quarta-feira, março 30, 2005

Quem disse que iremos passar fome??


Antropologia para todos os bolsos

A Anthropos Consulting é a primeira empresa mundial de Antropologia Empresarial. Utiliza os métodos da antropologia para estudar e propor soluções criativas e adequadas à realidade cultural e social das empresas e organizações visando o seu completo desenvolvimento e obtenção de resultados voltados para o mercado em que atuam.
Entre seus clientes principais encontram-se com serviços prestados, desde 1984, mais de 600 das maiores empresas brasileiras e internacionais como:
AmBev (Brahma/ Skol/ Antartica), Souza Cruz, IBM, Grupo Verdi, General Motors, Mercedes-Benz, International Paper (Champion, Papel e Celulose), Grupo Brasmotor (Embraco, Brastemp/ Consul), Banco Itaú, Citibank, Unibanco, BankBoston, Electrolux, NUTRON e outras empresas e organizações nacionais e multinacionais.
http://www.anthropos.com.br/conteudo.php?id=99&cat=5 ==> conheça o professor Marins

terça-feira, março 29, 2005

ANTROPÓLOGOS AO PODER!!!!!

Essa é uma dica do Fernando para os antropólogos famintos pelo capital. A saída é essa...

Apesar de não ser novidade, a Antropologia Industrial assume cada vez mais um papel de destaque nas organizações. E ameaça destronar o todo-poderoso marketing.

Por muito estranho que pareça, as empresas recorrem cada vez mais aos antropólogos para identificarem não só as necessidades dos seus clientes como dos próprios funcionários. Porquê? Ninguém melhor que eles consegue estudar o comportamento humano. O que é certo é que, apesar de esquecidos durante muito tempo pelos seus parceiros académicos, os antropólogos industriais começam finalmente a ter aceitação no universo empresarial. E muitos nem precisam de terminar o curso para terem um lugar garantido numa empresa.

Como tudo começou

A Antropologia Industrial nasceu há 20 anos, quando as lendas da Antropologia Aplicada, Lucy Suchman e Julian Orr, se instalaram no Centro de Pesquisa da Xerox, em Palo Alto, para estudarem a forma como as pessoas interagiam com a tecnologia. Desde essa altura, antropólogos, psicólogos e outros cientistas sociais infiltra-ram-se nas empresas disfarçados de «etnógrafos» e «avaliadores».As empresas apostam cada vez mais na pesquisa do consumidor, avaliando os produtos tecnológicos antes do seu lançamento, e por isso a entrada de cientistas sociais nas empresas tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos. Pode até soar como um capricho da chamada «Nova Economia», mas o certo é que os serviços destes profissionais tornaram-se mais importantes que nunca na procura do conhecimento sobre os «apetites» e características dos consumidores. Com o boom tecnológico, o estudo das pessoas no seu habitat natural — normalmente a casa — e o aconselhamento das equipas de design industrial por parte de antropólogos ganhou mais importância. Principalmente porque diversos estudos mostraram que pelo menos 75% dos novos produtos falhavam pela inexistência de mercado. Tendo em conta que o fracasso de qualquer produto da indústria tecnológica implica custos elevados, as empresas encontraram a «tábua de salvação» nos antropólogos, procurando os seus conselhos durante as fases iniciais de desenvolvimento de um novo produto.
Antropologia versus Marketing

Pode até parecer mais do domínio do departamento de marketing, mas existem diferenças significativas entre as duas áreas. O Marketing consiste em encontrar um grupo-alvo para um determinado produto ou serviço e vendê-lo, enquanto a Antropologia descobre como o produto vai ser utilizado, se é que alguma vez isso vai acontecer. Aqui, os questionários e grupos de foco, tão utilizados pelos marketeers, são colocados de parte, em benefício do estudo do comportamento.Analisando o modo como as pessoas vivem e como os produtos se adaptam a esses estilos de vida, os antropólogos afirmam conseguir obter mais informações que aquelas que os marketeers recolhem nos questionários que fazem aos consumidores. Isto porque muitas vezes os inquéritos reflectem aquilo que os consumidores acreditam ser a melhor resposta a dar, e não aquilo que realmente pensam.Squires argumenta que a função do antropólogo dentro de uma organização é a de advogado do consumidor: «É melhor ajudar a encontrar produtos que as pessoas realmente precisem que convencê-las a adquirirem coisas de que não precisam ou que não querem», justifica a antropóloga industrial.
Empresas seguidoras

Se lhe dissessem que o bem sucedido modelo «PT Cruiser», da DaimerChrysler, tem a mão de um antropólogo acreditava? Por mais estranho que pareça, é mesmo verdade. Também a antropóloga Susan Squires necessitou de aconselhar um engenheiro a não criar uma máquina de lavar que «falava» com a máquina de secar simplesmente porque era possível fazê-lo. Um outro antropólogo conseguiu evitar que um engenheiro da Motorola produzisse uma televisão que podia ser aplicada num cinto. Talvez fosse uma ideia interessante e inédita, mas nunca aquilo de que o mundo estava à espera, ou precisava.
A equipe da consultora de tecnologia Sapient conta com 70 antropólogos industriais, cuja função consiste no aconselhamento sobre a forma de criação de produtos de fácil utilização. E não há despedimentos que os aflijam.
No Grupo de Pesquisa de Práticas e Pessoas da Intel, a Antropologia Industrial também não foi deixada ao acaso. Genevieve Bell é responsável por investigar a forma como as famílias de diferentes países se sociabilizam e de que modo a tecnologia está presente nas suas vidas. Após longas horas de trabalho de campo, Bell chegou à conclusão de que a família europeia passa grande parte do seu tempo na cozinha, pelo que os computadores teriam de ser suficientemente pequenos para se adequarem a esse espaço. Pelo contrário, na China, as cozinhas são muito pequenas e as pessoas não permanecem muito tempo nesse espaço, o que, segundo Bell, «deita por terra a ideia de um produto para todo o mundo».
Comum a todas estas empresas está a crença de que as ferramentas da pesquisa etnográfica — como a observação minuciosa, a entrevista subtil e a documentação sistemática — permitem responder a diversas questões sobre as organizações e os mercados que as ferramentas tradicionais não conseguem.
A ética antropológica

Este apetite voraz das organizações pelos antropólogos industriais tem originado algum desconforto no mundo académico tradicional. Marietta Baba, presidente do Departamento de Antropologia da Wayne State University, em Detroit, não esconde o seu receio face à possibilidade de as empresas violarem o Código Deontológico dos Antropólogos, que determina que os profissionais não podem utilizar os seus conhecimentos na promoção de produtos ou serviços que posteriormente se revelem prejudiciais ou desnecessários. Porém, os colégios e universidades procuram cada vez mais professores com experiência no mundo dos negócios para ensinar aqueles que são chamados de «antropólogos praticantes». Destronando, ou não, os marketeers, a Antropologia Industrial é, sem dúvida, um trunfo para o sucesso de uma empresa.
http://www.centroatl.pt/edigest/edicoes2001/ed_jun/ed80linha-da-frente-mrkt.html

domingo, março 13, 2005

Insônia Schopenhauer


esqueça...

