou nos fins de semana.

sábado, maio 14, 2005

Conversas sobre ambiente de trabalho em site gera sindicância na UEL

Médicos e residentes do Hospital Universitário (HU) de Londrina mostraram que têm preconceito, são racistas e intolerantes em conversas no site de relacionamentos Orkut.
As conversas foram descobertas por funcionários e agora o caso está sendo investigado pela Reitoria da Universidade Estadual de Londrina - UEL e até pela Polícia Federal.
Os funcionários do HU de Londrina ficaram decepcionados quando tomaram conhecimento do conteúdo das conversas entre médicos residentes na Internet. Participavam do grupo de conversar 150 médicos residentes, ex-residentes e alunos.
Nos textos, os funcionários foram chamados, entre outras coisas, de vermes. Os médicos usaram expressões racistas, e os funcionários não eram o único alvo. Até uma paciente foi ofendida. Uma das mensagens do grupo sugere a explosão do hospital.
As ofensas aos funcionários mobilizou a comunidade londrinense. Foi aberta uma sindicância na universidade, o caso está sendo investigado pelo Conselho Regional de Medicina, a Câmara de Vereadores vai emitir um documento de repúdio e a Polícia Federal também está apurando o que aconteceu e já sabe que o médico que deu origem ao grupo estudou na UEL e hoje trabalha em São Paulo.
Médicos que não participaram do grupo esperam a punição dos colegas e pedem desculpas, preocupados com a repercussão negativa, que não devia ser esperada pelos autores das declarações.
No fim da tarde de ontem, sexta-feira, um dos funcionários ofendidos decidiu que vai entrar na Justiça exigindo uma indenização por danos morais.
Veja o que falam os funcionários ofendidos na reportagem em vídeo


Texto: TudoParaná
Informações: TV Paraense



quinta-feira, maio 12, 2005

PsicoClockwork

Sem nada para postar, sem saco para escrever...coloco então um pequeno texto que escrevi com o Fernando. Uma análise do filme Laranja Mecânica com elementos de psicologia, mas sem deixar pitadas de crítica sociológica.

Discussão sobre o filme Laranja Mecânica à luz da Psicologia Comportamental

A discussão não remete apenas em fazer algum tipo de sinopse do filme, ela parte de alguns elementos colocados na obra cinematográfica que são de suma importância para compreendermos o Behaviorismo e analisarmos a sua relevância e eficácia em práticas de controle social. Estas são maneiras das quais nos condicionam (seja individualmente, ou coletivamente) a termos comportamentos socialmente concebidos sendo impostos de uma forma ideológica, cultural e opressora. Temos que nos portar de certa maneira, de modo que passemos por despercebidos pelos olhos minuciosos da coerção comportamental. Para a proteção das “anomalias” sociais subversivas o Estado conta com o monopólio do aparelho repressivo e a própria sociedade se encarrega, em alguns casos, de manter o controle social. O filme em questão é considerado um clássico por abordar estas questões universais e abrir um leque para várias leituras das mais distintas áreas.
O mais interessante é perceber que cada vez mais o homem quer vigiar (condicionar, dominar) o outro, visto que hoje estão disseminadas ações a fim de minimizar os direitos individuais (privacidade) e, se por lado estamos ficando cada vez mais individualistas, por outro estamos expondo toda nossa individualidade aos interesses do capital e da “segurança” mundial. Tornando o comportamento individual tão admirável como a face de Narciso.

O universo de Laranja Mecânica é atualíssimo, pois reflete a realidade de nossos centros urbanos repletos de gangues, cada qual com suas gírias, seus delitos violentos e o total desprezo por valores tradicionais. Respeito, solidariedade e cooperação não são as suas bandeiras. É uma realidade que reflete a ausência de controle sobre o comportamento dos jovens nos dias de hoje: as instituições sociais (família, igreja e escola) não os absorvem, deixando-os à mercê de suas orientações comportamentais primitivas, seus instintos mais agressivos e egoístas.
Numa de suas investidas, o bando comete um homicídio, o que leva o líder Alex para uma casa de detenção e, dali, para um programa de reeducação coordenado por um político astuto. O programa visa afastar o jovem de tudo aquilo que até então o excitava (sexo e violência) e consiste em obrigá-lo a assistir a cenas em que esses conteúdos estão presentes. A reação de Alex, ao invés de ser de alegria, é de profundo mal-estar, uma vez que os reeducadores o mantém sob o efeito de drogas que provocam náuseas e vômitos.
O fundamento desse programa é a teoria do condicionamento, elaborada pelo fisiologista russo I. Pavlov, no início do século XX, e desenvolvida mais tarde por J. B. Watson e B. Skinner, psicólogos norte-americanos que criaram o paradigma comportamentalista na Psicologia. Estímulos agradáveis (no caso de Alex, sexo e violência) são associados a respostas desagradáveis, como as que são induzidas no organismo do rapaz pelos fármacos. As imagens e a reação física associam-se de tal maneira que mais tarde, mesmo sem a ação das drogas, Alex irá sentir-se mal sempre que presenciar atos de conotação violenta e ou sexual.

Em Laranja Mecânica temos um excelente exemplo de como utilizar certos conhecimentos da Psicologia para o exercício do controle social. No filme, os cientistas reeducadores aplicam a punição que o espectador, de um modo geral, almeja desde os momentos iniciais do espetáculo. Talvez pudéssemos fazer o mesmo com todos os delinqüentes que assombram as noites das nossas cidades. Destruiríamos seu ímpeto agressivo e garantiríamos a tranqüilidade das famílias e dos mais fracos, preservando a ordem social. Esta seria uma visão reducionista de um problema social em que a origem se dá nas contradições entre as classes sociais e na relação trabalho X capital. Mas, de toda forma, ela não deixaria de ter um efeito imediato ao problema da violência urbana que tanto tira o sono da nossa classe média.
Alex passa a sentir náuseas também ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, música pela qual nutria verdadeira adoração. Por mero acaso, as cenas detestáveis que Alex foi obrigado a assistir durante o processo de condicionamento eram embaladas pela Nona de Beethoven. A repugnância física ficou associada não apenas a sexo violento e violência gratuita, mas também a um dos tesouros de nossa cultura.
O social queria o rapaz punido sim, mas recuperado, reintegrado à sociedade. Quem sabe ele poderia conhecer uma boa moça, casar-se, ter filhos, um emprego... Pois é esse o destino de Alex sugerido no livro que deu origem ao filme. O rapaz, que sobrevive ao atentado contra a própria vida e fica livre do condicionamento a que fora submetido, observa um casal de namorados e almeja ser como eles, um dia, ter uma vida normal. Podemos interpretar esse final como uma mensagem de Burguess sobre a história que nos conta: as atitudes de Alex e sua gang não passavam de loucuras da adolescência, agora superada. A Laranja Mecânica de Burguess seria portanto não uma crítica à desordem social que impede os jovens de terem melhor perspectiva de vida, mas uma história sobre a natural transição da adolescência para a maturidade.

Mas não é esse o final dado por Kubrick. O diretor interrompe a narrativa de Burguess no momento em que Alex, em recuperação no hospital, recebe a visita do político astucioso que comandou a experiência de condicionamento com o intuito de utilizá-la para fins eleitorais, como se fosse a solução para a violência imperante na sociedade. Dada a repercussão negativa do caso diante da opinião pública, o político propõe então que Alex aceite tornar-se seu garoto-propaganda. Abraçado ao político, o rapaz acena para os jornalistas, sorri de modo sarcástico enquanto tem um devaneio: imagina-se fazendo sexo com uma mulher em um cenário paradisíaco, cercado de nuvens tênues, emoldurado por gentlemens e ladies que o admiram. Percebe que está curado, mas seu sorriso hipócrita nos diz que no fundo ele continua o mesmo, capaz de cometer as mesmas atrocidades, apenas que agora o fará de modo a ser aceito nos ambientes mais sofisticados da sociedade.

Não dá para se afirmar que o destino do protagonista em questão dependeria tão-somente dos fatores condicionantes organizados em torno dele. Sua reeducação só se deu de uma forma aparente e falsa, nas suas concepções internas o jovem ainda acreditava nas mesmas coisas e tinha os mesmos sentimentos. No campo dos experimentos com animais podemos dizer que a psicologia comportamental é bem eficaz, no entanto, não há como afirmar a mesma coisa em meio à diversidade humana. Esta é uma forma de mutilar nossa alteridade e nossa criatividade, deixando-nos sem defesa e abrindo o caminho para a manutenção do controle na mão dos grupos detentores do poder.

Celsius 41.11

Olavo de Carvalho e seus comparsas estão vendendo o Dvd do filme Celsius 41.11 que é uma crítica ao filme de Michael Moore, Farenheit 9/11. O filme pode ser adquirido no site: www.midiasemmascara.com.br
O MÍDIA SEM MÁSCARA disponibiliza com exclusividade o filme Celsius 41.11 ao público brasileiro, convidando os leitores, independentemente de suas posições ideológicas, a comparar o conteúdo das duas obras, e saber porque nos EUA ainda é possível o embate de idéias e a existência de mais de uma versão para os fatos políticos, conceito que no Brasil, infelizmente, encontra-se esquecido.
O filme Celsius 41.11 está disponível em VHS e DVD com legendas em português, por apenas R$ 50,00 incluindo despesas postais. Para saber como reservar sua cópia, entre em contato com contato@midiasemmascara.org
O Mídia Sem Máscara é um misto de várias idéias defendidas pelo grande Olavinho. Conheçam Olavo, leiam seus textos e sintam ódio por ele.

terça-feira, maio 03, 2005

O Cucaracha mais brasileiro de todos


Iniciou sua carreira como cartunista, quadrinhista, foi colaborador de O Pasquim (1969). Em 1970 lançou a revista Os Fradinhos, seus personagens mais famosos e que possuem sua marca registrada: um desenho humorístico, crítico e satírico, com personagens tipicamente brasileiros e que retratavam a situação nacional da época.

Cresceu na periferia de Belo Horizonte, onde frequentou o Colégio Arnaldo da Ordem do Verbo Divino, um curso supletivo noturno e um curso superior de Sociologia, que abandonou depois de dois meses. Henfil morreu no Rio de Janeiro, em 04 de janeiro de 1988, com 43 anos. Era hemofílico e contraiu Aids através de uma transfusão de sangue.


O Banco do Brasil está fazendo uma exposição com os cartuns denúncia deste grande humorista. Apesar de não termos vivido e participado desta fase de protestos e lutas, de conquistas e perdas, ainda temos muito que apreender com personagens como este sincero cartunista. Os problemas observados e criticados por Henfil durante a década de 70 e 80 ainda persistem, as lutas e protestos, por um outro lado, nem tanto. Aqueles que ajudaram Henfil na luta de um Brasil com liberdade e justiça social nos anos 70 e 80, hoje, salvo algumas exceções, são os mesmos que expropriaram a classe trabalhadora de todas as conquistas históricas de longos anos de sangue e dor.

Henfil destilava um antiintelectualismo apimentado por uma xenofobia primária e disfarçado em preconceito contra o modismo cultural que realmente existia, ou existe:
"Esse pessoal é de moda, muda de filósofo, Marcuse, como quem muda de camisa. Muda de cantor como quem muda de cueca. Fica mudando porque não tem raiz nenhuma. Devido à formação estrangeira, vive de costas para o Brasil. O sonho deles é pegar uma bolsa de estudos para a Europa e ir passear ou trabalhar no Estados Unidos".
Bela questão para refletir a situação atual das ciências humanas.

segunda-feira, abril 25, 2005

A DESILUSÃO DA AMÉRICA LATINA

Ratzinger, o Torquemada de Wojtyla, executou todos os expurgos que visavam erradicar a Teologia da Libertação
Por Maurizio Matteuzzi*

O Espírito Santo pode não ter desejado, mas desta vez aprontou uma grande surpresa. A nomeação do Torquemada de Wojtyla é um tapa na cara da América Latina. Para os católicos (e não somente eles), mas também para a hierarquia católica. Que esperava que tivesse chegado o tempo do primeiro papa latino-americano, que fizesse da guerra contra a pobreza a sua cruzada – como o papa polonês havia feito contra o comunismo.
Muito se falava, depois da morte de Wojtyla, das fortes chances dos papabili da América Latina. Candidatos com os favores do prognóstico, como o brasileiro Hummes, o hondurenho Maradiaga, o argentino Bergoglio, o mexicano Rivera Carrera, os colombianos Castrillon e López Trujillo. Outsiders como o chileno Errazuriz, o dominicano Lopez Rodriguez, o cubano Ortega. Gente segura para o chefe, sem laços com a Teologia da Libertação. Todos nomeados por Wojtyla no curso da impiedosa limpeza da América Latina. Todos conservadores em matéria de doutrina e de dogmas, mesmo se sensíveis, quase todos, em matéria social.
Não foi assim. Foi Ratzinger a escolher o título de Bento XVI. O homem da restauração doutrinal e autoritária, o guardião do dogma que afastou os espíritos inquietos e heterodoxos – aqueles mais evangélicos e próximos às temáticas da justiça social – do catolicismo latino-americano.
A começar pelo teólogo brasileiro Leonardo Boff, que em 1985 foi interrogado – felizmente para ele apenas intelectualmente – por Ratzinger em sua qualidade de responsável pelo Santo Ofício e depois condenado ao “obsequioso silêncio” e constrito a deixar a congregação dos franciscanos. Ou o teólogo peruano Gustavo Gutierrez, que ficou na Igreja, mas ao preço – semelhante ao silêncio – de passar seus escritos pelo crivo hostil do arcebispo de Lima, Luis Cipriani, homem da Opus Dei nomeado cardeal por Wojtyla em uma das últimas fornadas.
Ratzinger sempre foi o braço direito do papa polonês em todos os expurgos e purificações lentamente feitas para erradicar a erva daninha da Teologia da Libertação, que florescia na América Latina quando João Paulo II a visitou pela primeira vez no fim de 1978, em Puebla, México.
Todos bateram de frente, eventualmente, com a gélida ortodoxia de Ratzinger: o bispo de Chiapas, Samuel Ruiz, o bispo de Olinda, Hélder Câmara, o cardeal brasileiro Paulo Evaristo Arns, o padre e ministro sandinista Ernesto Cardenal, o bispo catalão-brasileiro Pedro Casaldáliga, e muitos jesuítas.
Naqueles anos de fogo, quando Wojtyla havia feito uma aliança informal, mas estreita, com o presidente Ronald Reagan para combater também na América Central a “ameaça comunista”, outros padres – e freiras – pagaram ainda mais caro. Com a tortura e com a vida. Como o monsenhor Arnulfo Romero, o bispo (conservador, mas não cego nem demoníaco) de San Salvador, assassinado pelos esquadrões da morte nos anos 80. Ou os cinco sacerdotes de El Salvador assassinados entre 1977 e 1979, pelos quais Romero foi a Roma, pouco antes de ser morto, para pedir uma intervenção explícita do papa (que não foi). Ou as quatro freiras americanas mortas naquele ano. Os 23 sacerdotes assassinados na Guatemala entre 1980 e 1985. Os seis jesuítas da Universidade de El Salvador mortos em 1989. Entre as centenas de santos e beatos proclamados por Wojtyla e o seu guardião da fé Ratzinger não encontramos entre os padres mártires dos “vermelhos” na guerra da Espanha ou dos “comunistas” no Leste Europeu nenhum dos latino-americanos.
Wojtyla e Ratzinger dividiram a Igreja Católica na América Latina em duas igrejas cada vez menos conciliáveis: a igreja oficial e a igreja popular.
Na verdade, o papa polonês e seu pastor alemão, privilegiando os problemas da evangelização sobre aqueles sociais, castigando as comunidades pastorais de base e mirando os movimentos carismáticos de renovação, golpeando os jesuítas e dando carta-branca para a Opus Dei e os Legionários de Cristo (e em alguns casos à Comunhão e Libertação), acabaram por provocar um gravíssimo dano à igreja do continente e da esperança.
O descrédito e o vazio deixados pela igreja dos pobres foram preenchidos rapidamente pela arma mais poderosa de que dispõem os Estados da América Latina: as igrejas chamadas pentecostais, que hoje atraem uma fatia substancial de católicos – um milhão por ano só no Brasil – e difundem uma ideologia individualista-fundamentalista com fundo milagroso. Mesmo que a América Latina ainda conte com a metade do bilhão de católicos no mundo, é fato que há 50 anos mais de 90% de latino-americanos se diziam católicos e hoje de 15% a 20% passaram para as pentecostais. Fora um golpe do Espírito Santo, será difícil para Bento XVI interromper esse movimento.
*Texto publicado no diário italiano Il Manifesto na edição de 20 de abril.