Se quereis a certeza das diferenças entre o prazer e a dor, comparem a impressão do animal que devora outro, com a impressão do devorado. (SCHOPENHAUER)

A VIDA É DÔR
Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor.
Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre.
A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos.
A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da prêsa.
A vida é uma história da dôr, que se resume assim: sem motivo queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça.

empírico imediato

sexta-feira, março 11, 2005

Comunismo, Smurfs, KKK e afins


Ernesto Bebê Smurf?

Acredito que esta realmente é a maior análise que já li na internet. O "empírico imediato" é pouco perto da bestialidade desta matéria. Como nas Ciências Sociais o mercado do exótico é um ingrediente muito presente e estimulante, não vi barreiras para adiciona-lo para instigar a reflexão científica e para descobrirmos a essência disso tudo.
O meu discurso está impregnado de elementos Ariovaldianos. Tenho que ser assim, se não o André me chama de liberal e não me aceita mais como amigo. Espero que gostem...


Muito se especula a respeito do caráter comunista da Vila dos Smurfs. Afinal de contas, a história em quadrinhos criada pelo belga Pierre Culliford (também conhecido como Peyo), na década de 50, foi publicada pela primeira vez no auge da Guerra Fria. Os estúdios Hanna Barbera transformaram-na em desenho animado somente no início dos anos 80, quando a decadência do regime soviético ainda não era iminente. Desde então, argumentos tentando comprovar o caráter marxista da obra não faltaram.
O que se disseminou entre as gerações que conheceram os pequeninos personagens azuis é que o desenho, mais do que a história em quadrinhos, é em si mesmo uma propaganda do comunismo. Nem Nadia Comaneci, a ginasta romena nota dez nas Olimpíadas de Montreal em 1976 foi tão bem sucedida na propaganda do regime comunista. Aposto que, se Lênin tivesse imaginado o poder de propaganda desses personagens, teria incluído mais um "S" na sigla da União Soviética: URSSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas dos Smurfs! Ironias à parte, o fato é que existem muitos estudos sérios que tratam do assunto e seus argumentos têm se mostrado extremamente pertinentes. De acordo com a teoria do "comunismo azul" reinante na Vila, o Gargamel seria uma alegoria aos Estados Unidos. Isso porque o vilão ganancioso deseja o tempo todo transformar os Smurfs em ouro, numa clara alusão à coisificação das pessoas, inerente ao capitalismo.
Além disso, há inúmeras outras coincidências com o discurso comunista. O Papai Smurf, por exemplo, seria uma alusão a Karl Marx, já que é admirado pelos demais Smurfs por sua idade e sabedoria. A tese baseia-se nas "semelhanças físicas" entre os dois, evidenciada pelo uso do vermelho e a farta barba branca do Papai Smurf (não que um velhinho de barba branca e roupa vermelha também não pudesse ser o Papai Noel). A tese vai mais longe. De acordo com ela, o Smurf Gênio poderia muito bem ser o Trotsky, já que sua sabedoria se assemelha à de Papai Smurf e, freqüentemente, ele é ridicularizado e ejetado da Vila. Vale lembrar que Trotsky foi banido da União Soviética em 1929... Mais uma coincidência relevante: todos os Smurfs são iguais, a despeito da atividade que desempenham ou de suas habilidades intelectuais. Ainda, não há propriedade privada na Vila dos Smurfs: a terra e os instrumentos são de todos. Entretanto, o fator que mais fortalece a tese de que os Smurfs são uma propaganda do regime comunista é que, de fato, não há igrejas na Vila. Não há, por exemplo, um Padre Smurf. Assim como os marxistas, os Smurfs são ateus: acreditam, apenas, na força da natureza.
A comparação com o comunismo não acaba por ai. Há quem delire, quer dizer, afirme que o Bebê Smurf representa ninguém menos que Che Guevara. Isso porque ele teria sido fruto de um "deslize" do Papai Smurf com a Smurfette (para quem não sabe, ela foi criada pelo Gargamel para seduzir os Smurfs, mas acabou "passando para o outro lado da Força" graças ao Papai Smurf), ou seja, resultado da união entre o socialismo e o capitalismo. Acredito que, se levássemos para esse lado e, claro, tomássemos algumas doses cavalares de LSD, poderíamos dar outros vários exemplos resultantes do hibridismo entre socialismo e o capitalismo que não o Che Guevara. Pode-se comparar essa união à China ou, para os que preferem os exemplos ocidentais, o welfare state europeu. Eu, pessoalmente, iria mais longe e diria que o resultado do casamento socialismo x capitalismo é a terceira via adotada no Reino Unido. Cruzes! Fosse o Bebê Smurf orelhudo, ele seria o Tony Blair! Há pessoas que levam essa "semelhança" tão a sério que chegam a afirmar que o desenho é uma criação do governo soviético, na intenção de infiltrar seus ideais no seio da sociedade americana antes de invadir os EUA. Dão graças a Deus, inclusive, pela criação dos Comandos em Ação...
Entretanto, tem pipocado na Internet uma outra visão da propaganda na qual estaria imersa a Vila dos Smurfs, creditada à estudante Lisa Chwastiak. Segundo sua teoria, os Smurfs seriam, antes, supremacistas brancos, e não comunistas. Para ela, Peyo, falecido em 1992 aos 64 anos, era um nazista. Inclusive, ele seria afiliado à Ku Klux Klan (KKK), organização racista norte-americana.
Seu argumento também parte de princípios e argumentações relevantes. Em primeiro lugar, Lisa não acredita ser mera coincidência o vilão se chamar Gargamel: além de nome e características físicas judaicas (cabelo escuro, pele clara e nariz proeminente), o vilão ainda carrega todo o estigma de preconceitos contra judeus que permeou, principalmente, a Alemanha de Hitler: um indivíduo mesquinho, sujo, que morava numa casa velha e se vestia de preto.
Além do mais, Lisa não despreza a semelhança entre o Papai Smurf e o Grande Dragão, forma pela qual os líderes da KKK são conhecidos: ambos usam um chapéu pontiagudo vermelho e seus seguidores usam chapéus pontiagudos brancos. Ainda, a estudante afirma que existem inúmeros episódios em que os pequeninos seres azuis dançam em torno de fogueiras, a exemplo dos membros da Klan.
Para finalizar, Lisa afirma que, entre os Smurfs, por "coincidência", a única mulher possui, justamente, um arquétipo ariano, evidenciado por seu longo cabelo dourado. É exatamente o ideal de beleza idolatrado por Adolf Hitler para sua sociedade germânica. Além disso, como forma de demonstrar a arraigada crença na supremacia branca trazida à tona pelo desenho, os episódios em que os Smurfs são malvados são justamente aqueles em que eles deixam de ser azuis para se tornarem negros. (tirado da Revista de Cultura Pop)

terça-feira, março 08, 2005

A eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara dos Deputados e a exposição das dificuldades de mudança política no Brasil


Severino Cavalcanti

A professora de sociologia da UEL, Maria José, publicou um artigo muito interessante sobre a atual conjuntura política brasileira. Deixo um breve pedaço que tirei do Espaço Acadêmico www.espacoacademico.com.br . A íntegra deste artigo está em: http://www.espacoacademico.com.br/046/46crezende.htm

A eleição de Severino Cavalcanti com 300 votos, dos quais uma parte vem justamente de deputados acomodados postiçamente a partidos (como o PMDB) que dão sustentação ao governo, trouxe à tona perdas irrecuperáveis para a sociedade brasileira, já que o que há de mais atrasado, mais retrógrado no campo político, foi o vencedor. Não se deve esquecer que o presidente da Câmara recém-eleito, além de um passado de apoio à ditadura militar é hoje um defensor de formas de trabalho desobrigadas de qualquer respeito às leis trabalhistas. Defendendo os produtores das acusações de manterem trabalhadores sob regime de trabalho escravo, ele afirmou em discurso na Câmara, em março de 2004, o seguinte: “Milhares de bóias-frias são deslocados para as fazendas conforme o trabalho que surge. Fica difícil para o produtor (...) registrar esse trabalhador pelo espaço de um ou dois dias, ou curtos períodos de tempo. (...) É preciso desconhecer a realidade das condições e dos costumes regionais para exigir de um produtor ou de um fazendeiro, nas matas da Amazônia ou no sertão nordestino, privadas no meio do mato, chuveiros ou água tratada (...), alojamentos com camas e colchões para trabalhadores que mesmo em suas casas, habitualmente dormem em redes” (CAVALCANTI, 2005c, p. 6). Com um posicionamento dessa natureza não é difícil imaginar quais foram os deputados que o enxergaram como um representante de seus interesses. Revela-se, assim, que os inúmeros deputados que servem como massa de manobra até mesmo para os governantes se viabilizarem no poder, acabaram por se revelar, num episódio como esse, o quanto mantêm intactas as suas convicções essencialmente voltadas para a manutenção do status quo e, portanto, do que há de mais grave nesse país: a exclusão social e política.

A fábula do tucano e do sapo barbudo


Sapo barbudo e o príncipe

Texto publicado em 1 de março de 2005 na coluna semanal escrita por Arnaldo Jabor no jornal O Globo.