quarta-feira, abril 20, 2005

BENEATH THE REMAINS


Bom, estou indo para Nhandeara. Coloquei um mapa para identificarem onde fica. É mais uma típica cidade do sertão, do noroeste paulista. Lá tem basicamente uma igreja, uma praça (que contorna a igreja), um campo de futebol, muito sol, poucas árvores e vários chapéis.
Domingo retornarei para o recanto dos pinheirais. Quarta-feira é dia de prova!

Perceberam a diversidade de culturas? Milho, café e algodão. Isso tudo sem contar esse urubu ai do meio.

terça-feira, abril 19, 2005

Torquemada do século XXI


Um balanço entre os conservadores e os progressistas na Igreja, Ratzinger X Boff
A primeira visita de João Paulo II ao Brasil, em 1980, dois anos após sua eleição, foi muito positiva para os progressistas, na avaliação de frei Beto, frade dominicano identificado com a Teologia da Libertação. ''Na época, o papa recusou-se a descer de helicóptero no II Exército, em São Paulo, e recebeu sindicalistas'', lembra o frei.
Em 1984, as relações entre o clero progressista e o papa já não eram mais tão calorosas. Depois de um longo período de divergência com a cúpula da Igreja, por causa de suas posições independentes, o frade franciscano Leonardo Boff, então com 44 anos, foi chamado ao Vaticano pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, pelo teor explosivo de seu livro Igreja: Carisma e Poder, no qual reprovava a estrutura hierárquica da Igreja. Boff foi recebido no dia 7 de setembro, poucos dias após Ratzinger ter publicado uma dura instrução, na qual acusava os religiosos que defendiam o movimento de cometer ''graves desvios teológicos''.
Boff entregou a Ratzinger um documento de apoio a seu trabalho com a assinatura de 50 mil brasileiros. Não bastou para que suas teses fossem condenadas. No dia 26 de abril de 1985 lhe foi imposto um ano de silêncio obsequioso, que Boff acatou. Em 1987 seu livro Trindade e Sociedade não foi publicado na Itália, por interferência de Ratzinger. Em 1991 foi obrigado a deixar o cargo de redator-chefe da revista Vozes e, no ano seguinte, proibido de lecionar. Em 26 de maio de 1992, Boff abandonou o sacerdócio para se casar com sua ex-secretária. Hoje, Boff escreve e viaja pelo mundo convidado para palestras. (tirado da Época)

O teólogo Brasileiro Leonardo Boff comenta o papado de JP II
O Pontificado de João Paulo II foi longo e complexo. Só lhe faremos justiça se o inserirmos dentro de um grande arco de questões que vinham ocupando a Igreja há muito tempo. Só assim ganharemos altura para ver seu real significado. Procuraremos ser o mais objetivos possíveis mas não indiferentes.
Qual a característica fundamental deste Papado? É a restauração e a volta à grande disciplina. Ele não se caracteriza por uma reforma, mas por uma contra-reforma. Ele representa a tentativa de sustar um aggiornamento (processo de modernização) que irrompera na Igreja a partir dos anos 60 e que estava tomando conta de toda a cristandade. João Paulo II, a pretexto de salvaguardar a identidade católica, deu uma freada vigorosa neste processo.
O texto completo se encontra neste site http://buscador.vieiros.com/comunidade/foros/read.php?f=9&i=39638&t=39638

Ratzinger só na espreita, esperando o velho "morrer".

Então Ratzinger foi o inquisidor de Boff...essa eu não sabia, fiquei sabendo agora a pouco pela Rede Bandeirantes quando cobria a “posse” do novo Papa. Achei algumas coisas na net sobre o tema, espero que gostem. Não vou escrever mais porque estou meio sem saco mesmo. Mas, se querem saber mais sobre essa história assistam o Canal Livre deste domingo que vai ao ar pela mesma rede de televisão.
Pra quem esperava um Papa brasileiro, sinto muito...Os colonizadores não iriam abrir espaço para os colonizados. O que interessa mesmo é a Europa no fim das contas, o resto que se foda.
Ser de terceiro mundo é isso mesmo. A gente tem a maior quantidade de títulos mundiais de futebol, e, no entanto a copa do mundo vai ser na Alemanha. Somos o país com o maior número de católicos do mundo, mas quem levou o pontificado foi um alemão.
Alguns minutos antes do Papa aparecer na sacada pensava eu como seria a narração de Kleber Machado:
- Hoje não! Hoje não! Hoje sim...

domingo, abril 17, 2005

Leiam: Por que o Papa não pode ser brasileiro...
http://kibeloco.blogspot.com/2005/04/o-papa-no-pode-ser-brasileiro_14.html

quarta-feira, abril 13, 2005

A SUBVERSÃO E O PODER


Papa e Castro

A idéia de Cristo, crucificada no Calvário, não sobreviveu com a Igreja, tampouco com João Paulo II
por Mino Carta

Quem esteve na praça de São Pedro na noite de quinta-feira, 31 de março, e viu o povo de joelhos a orar pelo papa em agonia, viveu um momento excepcional, algo assim como o clímax da cultura de massa. Bem mais intensamente do que quem se postava diante do vídeo na poltrona da sala de estar. Igual a ir ao estádio para entregar-se às emoções do futebol.
Na imensa arena cercada pela colunata de Bernini e invadida pela noite úmida da chuva recente, apinhava-se a representação fervorosa e dorida da humanidade, massificada na dor. Sincera, decerto, e mesmo assim induzida. Programada.
Nunca foi tão fácil convocar as multidões e uni-las em torno de um sentimento comum. Nunca o homem se entregou tão maciçamente a enganos e ilusões. Os antigos, que fizeram cidades como Atenas e Roma, criaram o mito como metáfora do insondável, como figuração do mistério. O homem em oração na praça de São Pedro invoca o mito como verdade terrena.
A imponência da personalidade de João Paulo II é inegável, bem como da missão que se atribuiu e perseguiu até os limites da obsessão. Mas, conforme a aguda observação de Eugenio Scalfari, um dos maiores jornalistas italianos, falhou no seu intento.
Seria possível apontar nele o modernizador da Igreja? Aceitou avanços da ciência, mas resistiu a outros e pregou interesseiramente a privatização do ensino. E seria possível enxergar o Bom Pastor em quem leva o fiel ao pecado ao condenar o anticoncepcional?
Karol Wojtyla foi símbolo eficaz da luta anticomunista, na qual se engajou movido, antes de mais nada, pelo patriotismo polaco. Nem por isso foi o demolidor do Muro de Berlim. O regime soviético esvaiu-se em seus próprios desmandos e prepotências. Era uma estrutura podre, e ruiu.
Na última fase do seu pontificado, João Paulo II manifestou-se contra os abusos capitalistas e o neoliberalismo. O que não impediu que santificasse José María Escrivá, fundador da Opus Dei, organização umbilicalmente ligada ao mundo dos negócios. Nem sempre límpidos. Muito pelo contrário.
Não falta quem estranhe a profundidade do relacionamento do papa com a Opus Dei, bem representada no Vaticano pelo próprio porta-voz papal, Navarro Valls. De resto, não é de somenos recordar que as finanças da Santa Sé, fim dos anos 70, começo dos 80, ficaram aos cuidados de um certo monsenhor Marcinkus, de quem se descobriu posteriormente o envolvimento em escândalos cabeludos, e que terminou sua carreira, de início fulminante, como bispo de uma remota cidadezinha do interior dos Estados Unidos.
Escreve Scalfari que, pior de tudo, foi a chance perdida de um retorno às lições do cristianismo. O jornalista é ateu, respeita, porém, a palavra de Jesus e, corretamente, a interpreta de um ponto de vista político. Não há como negar que a Igreja, ao longo dos séculos, apossou-se dela e a transformou em instrumento a seu talante.
Falta a Cristo a dimensão histórica, o indispensável, preciso registro que coloca a personagem no tempo e no espaço. A idéia, contudo, aí está, e sobrevive dois mil anos depois. A idéia da igualdade a partir da valorização da individualidade. E ela é que foi crucificada.
O Calvário, está claro, foi obra do Império Romano, e não do Sinédrio. Cristo era a subversão, e foi até que a Igreja não se tornasse, ela própria, um poder dentro do poder, ao recomendar a resignação como garantia do prêmio no além.
João Paulo II não se constituiu, definitivamente, em antipoder, donde a duríssima repressão, exercida com ímpeto igual à do combate ao comunismo, em relação a quantos defendessem a opção preferencial pelos pobres, pelos desvalidos do mundo. Sobre as esperanças de resgate dos povos latino-americanos e africanos, o papa falecido passou como um furacão.
No fim da peça Santa Joana, Bernard Shaw coloca a heroína de Donrémy na ribalta, ela ergue os olhos ao céu, e pergunta: “Quando, ó Deus, esta terra estará preparada para receber os teus santos?” Se Cristo estivesse hoje em Roma, talvez repetisse a frase do Calvário: “Perdoai-os, meu Pai, eles não sabem o que fazem”.