Por que me odeias, ó, sapo barbudo? — perguntou o tucano. — Achas que eu sujo a água que bebes no rio do Poder? Talvez porque, enquanto tu trabalhas como formiga no governo, eu canto e danço como cigarra na oposição? Por que me odeias, sapo barbudo?
O sapo barbudo respondeu:
— Eu é que pergunto por que você me despreza, do alto de seus galhos, com seu bico de doutor nefelibata? Só porque eu vim da caatinga, porque não pude estudar e vendi picolé no cais do porto?
O tucano replicou:
— Não, caro sapo, eu não te desprezo, eu até te invejava quando surgistes, um súbito símbolo irrompendo no mundo universitário. A tua figura de jovem sindicalista com a barba negra, teus gestos épicos diante da massa de metalúrgicos nas greves me deram muita inveja. Nós da USP nunca tínhamos visto um operário real. Conhecíamos alguns encanadores, faxineiros de nossas casas, entregadores de pizzas, mas tu surgistes como uma estátua leninista, e viestes preencher os sonhos infantis de intelectuais paulistas. Nós, trêmulos professores, te amamos como uma alegoria viva, foice e martelo na mão com o dedo decepado, pois tua eras a primeira novidade da esquerda pós-64. Tu fostes o primeiro operário do Brasil. Algumas professoras nos desprezaram na gincana sexual da USP e foram “dar” para ti, esperando um elixir ideológico que as vivificasse...
Esse diálogo do sapo com o tucano, na beira do rio, era ouvido por toda a “baixa bicharada” da floresta: toupeiras, cachorros do mato, ratões de campos, cobras criadas, aranhas fisiológicas, baratas leprosas, botos tucuxis, vermes evangélicos, todos os bichos atrasados do mato seguiam a conversa dos dois. Havia entre eles uma animação nunca vista nos últimos anos, entre brejos e tocos queimados por grileiros.
Eles vão brigar de vez! Está chegando nossa hora! — grunhiu uma toupeira para uma barata leprosa.
— Estamos diante de um alvorecer! — concluiu um rato de campos.
O sapo barbudo insistiu:
— Não; você me despreza, sim...
— Não! — redarguiu o outro. — Nós tucanos até criamos um partido por tua inspiração. Vimos que tu tinhas dado um “corte epistemológico” na política do país, que deveria ser negocial e prática, sem bandeiras utópicas. Aprendemos com tua ignorância sábia e fundamos o tucanário do PSDB. Infelizmente, surgiram os urubus leninistas, nostálgicos de revolução...
Um murmúrio percorreu a “baixa-bicharada” que ouvia em suspense:
— Isso! Benditos sejam nossos aliados, os marxo-urubus , que transformam toda carne nova em carniça, que apodrecem as inteligências progressistas! — ganiu um cachorro do mato.
— Essas toupeiras de esquerda — inflamou-se o tucano — foram transformando tua sabedoria instintiva em babaquices ideológicas, tu virastes aos poucos o líder das mulas da revolução imaginária, e tua toca abrigou todos os asnos da utopia. Nos últimos 20 anos, tu fostes o símbolo de um futuro impossível. Mas, com na floresta do Brasil tudo acontece por acaso, um bichinho estranho mudou nosso destino, sapo amigo, quando o Tancredo, a sutil raposa mineira, foi eleita nas “indiretas”, depois dos anos-gorilas. Um microbinho enfiou-se em sua barriga e matou-o na hora da posse. Quem o substituiu foi outra raposa, nordestina, bigoduda, que levou o país até 80 por cento de inflação ao mês... lembras-te? Depois dele, veio um lobo com pele de cordeiro, ou melhor, um abutre com cara de águia cercado de carcarás e calangos da caatinga, que fez tanta maracutaia que acabou expulso. Em seu lugar, entrou um jeca-tatu que teve, por acaso, o mérito de me lançar para presidir a zorra da floresta — enfunou-se o tucanão.
— E você me derrotou, eu que queria reinar há duas décadas...
— Sim, venci; mas esperava ter o teu apoio, sapinho, pois éramos parecidos, sabíamos que nossa dupla podia ser um sucesso. Mas teus urubus leninistas me massacraram por oito anos, se aliando até com os vermes mais sujos para me infernizar...
— É que “sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, senhor tucano. E meu conselheiro, o urubu-rei Dirceu, mandou eu te atacar...
— E agora... estás pagando caro, amigo sapo; castigo anda a cavalo... Eu sempre te admirei pela tua inteligência prática, mas agora tu estás me xingando em público, me culpando por um passado que conheces, dando ouvido a antas rancorosas. Tu preferes te aliar com a pior das lacraias que a mim. Queres que eu morra com a boca cheia de formigas, esquecendo, ingrato, do tempo em que distribuíamos panfletos na porta da Volks... Devíamos ser irmãos.
O sapo sufocou um soluço emocionado.
— Tem razão; vamos nos unir então, companheiro tucano, seremos invencíveis!
Houve um frêmito de pavor na “baixa bicharada” suja. Gemiam: “se eles se unirem estamos campados!” — disse um ratão de Belém. Alguns bicharocos começaram a rezar.
— Vamos à luta, irmão sapo! Nós dois somos uma exceção nessa floresta suja. Unidos, consertaremos essa bosta. Não precisaríamos nos aliar com essa minhocas e baratas descascadas, chefiadas por esse bicho-severino, bicho feio, que já tomou a Câmara. Unidos venceremos!!!
Neste momento, uma hiena salvou tudo. Começou a gargalhar, uivando de ironia, interrompendo o interlúdio afetivo que despontava. O tucano deixou cair a bicanca tristemente e soluçou:
— Infelizmente, ambos queremos ser “hegemônicos”, companheiro sapo...
— Queremos ser... o quê?
— Ahh... ahh... nós dois queremos mandar sozinhos. Mas os terroristas do Hamas do PT não vão permitir nossa união...
(Ao longe, uns poucos veados românticos começaram a chorar...)
— Nosso reinado será breve, sapinho... As lacraias já estão tomando o poder...
— Que sempre foi nosso! — berrou um macaco-prego em coro com porcos, javalis, aranhas e piranhas. E o tropel da bicharada suja, com urros, zurros, ganidos, vagidos, arrotos, ronqueiras, “coaxos”, encheu os céus do país.
E, aí, o tucano voou e o sapo ficou “cururu”, na beira do rio. E a arraia miúda, a escória da floresta, invadiu para sempre o “pudê”.

Moral: Em terra de lacraia, tucano não “avoa” e sapo morre afogado.

sábado, março 05, 2005

Fórmulas milagrosas

por Dráuzio Varella

Adquira o corpo que pediu a Deus sem nenhum esforço: apenas duas cápsulas por dia! Popularíssimas no Brasil -terceiro consumidor no ranking mundial-, as fórmulas magistrais para emagrecimento atendem a esse apelo mágico.
O que são essas fórmulas, prescritas por médicos com diploma na parede, para serem aviadas em farmácias de manipulação legalmente autorizadas a fazê-lo, mas também vendidas na clandestinidade e até pela internet?
Fórmulas para emagrecer constituem exemplos didáticos de polifarmácia. A fórmula típica contém de cinco a 15 componentes: uma substância "tipo-anfetamina" (fenproporex e dietilpropiona são as mais empregadas), tranqüilizantes benzodiazepínicos (geralmente diazepan ou clordiazepóxido), agentes tireoidianos (triiodotironina, tetraiodotironina, triac, triatec), diuréticos (furosemida, hidroclortiazida etc.), agentes gastrointestinais (cimetidina, fenolftaleína, dimeticona etc.), uma variedade de produtos vegetais (cáscara sagrada, cavalinha, Fucus vesiculosus e outros representantes da exuberante biodiversidade brasileira), antidepressivos como a fluoxetina e a sertralina, vitaminas, cloreto de potássio, propanolol e o que mais a imaginação for capaz de criar.
Se a boa prática médica recomenda cautela ao associar duas drogas, pela dificuldade em prever interações medicamentosas, como justificar essas prescrições mirabolantes?
Elas se baseiam numa lógica que os estudantes de medicina jocosamente apelidaram de "princípio da cascata", segundo o qual sempre há de existir um remédio para combater os males provocados por outro.
Drogas do "tipo-anfetamina" como o fenproporex e a dietilpropiona agem no sistema nervoso central provocando diminuição do apetite. Mas, ao lado do efeito anorexígeno, provocam agitação psicomotora, insônia, irritação, nervosismo, ansiedade, tremores, excitação, boca seca, gosto metálico, náuseas, alterações do hábito intestinal. Para combatê-los, a fórmula contém os tranqüilizantes diazepínicos, laxantes, antidepressivos, antiácidos etc.
Outra peculiaridade dessas prescrições é a generosidade com que são incluídos hormônios tireoidianos sem qualquer indicação clínica ou laboratorial, só sob o pretexto ridículo de fazer trabalhar "tireóides preguiçosas". Doses maciças desses hormônios, como as utilizadas em tais ocasiões, conduzem ao hipertireoidismo, doença em que alguns dos sintomas se somam e se confundem com os efeitos indesejáveis dos anorexígenos (agitação, irritabilidade, tremores, taquicardia, alterações intestinais), além de causar perda de massa muscular, osteoporose e queda de cabelo, entre outros inconvenientes.O trágico é que os incautos compradores dessas cápsulas pela internet ou diretamente dos traficantes não têm a menor idéia das drogas nelas contidas: não existe prescrição nem bula, e os rótulos trazem nomes fantasiosos como Emagrecedor Número 2 ou Emagrecedor Natural.
Nem por isso os clientes que recebem prescrições das mãos dos médicos ficam em situação mais confortável. Estudo conduzido pela doutora Solange Nappo e por colaboradores da USP mostrou que, em 107 consultas com prescrição de fórmulas, apenas um médico falou da existência de efeitos colaterais, somente cinco advertiram para não aumentar as doses prescritas, e sete, para evitar gravidez. Nenhum deles sequer mencionou que anfetaminas e barbitúricos causam dependência química.Já em 1983 um boletim da Organização Mundial da Saúde advertia: "A indução de dependência por barbitúricos está claramente demonstrada (...) Essas drogas devem ser reservadas para pacientes que sofrem de ansiedade clínica bem definida". Bastam três meses de uso (às vezes, menos) para que sejam criadas dependência química e síndrome de abstinência à retirada abrupta.
Em relação às drogas do "tipo-anfetamina", a dependência leva à tolerância e, conseqüentemente, ao aumento de doses por conta própria. Aí reside o perigo maior: ao dobrar ou triplicar o número de cápsulas diárias, o usuário duplicará ou triplicará as doses de hormônio tireoidiano, diurético, benzodiazepínico, antidepressivo, laxante e o diabo que houver, correndo o risco de perder a vida.
Por essa razão, a Anvisa proibiu a prescrição de anorexígenos como parte de formulações magistrais. Mas o que fazem aqueles interessados em burlar a lei? Prescrevem o anorexígeno separadamente e todos os demais componentes numa mesma fórmula; depois, mandam tomar uma cápsula de cada um, duas vezes ao dia.
O que faz a fama de determinada fórmula é o fato de os incautos suporem que a composição foi criteriosamente dosada para seus casos e de conhecerem alguém que perdeu peso ao tomá-la. De fato, há pessoas que emagrecem até dez quilos no primeiro mês de tratamento, mas, daí em diante, a perda fica progressivamente lenta, até que o ponteiro da balança pára de se mover e retoma a caminhada inexorável para o alto.
Com a auto-estima rebaixada e achacados por uma constelação de efeitos colaterais, os usuários, então, interrompem o tratamento e entram em crise de abstinência pela falta da anfetamina e do benzodiazepínico: sonolência, apatia, fraqueza, depressão, falta de memória, ideação suicida. A esses sintomas acrescentam-se os do hipotireoidismo, porque a tireóide previamente bombardeada pelas doses excessivas de hormônio declara greve por tempo indeterminado.
Derrotados em seu propósito de perder peso, os ex-usuários recuperarão num instante os quilos perdidos e ganharão outros mais até ouvirem falar na próxima fórmula milagrosa.