Tirado da Carta Capital que está essa semana nas bancas com o título e Ele, quem escolheria? - Uma Igreja cada vez mais midiática se prepara para sagrar o sucessor de João Paulo II

Pensamento do dia

Se deixarem o PT coordenar a eleição do novo Papa como coordenou a eleição para presidente da Câmara, vai ser eleito o bispo Edir Macedo...

domingo, abril 10, 2005

De onde vem a verdade?

http://www.pentagonstrike.co.uk/pentagon_bp.htm
Foi um míssel? Um avião? O que aconteceu naquela manhã de 11 de Setembro no Pentágono?

Erra uma vez


guess who...??

Erra uma vez

nunca cometo o mesmo erro duas vezes
já cometo duas três quatro cinco seis
até esse erro aprender que só o erro tem vez

Paulo Leminski

E agora, Madruga?


madruga+josé=Brasil

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

sábado, abril 09, 2005

coisas da net

descubram por si próprios...
http://www.lares.dti.ne.jp/%7Eyugo/storage/monocrafts_ver3/03/index.html

Os guerrilheiros estão de volta!


Cabra-Cega

O cinema nacional mudou de foco este ano. O ano passado tal fenômeno já vinha se desenrolando, os filmes deixaram de falar dos excluídos. Em 2005 vamos assistir a vários filmes sobre a luta armada.
Três destes filmes já estão chegando, são eles: Quase dois irmãos, fala sobre a Penitenciária da Ilha Grande na década de 70 e os morros cariocas de hoje; Cabra-Cega, tranca-se entre as quatro paredes de um aparelho clandestino; Araguaia, a Conspiração do Silêncio, que fala sobre a guerrilha do Araguaia.
São filmes de estéticas e resultados diversos, o que os três têm em comum é a revisão histórica como proposta e os militantes de esquerda como protagonistas. E os filmes não param por ai, tem uma safra de filhotes: Vôo Cego Rumo Sul; Tempo de Resistência; No Olho do Furacão; Corte Seco e Vlado. Estes foram somente os que eu consegui garimpar na internet, a cena deve ser bem maior. Alguns ainda não sairam do papel, mas essa rememoração está sendo extrema importância para uma releitura de um complexo período histórico. É como se a época, beneficiado pelo distanciamento temporal, estivesse finalmente pronto para ser recontado em forma de histórias inventadas, sem maniqueísmo, mas também sem autoflagelação.

quarta-feira, março 30, 2005

Quem disse que iremos passar fome??


Antropologia para todos os bolsos

A Anthropos Consulting é a primeira empresa mundial de Antropologia Empresarial. Utiliza os métodos da antropologia para estudar e propor soluções criativas e adequadas à realidade cultural e social das empresas e organizações visando o seu completo desenvolvimento e obtenção de resultados voltados para o mercado em que atuam.
Entre seus clientes principais encontram-se com serviços prestados, desde 1984, mais de 600 das maiores empresas brasileiras e internacionais como:
AmBev (Brahma/ Skol/ Antartica), Souza Cruz, IBM, Grupo Verdi, General Motors, Mercedes-Benz, International Paper (Champion, Papel e Celulose), Grupo Brasmotor (Embraco, Brastemp/ Consul), Banco Itaú, Citibank, Unibanco, BankBoston, Electrolux, NUTRON e outras empresas e organizações nacionais e multinacionais.
http://www.anthropos.com.br/conteudo.php?id=99&cat=5 ==> conheça o professor Marins

terça-feira, março 29, 2005

ANTROPÓLOGOS AO PODER!!!!!

Essa é uma dica do Fernando para os antropólogos famintos pelo capital. A saída é essa...

Apesar de não ser novidade, a Antropologia Industrial assume cada vez mais um papel de destaque nas organizações. E ameaça destronar o todo-poderoso marketing.

Por muito estranho que pareça, as empresas recorrem cada vez mais aos antropólogos para identificarem não só as necessidades dos seus clientes como dos próprios funcionários. Porquê? Ninguém melhor que eles consegue estudar o comportamento humano. O que é certo é que, apesar de esquecidos durante muito tempo pelos seus parceiros académicos, os antropólogos industriais começam finalmente a ter aceitação no universo empresarial. E muitos nem precisam de terminar o curso para terem um lugar garantido numa empresa.

Como tudo começou

A Antropologia Industrial nasceu há 20 anos, quando as lendas da Antropologia Aplicada, Lucy Suchman e Julian Orr, se instalaram no Centro de Pesquisa da Xerox, em Palo Alto, para estudarem a forma como as pessoas interagiam com a tecnologia. Desde essa altura, antropólogos, psicólogos e outros cientistas sociais infiltra-ram-se nas empresas disfarçados de «etnógrafos» e «avaliadores».As empresas apostam cada vez mais na pesquisa do consumidor, avaliando os produtos tecnológicos antes do seu lançamento, e por isso a entrada de cientistas sociais nas empresas tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos. Pode até soar como um capricho da chamada «Nova Economia», mas o certo é que os serviços destes profissionais tornaram-se mais importantes que nunca na procura do conhecimento sobre os «apetites» e características dos consumidores. Com o boom tecnológico, o estudo das pessoas no seu habitat natural — normalmente a casa — e o aconselhamento das equipas de design industrial por parte de antropólogos ganhou mais importância. Principalmente porque diversos estudos mostraram que pelo menos 75% dos novos produtos falhavam pela inexistência de mercado. Tendo em conta que o fracasso de qualquer produto da indústria tecnológica implica custos elevados, as empresas encontraram a «tábua de salvação» nos antropólogos, procurando os seus conselhos durante as fases iniciais de desenvolvimento de um novo produto.
Antropologia versus Marketing

Pode até parecer mais do domínio do departamento de marketing, mas existem diferenças significativas entre as duas áreas. O Marketing consiste em encontrar um grupo-alvo para um determinado produto ou serviço e vendê-lo, enquanto a Antropologia descobre como o produto vai ser utilizado, se é que alguma vez isso vai acontecer. Aqui, os questionários e grupos de foco, tão utilizados pelos marketeers, são colocados de parte, em benefício do estudo do comportamento.Analisando o modo como as pessoas vivem e como os produtos se adaptam a esses estilos de vida, os antropólogos afirmam conseguir obter mais informações que aquelas que os marketeers recolhem nos questionários que fazem aos consumidores. Isto porque muitas vezes os inquéritos reflectem aquilo que os consumidores acreditam ser a melhor resposta a dar, e não aquilo que realmente pensam.Squires argumenta que a função do antropólogo dentro de uma organização é a de advogado do consumidor: «É melhor ajudar a encontrar produtos que as pessoas realmente precisem que convencê-las a adquirirem coisas de que não precisam ou que não querem», justifica a antropóloga industrial.
Empresas seguidoras

Se lhe dissessem que o bem sucedido modelo «PT Cruiser», da DaimerChrysler, tem a mão de um antropólogo acreditava? Por mais estranho que pareça, é mesmo verdade. Também a antropóloga Susan Squires necessitou de aconselhar um engenheiro a não criar uma máquina de lavar que «falava» com a máquina de secar simplesmente porque era possível fazê-lo. Um outro antropólogo conseguiu evitar que um engenheiro da Motorola produzisse uma televisão que podia ser aplicada num cinto. Talvez fosse uma ideia interessante e inédita, mas nunca aquilo de que o mundo estava à espera, ou precisava.
A equipe da consultora de tecnologia Sapient conta com 70 antropólogos industriais, cuja função consiste no aconselhamento sobre a forma de criação de produtos de fácil utilização. E não há despedimentos que os aflijam.
No Grupo de Pesquisa de Práticas e Pessoas da Intel, a Antropologia Industrial também não foi deixada ao acaso. Genevieve Bell é responsável por investigar a forma como as famílias de diferentes países se sociabilizam e de que modo a tecnologia está presente nas suas vidas. Após longas horas de trabalho de campo, Bell chegou à conclusão de que a família europeia passa grande parte do seu tempo na cozinha, pelo que os computadores teriam de ser suficientemente pequenos para se adequarem a esse espaço. Pelo contrário, na China, as cozinhas são muito pequenas e as pessoas não permanecem muito tempo nesse espaço, o que, segundo Bell, «deita por terra a ideia de um produto para todo o mundo».
Comum a todas estas empresas está a crença de que as ferramentas da pesquisa etnográfica — como a observação minuciosa, a entrevista subtil e a documentação sistemática — permitem responder a diversas questões sobre as organizações e os mercados que as ferramentas tradicionais não conseguem.
A ética antropológica

Este apetite voraz das organizações pelos antropólogos industriais tem originado algum desconforto no mundo académico tradicional. Marietta Baba, presidente do Departamento de Antropologia da Wayne State University, em Detroit, não esconde o seu receio face à possibilidade de as empresas violarem o Código Deontológico dos Antropólogos, que determina que os profissionais não podem utilizar os seus conhecimentos na promoção de produtos ou serviços que posteriormente se revelem prejudiciais ou desnecessários. Porém, os colégios e universidades procuram cada vez mais professores com experiência no mundo dos negócios para ensinar aqueles que são chamados de «antropólogos praticantes». Destronando, ou não, os marketeers, a Antropologia Industrial é, sem dúvida, um trunfo para o sucesso de uma empresa.
http://www.centroatl.pt/edigest/edicoes2001/ed_jun/ed80linha-da-frente-mrkt.html

domingo, março 13, 2005

Insônia Schopenhauer


esqueça...

Se quereis a certeza das diferenças entre o prazer e a dor, comparem a impressão do animal que devora outro, com a impressão do devorado. (SCHOPENHAUER)

A VIDA É DÔR
Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor.
Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre.
A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos.
A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da prêsa.
A vida é uma história da dôr, que se resume assim: sem motivo queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça.

empírico imediato

sexta-feira, março 11, 2005

Comunismo, Smurfs, KKK e afins


Ernesto Bebê Smurf?

Acredito que esta realmente é a maior análise que já li na internet. O "empírico imediato" é pouco perto da bestialidade desta matéria. Como nas Ciências Sociais o mercado do exótico é um ingrediente muito presente e estimulante, não vi barreiras para adiciona-lo para instigar a reflexão científica e para descobrirmos a essência disso tudo.
O meu discurso está impregnado de elementos Ariovaldianos. Tenho que ser assim, se não o André me chama de liberal e não me aceita mais como amigo. Espero que gostem...


Muito se especula a respeito do caráter comunista da Vila dos Smurfs. Afinal de contas, a história em quadrinhos criada pelo belga Pierre Culliford (também conhecido como Peyo), na década de 50, foi publicada pela primeira vez no auge da Guerra Fria. Os estúdios Hanna Barbera transformaram-na em desenho animado somente no início dos anos 80, quando a decadência do regime soviético ainda não era iminente. Desde então, argumentos tentando comprovar o caráter marxista da obra não faltaram.
O que se disseminou entre as gerações que conheceram os pequeninos personagens azuis é que o desenho, mais do que a história em quadrinhos, é em si mesmo uma propaganda do comunismo. Nem Nadia Comaneci, a ginasta romena nota dez nas Olimpíadas de Montreal em 1976 foi tão bem sucedida na propaganda do regime comunista. Aposto que, se Lênin tivesse imaginado o poder de propaganda desses personagens, teria incluído mais um "S" na sigla da União Soviética: URSSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas dos Smurfs! Ironias à parte, o fato é que existem muitos estudos sérios que tratam do assunto e seus argumentos têm se mostrado extremamente pertinentes. De acordo com a teoria do "comunismo azul" reinante na Vila, o Gargamel seria uma alegoria aos Estados Unidos. Isso porque o vilão ganancioso deseja o tempo todo transformar os Smurfs em ouro, numa clara alusão à coisificação das pessoas, inerente ao capitalismo.
Além disso, há inúmeras outras coincidências com o discurso comunista. O Papai Smurf, por exemplo, seria uma alusão a Karl Marx, já que é admirado pelos demais Smurfs por sua idade e sabedoria. A tese baseia-se nas "semelhanças físicas" entre os dois, evidenciada pelo uso do vermelho e a farta barba branca do Papai Smurf (não que um velhinho de barba branca e roupa vermelha também não pudesse ser o Papai Noel). A tese vai mais longe. De acordo com ela, o Smurf Gênio poderia muito bem ser o Trotsky, já que sua sabedoria se assemelha à de Papai Smurf e, freqüentemente, ele é ridicularizado e ejetado da Vila. Vale lembrar que Trotsky foi banido da União Soviética em 1929... Mais uma coincidência relevante: todos os Smurfs são iguais, a despeito da atividade que desempenham ou de suas habilidades intelectuais. Ainda, não há propriedade privada na Vila dos Smurfs: a terra e os instrumentos são de todos. Entretanto, o fator que mais fortalece a tese de que os Smurfs são uma propaganda do regime comunista é que, de fato, não há igrejas na Vila. Não há, por exemplo, um Padre Smurf. Assim como os marxistas, os Smurfs são ateus: acreditam, apenas, na força da natureza.
A comparação com o comunismo não acaba por ai. Há quem delire, quer dizer, afirme que o Bebê Smurf representa ninguém menos que Che Guevara. Isso porque ele teria sido fruto de um "deslize" do Papai Smurf com a Smurfette (para quem não sabe, ela foi criada pelo Gargamel para seduzir os Smurfs, mas acabou "passando para o outro lado da Força" graças ao Papai Smurf), ou seja, resultado da união entre o socialismo e o capitalismo. Acredito que, se levássemos para esse lado e, claro, tomássemos algumas doses cavalares de LSD, poderíamos dar outros vários exemplos resultantes do hibridismo entre socialismo e o capitalismo que não o Che Guevara. Pode-se comparar essa união à China ou, para os que preferem os exemplos ocidentais, o welfare state europeu. Eu, pessoalmente, iria mais longe e diria que o resultado do casamento socialismo x capitalismo é a terceira via adotada no Reino Unido. Cruzes! Fosse o Bebê Smurf orelhudo, ele seria o Tony Blair! Há pessoas que levam essa "semelhança" tão a sério que chegam a afirmar que o desenho é uma criação do governo soviético, na intenção de infiltrar seus ideais no seio da sociedade americana antes de invadir os EUA. Dão graças a Deus, inclusive, pela criação dos Comandos em Ação...
Entretanto, tem pipocado na Internet uma outra visão da propaganda na qual estaria imersa a Vila dos Smurfs, creditada à estudante Lisa Chwastiak. Segundo sua teoria, os Smurfs seriam, antes, supremacistas brancos, e não comunistas. Para ela, Peyo, falecido em 1992 aos 64 anos, era um nazista. Inclusive, ele seria afiliado à Ku Klux Klan (KKK), organização racista norte-americana.
Seu argumento também parte de princípios e argumentações relevantes. Em primeiro lugar, Lisa não acredita ser mera coincidência o vilão se chamar Gargamel: além de nome e características físicas judaicas (cabelo escuro, pele clara e nariz proeminente), o vilão ainda carrega todo o estigma de preconceitos contra judeus que permeou, principalmente, a Alemanha de Hitler: um indivíduo mesquinho, sujo, que morava numa casa velha e se vestia de preto.
Além do mais, Lisa não despreza a semelhança entre o Papai Smurf e o Grande Dragão, forma pela qual os líderes da KKK são conhecidos: ambos usam um chapéu pontiagudo vermelho e seus seguidores usam chapéus pontiagudos brancos. Ainda, a estudante afirma que existem inúmeros episódios em que os pequeninos seres azuis dançam em torno de fogueiras, a exemplo dos membros da Klan.
Para finalizar, Lisa afirma que, entre os Smurfs, por "coincidência", a única mulher possui, justamente, um arquétipo ariano, evidenciado por seu longo cabelo dourado. É exatamente o ideal de beleza idolatrado por Adolf Hitler para sua sociedade germânica. Além disso, como forma de demonstrar a arraigada crença na supremacia branca trazida à tona pelo desenho, os episódios em que os Smurfs são malvados são justamente aqueles em que eles deixam de ser azuis para se tornarem negros. (tirado da Revista de Cultura Pop)