Um claro exemplo deste texto de Dráuzio é o filme Réquiem para um sonho. Se você ainda não viu esse clássico não perca mais tempo. É um filme belíssimo e muito bem dirigido por Darren Aronofsky, e também conta com elenco excelente.
Sara Goldfarb, senhora idosa, tem um filho viciado, Harry. O filho vive roubando a TV da mãe para comprar drogas. Sara, pacientemente, sempre pega a TV de volta, já que não vive sem seu programa predileto, um show de auditório que a faz ficar quase hipnotizada. Num dia de verão, ela recebe por carta um formulário para aparecer no programa. Quase flutuando de tanta emoção, Sara deseja muito poder emagrecer para caber num velho vestido vermelho seu, antigo. Depois de tentar uma dieta, ela resolve começar a tomar pílulas para emagrecimento. E por ai vai... não vou contar mais nada do filme.
Ellen Burstyn, que faz Sara Golgfarb, foi indicada ao Oscar. E pra quem não acredita que o Oscar muitas vezes nada é do que uma grande tapeação, Ellen Burstyn perdeu o Oscar que era seu para uma tal de Julia Roberts. Sara Goldfarb é a interpretação de uma vida. É a alma que todo mundo da platéia deseja salvar, mas infelizmente não pode. Nunca na minha vida eu me senti tão impotente. Poucas vezes a degradação humana me chocou tanto.

"Eu percebo, sem nenhum terror, a desunião das moléculas de minha existência" (Marquês de Sade)

quarta-feira, março 02, 2005

Levi-Strauss destaca importância do período em que viveu no Brasil

tirado do Le Monde
"O Brasil representa a experiência mais importante da minha vida", afirmou o etnólogo Claude Levi-Strauss, um dos mais importantes intelectuais franceses do século XX, às vésperas do início do Ano do Brasil na França. Em entrevista ao jornal "Le Monde", o autor de "Tristes Trópicos" (1955) assinala que sente "uma dívida muito profunda" com o Brasil, aonde chegou em 1935, aos 27 anos, para ensinar sociologia em São Paulo, e estudou as sociedades primitivas amazônicas, como os índios Bororos, Caduveos ou Nambikwaras.
Essa experiência, de quatro anos, serviria de base à construção teórica da antropologia estrutural de Levi-Strauss, que aos 96 anos decidiu romper seu silêncio midiático por causa do Ano do Brasil na França, que começará em março. "O Brasil representa a experiência mais importante da minha vida, que teve um papel determinante na minha carreira", explica o etnólogo, que após ir embora em 1939 só voltou uma vez, em 1985, para acompanhar o então presidente da França, François Mitterrand, na sua visita de Estado de cinco dias.
"Embora muito curta, essa estadia produziu em mim uma verdadeira revolução mental: o Brasil tinha se transformado em outro país", assinala Levi-Strauss, que evoca "a civilização em escala mundial". A cidade de São Paulo tinha passado de um milhão de habitantes para mais de 10 milhões, onde tinham desaparecido os rastros da época colonial, uma cidade "rodeada de quilômetros de torres", lembra. Levi-Strauss acrescenta que já nos anos 30 do século passado podia se observar no Brasil o fenômeno da formação acelerada das cidades.
Depois de observar que o vínculo entre o homem e a natureza "talvez tenha se rompido", assinala que "se pode entender que o Brasil, que se desenvolveu de forma tão considerável, tenha para a natureza a mesma política que a Europa na Idade Média, ou seja, destruí-la para instalar uma agricultura".
Em 1985, só pôde sobrevoar o território amazônico dos índios Bororos: "pudemos ver algumas aldeias com sua estrutura circular ainda, mas dotadas de pistas de aterrissagem". O antropólogo denuncia que os povos indígenas da Amazônia foram "mais ou menos exterminados", ao afirmar que só sobrevive "entre 5 e 10% da população original", mas destaca que alcançaram contato uns com os outros e "sabem agora o que ignoraram durante muito tempo: já não estão sozinhos no Universo".
Portanto, comenta, a etnologia "nunca mais será" a mesma que praticou, e "agora estamos em um regime de ´compenetração mútua´. Vamos para uma civilização em nível mundial" onde "provavelmente" aparecerão diferenças, mas não da mesma natureza, "serão internas, e já não externas". Perguntado sobre o futuro, Levi-Strauss responde que "estamos em um mundo ao qual já não pertenço". "O que eu conhecia e amava tinha 1,5 bilhão de habitantes. O mundo atual tem 6 bilhões. Já não é o meu. E o de amanhã, povoado de 9 bilhões de homens e mulheres (...) me impede de fazer qualquer prognóstico", conclui o intelectual francês.