terça-feira, março 08, 2005

A eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara dos Deputados e a exposição das dificuldades de mudança política no Brasil


Severino Cavalcanti

A professora de sociologia da UEL, Maria José, publicou um artigo muito interessante sobre a atual conjuntura política brasileira. Deixo um breve pedaço que tirei do Espaço Acadêmico www.espacoacademico.com.br . A íntegra deste artigo está em: http://www.espacoacademico.com.br/046/46crezende.htm

A eleição de Severino Cavalcanti com 300 votos, dos quais uma parte vem justamente de deputados acomodados postiçamente a partidos (como o PMDB) que dão sustentação ao governo, trouxe à tona perdas irrecuperáveis para a sociedade brasileira, já que o que há de mais atrasado, mais retrógrado no campo político, foi o vencedor. Não se deve esquecer que o presidente da Câmara recém-eleito, além de um passado de apoio à ditadura militar é hoje um defensor de formas de trabalho desobrigadas de qualquer respeito às leis trabalhistas. Defendendo os produtores das acusações de manterem trabalhadores sob regime de trabalho escravo, ele afirmou em discurso na Câmara, em março de 2004, o seguinte: “Milhares de bóias-frias são deslocados para as fazendas conforme o trabalho que surge. Fica difícil para o produtor (...) registrar esse trabalhador pelo espaço de um ou dois dias, ou curtos períodos de tempo. (...) É preciso desconhecer a realidade das condições e dos costumes regionais para exigir de um produtor ou de um fazendeiro, nas matas da Amazônia ou no sertão nordestino, privadas no meio do mato, chuveiros ou água tratada (...), alojamentos com camas e colchões para trabalhadores que mesmo em suas casas, habitualmente dormem em redes” (CAVALCANTI, 2005c, p. 6). Com um posicionamento dessa natureza não é difícil imaginar quais foram os deputados que o enxergaram como um representante de seus interesses. Revela-se, assim, que os inúmeros deputados que servem como massa de manobra até mesmo para os governantes se viabilizarem no poder, acabaram por se revelar, num episódio como esse, o quanto mantêm intactas as suas convicções essencialmente voltadas para a manutenção do status quo e, portanto, do que há de mais grave nesse país: a exclusão social e política.

A fábula do tucano e do sapo barbudo


Sapo barbudo e o príncipe

Texto publicado em 1 de março de 2005 na coluna semanal escrita por Arnaldo Jabor no jornal O Globo.