Secretário do Audiovisual acusa Rede Globo por atraso na Ancinav

Depois de mais de um mês de silêncio, a discussão sobre a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual) foi reacesa na noite de anteontem. Segundo o secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, a agência deve começar a exercer suas novas funções -agora apenas fomentar e fiscalizar a produção audiovisual do Brasil- até o fim do ano. Enquanto o projeto da agência passa por adaptações, o marco regulatório (lei geral) da agência, segundo Senna, também está sendo trabalhado.
"A decisão do presidente Lula é que as duas coisas sejam feitas ao mesmo tempo, e não uma depois da outra. A lei está sendo trabalhada agora para que seja apresentada ao crivo da opinião pública", explicou o secretário durante debate com o cineasta Toni Venturi e o pesquisador do Centro Cultural Banco do Brasil André Gatti. O evento integra a Bienal da UNE (União Nacional dos Estudantes), que termina hoje, no Pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera, em São Paulo.
Senna responsabilizou a Rede Globo pelo atraso em torno da criação da Ancinav. "A Globo tentou, através de acusações incríveis, dizer que a Ancinav era uma ameaça para o futuro da liberdade de expressão. Na verdade, era para que se evitasse a discussão, para demonizar a agência. "Isso aqui é ditatorial, então é melhor nem discutir." Foi uma coisa falaciosa que atrapalhou bastante essa polêmica [o projeto]."
O secretário disse que a TV não aceita a regulação do setor ao qual pertence, mas que insiste pela regulação de empresas telefônicas. "O que ela [a Globo] disse foi "vamos botar isso [a regulação] mais para frente, porque nós temos que nos adequar aos novos tempos". Ou seja, a Globo quer, antes da regulação, que ela seja também uma tele ou que se associe a uma tele." Senna afirmou que a Globo teme que empresas de telecomunicações passem a atuar na criação de conteúdos.Em nota à Folha, o diretor da Central Globo de Comunicação, Luis Erlanger, afirmou: "Assim como muitos outros setores relevantes, a TV Globo vem defendendo publicamente um debate pela preservação da cultura brasileira, uma questão absolutamente estratégica para o país. Mas a decisão de buscar um caminho mais democrático neste processo coube exclusivamente à decisão pessoal do presidente da República". (tirado da Ilustrada)

13ª SEMANA MUNICIPAL DA MULHER

às 18h30 - Cinema Falado, exibindo o filme Colcha de Retalhos, com comentários da psicóloga Lisnéia Rampazzo
Onde: Teatro Zaqueu de Melo / Biblioteca Pública de Londrina
Dia 14 (segunda-feira), às 18h30 - Cinema Falado, exibindo o filme Olga, com comentários da cientista política Maria José Resende
Onde: Teatro Zaqueu de Melo / Biblioteca Pública de Londrina
Dia 21 (segunda-feira), às 18h30 - Cinema Falado, exibindo o filme A Conspiração, com comentários da socióloga Silvana Mariano
Onde: Teatro Zaqueu de Melo / Biblioteca Pública de Londrina
Dia 28 (segunda-feira), às 18h30 - Cinema Falado, exibindo o filme O Sorriso de Monalisa, com comentários da professora Nilza Rodrigues
Onde: Teatro Zaqueu de Melo / Biblioteca Pública de Londrina

A programação completa está no Guia Cult
http://www.bonde.com.br/guiacult/guiacultd.php?edicao=17

Tomate Seco Café Teatro, Videographic e Cultura Inglesa estão apresentando, desde o dia 9 de fevereiro, um ciclo de filmes ingleses. Iniciada com uma série sobre o Oriente, a idéia é muito louvável, uma vez que nos permite conhecer o ponto de vista de outras culturas, além da perspectiva do "way american of life", predominante no cinema.

Dia 2 de março (quarta-feira, hoje), às 21h00: LIAM Aclamado nos festivais de Toronto, Veneza e Londres, em 2000, "Liam" é considerado, pelos críticos de cinema, "um excelente filme britânico", feito com orçamento pequeno e que obteve muito sucesso no circuito internacional. Inspirado no livro "The Back Crack Boy" de Jimmy McGovern, conta, com extrema sensibilidade e realismo, a história do garoto Liam (Anthony Borrows) e sua família, na cidade de Liverpool, durante a depressão dos anos trinta, os conflitos com a Igreja Católica e também a chegada do fascismo na Inglaterra. Direção: Stephen Frears. Com: Ian Hart, Claire Hackett, Anthony Borrows. R$ 3,00

CINEMA EM VÍDEO / DVD
Com coordenação de Fernanda Jiran, o departamento cultural da Associação Médica de Londrina apresenta a seguinte programação em março:
Dia 5: Um Lugar no Coração (EUA / 1984) – com Sally Field, Ed Harris, John Malkovich, Danny Glover e direção de Robert Benton
Semana da Mulher: "A Psicologia Feminina", com a psicóloga convidada Ludmila Kloczak
Dia 12: Retratos da Vida (França / 1981) – com James Caan, Geraldine Chaplin, Fanny Ardant e direção de Claude Lelouch
Dia 19: Blade Runner, o Caçador de Andróides (EUA / 1982) – com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young e direção de Ridley Scott /
Apresentação: Isaías Dichi
Onde: Associação Médica de Londrina / Praça 1º de Maio, 130
Quando: aos sábados, às 17h00
Mais informações: (43) 3324.8719

terça-feira, março 01, 2005

Médici e a pátria de chuteiras


Soulfly

Quem gosta do Soulfly? Quem de vocês que se aventuram a ler alguma coisa neste blog frustrado já ouviu falar desta banda? Se você já ouviu com certeza deve ter alguma opinião crítica sobre o líder (Deus) desta banda. Não estou fazendo especulação ao imaginar que a maioria das pessoas se decepcionou com as atitudes do saudoso possessed.
Na vida, uma das coisas que dificilmente nos afastamos é do nosso passado. O que a gente é vem de uma série de elementos que vão moldando-nos com o passar dos anos. Somos frutos de nossa história, das nossas convicções e de nossos compromissos. Ninguém começa uma vida nova, ninguém se desvincula totalmente de seu passado. Não há como apagar o nosso ser cultural que foi lapidado e que está intrinsecamente envolto por nossas raízes. Roots Bloody Roots!!!
Posso estar exagerando, mas não podemos negar isso. Eu, como fruto do interior de São Paulo, nunca vou poder negar minha herança sertaneja. Com o Max eu penso mais ou menos assim também. O cara esqueceu-se da sua família, dos amigos, dos fans...Mas isso que escrevo não teria muito significado se a pessoa em questão quisesse realmente romper com o passado. O que acontece com o Max é que ele não é mais brasileiro. No entanto ele ainda posa de jungle boy que toca berimbau e tudo mais. Essa excentricidade vende que nem água no deserto, os gringos adoram coisas “diferentes”. A alteridade é um ingrediente a mais que disfarça o compromisso musical de algumas bandas. Carlinhos Brown e companhia ganham rios de dinheiro vendendo um Brasil que não existe.
Por onde anda Max Cavalera? Deve estar em alguma casa noturna dos USA tocando com o palco cheio de bandeiras canarinho, com uma camiseta da seleção brasileira e com a sua guitarra personalizada que tem imaginem o que estampada, a bandeira brasileira...Grande descoberta...Penso que hoje se explora um país, entre outras coisas, pela imagem que ele tem. É essa a imagem que o governo quer vender lá pra fora. Criaram até uma marca pra isso. Quanta hipocrisia!
Escrevo tudo isso porque o antigo site do Soulfly no Brasil está de volta. Os caras acabaram com a página em protesto ao descaso de Max e seus comparsas. Depois de muita pressão de fans o site voltou a ativa, mas agora mais crítico do que nunca. Acho que a frase que circulava no país nos anos 70 encontra agora um novo significado que pode ser entendido mesmo ao pé da letra. Brasil, ame-o ou deixe-o.


POR QUE O SOULFLY BRASIL VOLTOU AO AR?
Prezados internautas,
Depois de alguns meses fora do ar o Soulfly Brasil está de volta! Assim como tirar o site do ar, a volta também foi difícil. Podemos dizer que o motivo principal desta volta foram os inúmeros pedidos para que repensassemos nossa decisão. Esse contínuo apoio que sempre recebemos foi vital para que realmente chegassemos à conclusão que, maior que qualquer banda ou grande ídolo, são os fãs, que os colocam onde estão.
O Soulfly Brasil foi o primeiro site sobre a banda feito exclusivamente em português e hoje é o mais antigo em atividade na Internet. Os números nos orgulham e o apoio e o reconhecimento de todos nos motivam cada vez mais. Pelos fãs e para os fãs, o Soulfly Brasil está de volta!Não estranhem uma ligeira mudança de atitude da equipe com relação à banda. Com certeza estaremos mais críticos e livres para fazer o site. Mudamos nossa atitude para dar continuidade ao nosso trabalho, porque uma coisa que ninguém nos tira é a atitude e o respeito próprio!
Um grande abraço à todos e sejam muito bem vindos (novamente) ao Soulfly Brasil.Christiano, Duzinho e Johnny
Equipe Soulfly Brasil http://www.soulflybrasil.com.br/

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Quem financia o FSM de Porto Alegre

Morte aos imperialistas? Não é bem assim, o FSM precisa deles...

Según los organizadores del V FSM, el presupuesto total del Foro Social Mundial es de 38.856.090 dólares (29.935.354 €), de los cuales sólo el 6,4% (2.561.392,41) salen de las inscripciones de los participantes. Es decir, que el 93,6% de lo fondos para el FSM vienen de donaciones de distintas fuentes. La Fundación Ford financia totalmente la preparación del FSM con 2.269.000 dólares. En cuanto a la financiación del evento en sí, la inmensa mayoría de las donaciones proviene de ONGs. 2.432.538 dólares (6,2% de la financiación total) vienen de ONGs confesionales (católicas y protestantes). 12.006.821 $ (un 30’7%) vienen de donaciones de otras ONGs (de los cuales, 4.398.800 de Oxfam, fuertemente vinculada a la iglesia: en España es Intermon-Oxfam). Hay que tener en cuenta que si rastreamos el origen de los fondos de estas ONGs, veremos que vienen en gran medida de los gobiernos. La mayoría de los fondos de Oxfam, del gobierno de Gran Bretaña y los de la otra gran patrocinadora, HIVOS (que pone 3.645.502 $) del gobierno holandés. Ambos gobiernos deben considerarse poco “antiglobalizadores”: tienen tropas estacionadas en Irak al servicio de los EE.UU. . Destaquemos que estas dos ONGs financiaron conjuntamente el 60% del IV Foro Social Mundial, celebrado en Mumbai (India). 14.323.962 $ (un 36 %) vienen de las instituciones gubernamentales de Brasil (7.916.550 del gobierno federal, 1.602.000 del Estado de Rio Grande do Sul y 4.805.412 de la municipalidad de Porto Alegre). Se da la circunstancia de que tanto el Estado de Rio Grande do Sul como la municipalidad de Porto Alegre están gobernadas por la derecha, en tanto que el gobierno federal ha hecho del pago de la deuda externa que estrangula a Brasil su prioridad económica y política (algo bien poco “antiglobalizador”). A ello han de añadirse 2.136.000 $ (un 5,8%) aportados por Correos y la Caixa Económica federal, empresas públicas. La Rockefeller Brothers Foundation aporta 356.445 $. Y los ayuntamientos italianos 240.300 dólares. Finalmente, las empresas Electrobras y Petrobrás y el Banco de Brasil (sociedades mixtas con capital público y privado) aportan 8.098.500 $ (un 20%). Respecto del papel “antiglobalizador” de la Fundación Ford y la Fundación Hermanos Rockefeller nos podemos ahorrar hablar. Todos estos fondos son administrados por la Asociación Brasileña de ONGs (Abong) y por Ibase (Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos). Ibase, por su parte, es fuertemente financiado... por la Fundación Ford. Cabe preguntarse ¿Por qué las ONGs financiadas por los gobiernos más pro-capitalsitas y sometidos a la voluntad del gobierno Bush, las empresas mixtas, las Fundaciones Ford y Rockefeller, las iglesias, la derecha brasileña y el gobierno Lula, fiel servidor de las recetas del FMI, financian un evento que “organiza la lucha contra la “globalización”, el “neoliberalismo” y el predominio de las multinacionales”? Yo no creo que se equivoquen. Sin duda, saben bien dónde ponen su dinero. Pero entonces ¿qué hacen los compañeros que de buena fe participan en estos foros creyendo luchar contra las multinacionales y el imperialismo? Pues me temo que están haciendo... el primo.
URL:: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=11800
Aprovado em novembro de 2004 pelo presidente Lula, parte do exercito atuará nas ruas para reprimir os movimentos sociais. Nossas manifestações receberão uma repressão muito maior. Campinas será cobaia.
Para aqueles que ainda acreditam que o governo Lula está ao lado dos movimentos sociais, vai aqui algo que está sendo muito pouco divulgado e discutido pela esquerda brasileira. No final do ano passado Lula aprovou uma mudança na estrutura e na função de parte do exercito brasileiro. Aproveitando as pressões da pequena burguesia que exigiam a intervenção do exercito brasileiro para acabar com o chamado crime organizado e a violência urbana, e instaurando sua hipócrita paz, o governo criou uma brigada no exército especialmente para reprimir os movimentos sociais.