Por que me odeias, ó, sapo barbudo? — perguntou o tucano. — Achas que eu sujo a água que bebes no rio do Poder? Talvez porque, enquanto tu trabalhas como formiga no governo, eu canto e danço como cigarra na oposição? Por que me odeias, sapo barbudo?
O sapo barbudo respondeu:
— Eu é que pergunto por que você me despreza, do alto de seus galhos, com seu bico de doutor nefelibata? Só porque eu vim da caatinga, porque não pude estudar e vendi picolé no cais do porto?
O tucano replicou:
— Não, caro sapo, eu não te desprezo, eu até te invejava quando surgistes, um súbito símbolo irrompendo no mundo universitário. A tua figura de jovem sindicalista com a barba negra, teus gestos épicos diante da massa de metalúrgicos nas greves me deram muita inveja. Nós da USP nunca tínhamos visto um operário real. Conhecíamos alguns encanadores, faxineiros de nossas casas, entregadores de pizzas, mas tu surgistes como uma estátua leninista, e viestes preencher os sonhos infantis de intelectuais paulistas. Nós, trêmulos professores, te amamos como uma alegoria viva, foice e martelo na mão com o dedo decepado, pois tua eras a primeira novidade da esquerda pós-64. Tu fostes o primeiro operário do Brasil. Algumas professoras nos desprezaram na gincana sexual da USP e foram “dar” para ti, esperando um elixir ideológico que as vivificasse...
Esse diálogo do sapo com o tucano, na beira do rio, era ouvido por toda a “baixa bicharada” da floresta: toupeiras, cachorros do mato, ratões de campos, cobras criadas, aranhas fisiológicas, baratas leprosas, botos tucuxis, vermes evangélicos, todos os bichos atrasados do mato seguiam a conversa dos dois. Havia entre eles uma animação nunca vista nos últimos anos, entre brejos e tocos queimados por grileiros.
Eles vão brigar de vez! Está chegando nossa hora! — grunhiu uma toupeira para uma barata leprosa.
— Estamos diante de um alvorecer! — concluiu um rato de campos.
O sapo barbudo insistiu:
— Não; você me despreza, sim...
— Não! — redarguiu o outro. — Nós tucanos até criamos um partido por tua inspiração. Vimos que tu tinhas dado um “corte epistemológico” na política do país, que deveria ser negocial e prática, sem bandeiras utópicas. Aprendemos com tua ignorância sábia e fundamos o tucanário do PSDB. Infelizmente, surgiram os urubus leninistas, nostálgicos de revolução...
Um murmúrio percorreu a “baixa-bicharada” que ouvia em suspense:
— Isso! Benditos sejam nossos aliados, os marxo-urubus , que transformam toda carne nova em carniça, que apodrecem as inteligências progressistas! — ganiu um cachorro do mato.
— Essas toupeiras de esquerda — inflamou-se o tucano — foram transformando tua sabedoria instintiva em babaquices ideológicas, tu virastes aos poucos o líder das mulas da revolução imaginária, e tua toca abrigou todos os asnos da utopia. Nos últimos 20 anos, tu fostes o símbolo de um futuro impossível. Mas, com na floresta do Brasil tudo acontece por acaso, um bichinho estranho mudou nosso destino, sapo amigo, quando o Tancredo, a sutil raposa mineira, foi eleita nas “indiretas”, depois dos anos-gorilas. Um microbinho enfiou-se em sua barriga e matou-o na hora da posse. Quem o substituiu foi outra raposa, nordestina, bigoduda, que levou o país até 80 por cento de inflação ao mês... lembras-te? Depois dele, veio um lobo com pele de cordeiro, ou melhor, um abutre com cara de águia cercado de carcarás e calangos da caatinga, que fez tanta maracutaia que acabou expulso. Em seu lugar, entrou um jeca-tatu que teve, por acaso, o mérito de me lançar para presidir a zorra da floresta — enfunou-se o tucanão.
— E você me derrotou, eu que queria reinar há duas décadas...
— Sim, venci; mas esperava ter o teu apoio, sapinho, pois éramos parecidos, sabíamos que nossa dupla podia ser um sucesso. Mas teus urubus leninistas me massacraram por oito anos, se aliando até com os vermes mais sujos para me infernizar...
— É que “sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, senhor tucano. E meu conselheiro, o urubu-rei Dirceu, mandou eu te atacar...
— E agora... estás pagando caro, amigo sapo; castigo anda a cavalo... Eu sempre te admirei pela tua inteligência prática, mas agora tu estás me xingando em público, me culpando por um passado que conheces, dando ouvido a antas rancorosas. Tu preferes te aliar com a pior das lacraias que a mim. Queres que eu morra com a boca cheia de formigas, esquecendo, ingrato, do tempo em que distribuíamos panfletos na porta da Volks... Devíamos ser irmãos.
O sapo sufocou um soluço emocionado.
— Tem razão; vamos nos unir então, companheiro tucano, seremos invencíveis!
Houve um frêmito de pavor na “baixa bicharada” suja. Gemiam: “se eles se unirem estamos campados!” — disse um ratão de Belém. Alguns bicharocos começaram a rezar.
— Vamos à luta, irmão sapo! Nós dois somos uma exceção nessa floresta suja. Unidos, consertaremos essa bosta. Não precisaríamos nos aliar com essa minhocas e baratas descascadas, chefiadas por esse bicho-severino, bicho feio, que já tomou a Câmara. Unidos venceremos!!!
Neste momento, uma hiena salvou tudo. Começou a gargalhar, uivando de ironia, interrompendo o interlúdio afetivo que despontava. O tucano deixou cair a bicanca tristemente e soluçou:
— Infelizmente, ambos queremos ser “hegemônicos”, companheiro sapo...
— Queremos ser... o quê?
— Ahh... ahh... nós dois queremos mandar sozinhos. Mas os terroristas do Hamas do PT não vão permitir nossa união...
(Ao longe, uns poucos veados românticos começaram a chorar...)
— Nosso reinado será breve, sapinho... As lacraias já estão tomando o poder...
— Que sempre foi nosso! — berrou um macaco-prego em coro com porcos, javalis, aranhas e piranhas. E o tropel da bicharada suja, com urros, zurros, ganidos, vagidos, arrotos, ronqueiras, “coaxos”, encheu os céus do país.
E, aí, o tucano voou e o sapo ficou “cururu”, na beira do rio. E a arraia miúda, a escória da floresta, invadiu para sempre o “pudê”.

Moral: Em terra de lacraia, tucano não “avoa” e sapo morre afogado.

sábado, março 05, 2005

Fórmulas milagrosas

por Dráuzio Varella

Adquira o corpo que pediu a Deus sem nenhum esforço: apenas duas cápsulas por dia! Popularíssimas no Brasil -terceiro consumidor no ranking mundial-, as fórmulas magistrais para emagrecimento atendem a esse apelo mágico.
O que são essas fórmulas, prescritas por médicos com diploma na parede, para serem aviadas em farmácias de manipulação legalmente autorizadas a fazê-lo, mas também vendidas na clandestinidade e até pela internet?
Fórmulas para emagrecer constituem exemplos didáticos de polifarmácia. A fórmula típica contém de cinco a 15 componentes: uma substância "tipo-anfetamina" (fenproporex e dietilpropiona são as mais empregadas), tranqüilizantes benzodiazepínicos (geralmente diazepan ou clordiazepóxido), agentes tireoidianos (triiodotironina, tetraiodotironina, triac, triatec), diuréticos (furosemida, hidroclortiazida etc.), agentes gastrointestinais (cimetidina, fenolftaleína, dimeticona etc.), uma variedade de produtos vegetais (cáscara sagrada, cavalinha, Fucus vesiculosus e outros representantes da exuberante biodiversidade brasileira), antidepressivos como a fluoxetina e a sertralina, vitaminas, cloreto de potássio, propanolol e o que mais a imaginação for capaz de criar.
Se a boa prática médica recomenda cautela ao associar duas drogas, pela dificuldade em prever interações medicamentosas, como justificar essas prescrições mirabolantes?
Elas se baseiam numa lógica que os estudantes de medicina jocosamente apelidaram de "princípio da cascata", segundo o qual sempre há de existir um remédio para combater os males provocados por outro.
Drogas do "tipo-anfetamina" como o fenproporex e a dietilpropiona agem no sistema nervoso central provocando diminuição do apetite. Mas, ao lado do efeito anorexígeno, provocam agitação psicomotora, insônia, irritação, nervosismo, ansiedade, tremores, excitação, boca seca, gosto metálico, náuseas, alterações do hábito intestinal. Para combatê-los, a fórmula contém os tranqüilizantes diazepínicos, laxantes, antidepressivos, antiácidos etc.
Outra peculiaridade dessas prescrições é a generosidade com que são incluídos hormônios tireoidianos sem qualquer indicação clínica ou laboratorial, só sob o pretexto ridículo de fazer trabalhar "tireóides preguiçosas". Doses maciças desses hormônios, como as utilizadas em tais ocasiões, conduzem ao hipertireoidismo, doença em que alguns dos sintomas se somam e se confundem com os efeitos indesejáveis dos anorexígenos (agitação, irritabilidade, tremores, taquicardia, alterações intestinais), além de causar perda de massa muscular, osteoporose e queda de cabelo, entre outros inconvenientes.O trágico é que os incautos compradores dessas cápsulas pela internet ou diretamente dos traficantes não têm a menor idéia das drogas nelas contidas: não existe prescrição nem bula, e os rótulos trazem nomes fantasiosos como Emagrecedor Número 2 ou Emagrecedor Natural.
Nem por isso os clientes que recebem prescrições das mãos dos médicos ficam em situação mais confortável. Estudo conduzido pela doutora Solange Nappo e por colaboradores da USP mostrou que, em 107 consultas com prescrição de fórmulas, apenas um médico falou da existência de efeitos colaterais, somente cinco advertiram para não aumentar as doses prescritas, e sete, para evitar gravidez. Nenhum deles sequer mencionou que anfetaminas e barbitúricos causam dependência química.Já em 1983 um boletim da Organização Mundial da Saúde advertia: "A indução de dependência por barbitúricos está claramente demonstrada (...) Essas drogas devem ser reservadas para pacientes que sofrem de ansiedade clínica bem definida". Bastam três meses de uso (às vezes, menos) para que sejam criadas dependência química e síndrome de abstinência à retirada abrupta.
Em relação às drogas do "tipo-anfetamina", a dependência leva à tolerância e, conseqüentemente, ao aumento de doses por conta própria. Aí reside o perigo maior: ao dobrar ou triplicar o número de cápsulas diárias, o usuário duplicará ou triplicará as doses de hormônio tireoidiano, diurético, benzodiazepínico, antidepressivo, laxante e o diabo que houver, correndo o risco de perder a vida.
Por essa razão, a Anvisa proibiu a prescrição de anorexígenos como parte de formulações magistrais. Mas o que fazem aqueles interessados em burlar a lei? Prescrevem o anorexígeno separadamente e todos os demais componentes numa mesma fórmula; depois, mandam tomar uma cápsula de cada um, duas vezes ao dia.
O que faz a fama de determinada fórmula é o fato de os incautos suporem que a composição foi criteriosamente dosada para seus casos e de conhecerem alguém que perdeu peso ao tomá-la. De fato, há pessoas que emagrecem até dez quilos no primeiro mês de tratamento, mas, daí em diante, a perda fica progressivamente lenta, até que o ponteiro da balança pára de se mover e retoma a caminhada inexorável para o alto.
Com a auto-estima rebaixada e achacados por uma constelação de efeitos colaterais, os usuários, então, interrompem o tratamento e entram em crise de abstinência pela falta da anfetamina e do benzodiazepínico: sonolência, apatia, fraqueza, depressão, falta de memória, ideação suicida. A esses sintomas acrescentam-se os do hipotireoidismo, porque a tireóide previamente bombardeada pelas doses excessivas de hormônio declara greve por tempo indeterminado.
Derrotados em seu propósito de perder peso, os ex-usuários recuperarão num instante os quilos perdidos e ganharão outros mais até ouvirem falar na próxima fórmula milagrosa.

Um claro exemplo deste texto de Dráuzio é o filme Réquiem para um sonho. Se você ainda não viu esse clássico não perca mais tempo. É um filme belíssimo e muito bem dirigido por Darren Aronofsky, e também conta com elenco excelente.
Sara Goldfarb, senhora idosa, tem um filho viciado, Harry. O filho vive roubando a TV da mãe para comprar drogas. Sara, pacientemente, sempre pega a TV de volta, já que não vive sem seu programa predileto, um show de auditório que a faz ficar quase hipnotizada. Num dia de verão, ela recebe por carta um formulário para aparecer no programa. Quase flutuando de tanta emoção, Sara deseja muito poder emagrecer para caber num velho vestido vermelho seu, antigo. Depois de tentar uma dieta, ela resolve começar a tomar pílulas para emagrecimento. E por ai vai... não vou contar mais nada do filme.
Ellen Burstyn, que faz Sara Golgfarb, foi indicada ao Oscar. E pra quem não acredita que o Oscar muitas vezes nada é do que uma grande tapeação, Ellen Burstyn perdeu o Oscar que era seu para uma tal de Julia Roberts. Sara Goldfarb é a interpretação de uma vida. É a alma que todo mundo da platéia deseja salvar, mas infelizmente não pode. Nunca na minha vida eu me senti tão impotente. Poucas vezes a degradação humana me chocou tanto.

"Eu percebo, sem nenhum terror, a desunião das moléculas de minha existência" (Marquês de Sade)

quarta-feira, março 02, 2005

Levi-Strauss destaca importância do período em que viveu no Brasil

tirado do Le Monde
"O Brasil representa a experiência mais importante da minha vida", afirmou o etnólogo Claude Levi-Strauss, um dos mais importantes intelectuais franceses do século XX, às vésperas do início do Ano do Brasil na França. Em entrevista ao jornal "Le Monde", o autor de "Tristes Trópicos" (1955) assinala que sente "uma dívida muito profunda" com o Brasil, aonde chegou em 1935, aos 27 anos, para ensinar sociologia em São Paulo, e estudou as sociedades primitivas amazônicas, como os índios Bororos, Caduveos ou Nambikwaras.
Essa experiência, de quatro anos, serviria de base à construção teórica da antropologia estrutural de Levi-Strauss, que aos 96 anos decidiu romper seu silêncio midiático por causa do Ano do Brasil na França, que começará em março. "O Brasil representa a experiência mais importante da minha vida, que teve um papel determinante na minha carreira", explica o etnólogo, que após ir embora em 1939 só voltou uma vez, em 1985, para acompanhar o então presidente da França, François Mitterrand, na sua visita de Estado de cinco dias.
"Embora muito curta, essa estadia produziu em mim uma verdadeira revolução mental: o Brasil tinha se transformado em outro país", assinala Levi-Strauss, que evoca "a civilização em escala mundial". A cidade de São Paulo tinha passado de um milhão de habitantes para mais de 10 milhões, onde tinham desaparecido os rastros da época colonial, uma cidade "rodeada de quilômetros de torres", lembra. Levi-Strauss acrescenta que já nos anos 30 do século passado podia se observar no Brasil o fenômeno da formação acelerada das cidades.
Depois de observar que o vínculo entre o homem e a natureza "talvez tenha se rompido", assinala que "se pode entender que o Brasil, que se desenvolveu de forma tão considerável, tenha para a natureza a mesma política que a Europa na Idade Média, ou seja, destruí-la para instalar uma agricultura".
Em 1985, só pôde sobrevoar o território amazônico dos índios Bororos: "pudemos ver algumas aldeias com sua estrutura circular ainda, mas dotadas de pistas de aterrissagem". O antropólogo denuncia que os povos indígenas da Amazônia foram "mais ou menos exterminados", ao afirmar que só sobrevive "entre 5 e 10% da população original", mas destaca que alcançaram contato uns com os outros e "sabem agora o que ignoraram durante muito tempo: já não estão sozinhos no Universo".
Portanto, comenta, a etnologia "nunca mais será" a mesma que praticou, e "agora estamos em um regime de ´compenetração mútua´. Vamos para uma civilização em nível mundial" onde "provavelmente" aparecerão diferenças, mas não da mesma natureza, "serão internas, e já não externas". Perguntado sobre o futuro, Levi-Strauss responde que "estamos em um mundo ao qual já não pertenço". "O que eu conhecia e amava tinha 1,5 bilhão de habitantes. O mundo atual tem 6 bilhões. Já não é o meu. E o de amanhã, povoado de 9 bilhões de homens e mulheres (...) me impede de fazer qualquer prognóstico", conclui o intelectual francês.

Secretário do Audiovisual acusa Rede Globo por atraso na Ancinav

Depois de mais de um mês de silêncio, a discussão sobre a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual) foi reacesa na noite de anteontem. Segundo o secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, a agência deve começar a exercer suas novas funções -agora apenas fomentar e fiscalizar a produção audiovisual do Brasil- até o fim do ano. Enquanto o projeto da agência passa por adaptações, o marco regulatório (lei geral) da agência, segundo Senna, também está sendo trabalhado.
"A decisão do presidente Lula é que as duas coisas sejam feitas ao mesmo tempo, e não uma depois da outra. A lei está sendo trabalhada agora para que seja apresentada ao crivo da opinião pública", explicou o secretário durante debate com o cineasta Toni Venturi e o pesquisador do Centro Cultural Banco do Brasil André Gatti. O evento integra a Bienal da UNE (União Nacional dos Estudantes), que termina hoje, no Pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera, em São Paulo.
Senna responsabilizou a Rede Globo pelo atraso em torno da criação da Ancinav. "A Globo tentou, através de acusações incríveis, dizer que a Ancinav era uma ameaça para o futuro da liberdade de expressão. Na verdade, era para que se evitasse a discussão, para demonizar a agência. "Isso aqui é ditatorial, então é melhor nem discutir." Foi uma coisa falaciosa que atrapalhou bastante essa polêmica [o projeto]."
O secretário disse que a TV não aceita a regulação do setor ao qual pertence, mas que insiste pela regulação de empresas telefônicas. "O que ela [a Globo] disse foi "vamos botar isso [a regulação] mais para frente, porque nós temos que nos adequar aos novos tempos". Ou seja, a Globo quer, antes da regulação, que ela seja também uma tele ou que se associe a uma tele." Senna afirmou que a Globo teme que empresas de telecomunicações passem a atuar na criação de conteúdos.Em nota à Folha, o diretor da Central Globo de Comunicação, Luis Erlanger, afirmou: "Assim como muitos outros setores relevantes, a TV Globo vem defendendo publicamente um debate pela preservação da cultura brasileira, uma questão absolutamente estratégica para o país. Mas a decisão de buscar um caminho mais democrático neste processo coube exclusivamente à decisão pessoal do presidente da República". (tirado da Ilustrada)