George Bush e Halle Berry levam Framboesa de Ouro

O presidente norte-americano George W. Bush foi o vencedor do prêmio Framboesa de Ouro de pior ator do ano por sua performance como presidente em "Fahrenheit 11 de Setembro". A premiação, realizada anteontem, também destacou Halle Berry como pior atriz do ano por "Mulher-Gato". A atriz chegou a discursar e agradecer à equipe do filme que lhe tirou do "topo" de sua carreira e a levou para o "fundo".

domingo, fevereiro 27, 2005

Bibliotecas cheias e sociedade carente


falta incentivo

Por ROSIMERI FERRAZ SABINO
Ao final de cada semestre centenas e centenas de estudantes passam pelo “doloroso” e dispendioso processo de elaboração dos seus trabalhos de conclusão de curso. Sob o pretexto de capacitar o futuro profissional para a pesquisa no seu campo de atuação, estes trabalhos avolumam as prateleiras das bibliotecas universitárias, mantêm professores orientadores e um mercado recheado de profissionais de editoração eletrônica.
Esta pseuda ação didática, que culmina no trabalho final para a graduação, acompanha os acadêmicos durante todo a sua trajetória universitária, pois os docentes solicitam textos e mais textos como requisitos à aprovação em suas disciplinas. Aos estudantes resta uma cansativa busca de teorias apresentadas conforme normas da ABNT. E isto repete-se a cada matéria cursada. Ao final do semestre estes trabalhos juntam-se a coleção de “teorias repetidas” que o aluno encadernou nos semestres anteriores.
Neste processo, o ensino superior restringe-se a capacitar o aluno a mera produção de trabalhos. Os assuntos que poderiam ser alvo de debates em sala de aula, ganham apenas um estudo sobre o que já se falou a respeito dele.
Seria louvável essa exigência para a conclusão do curso se tais trabalhos realmente revertessem em algum benefício para a sociedade. Isto sim, deveria ser o objetivo principal da averiguação da competência do aluno em relação aos conteúdos que lhe foram repassados nos bancos universitários.
A exemplo dos privilegiados estudiosos da Grécia Antiga, a sociedade deveria receber um efetivo retorno do seu investimento na educação. Naquela civilização as teorias dos intelectuais buscavam não só o engrandecimento da cultura de seu povo, mas também recebiam a prática de pensamentos que colaborassem na organização social.
No sistema educacional vigente a “formatura” é vista pela grande maioria dos estudantes como um “alívio”. É o fim de uma tortura financeira para os mais carentes ou um passaporte (para os ingênuos mais abastados) para o mercado de trabalho.
Há, ainda, os que acabam por se tornarem “estudantes profissionais” . Estes passam pelo trabalho de conclusão e buscam as oportunidades nos mestrados, e após, nos doutorados. Obviamente que entre estes estarão, na sua quase totalidade, os que tiveram o acesso a um ensino mais aprimorado e dispuseram de tempo para pesquisas, pois as seleções para os cursos de pós-graduação exigem um currículo acadêmico de produções inatingíveis por estudantes que passaram seus dias trabalhando para custear os seus estudos. Claro que encontraremos algumas raras exceções, porém a um preço de esforço e determinação quase sobre-humano.
E o desperdício continua... Quantas dissertações e teses conhecemos que realmente contribuíram para alguma melhoria na nossa cidade, estado, país...? Mas alguém pagou por isto. Fomos nós. Os nossos impostos também servem para custear o ensino público superior. Quantas pessoas talentosas conhecemos que, se tivessem a oportunidade de se aproximar desse universo cultural desenvolveriam trabalhos para a sociedade? No entanto os pretendentes a bolsas deste tipo de ensino, na grande maioria, cumprem a sua jornada acadêmica, e após, beneficiam-se individualmente disto. Talvez não por vontade própria, mas por falta de exigência do próprio sistema de ensino.
Os pesquisadores que ajudamos a formar encontram as melhores ofertas de trabalho no exterior. E, como ele se vê em um mercado de mão-única – as empresas exigem o máximo e oferecem o mínimo – busca oportunidades que lhe retribuam o quanto estudou. E lá se vai o nosso pesquisador e todo o investimento que fizemos nele... Mas a sua tese ficou por aqui: devidamente teorizada, digitada, encadernada em alguma prateleira de biblioteca universitária.
O nosso país necessita de soluções para todas as áreas: social, financeira, política... Não seria mais inteligente aproveitar o potencial dos nossos pesquisadores? Os projetos acadêmicos não poderiam ser feitos a partir de propostas da própria sociedade? Afinal, é ela que sabe as áreas de maior carência de estudos “in loco” .
As teorias educacionais defendem que o conhecimento é constituído na e pela interação do sujeito-objeto, via mediação social. Ou seja, o indivíduo deve interagir com o que estuda para obter um real desenvolvimento.
Tal conclusão só vem a corroborar a importância de aproximarmos nossos estudantes de projetos que possam ter resultados realmente mensuráveis. Desta forma, além de estarmos colaborando para o crescimento dos próprios pesquisadores, estaremos retornando à sociedade um conhecimento que ela ajudou a construir.
Esse verdadeiro “exército” de acadêmicos deveriam ser agrupados, em disposição nacional ou estadual, para pesquisas correlatas aos seus estudos que efetivamente viessem a contribuir para os problemas da sociedade. Se a união faz a força porque insistimos em fragmentar? Quem ganha com isso? Talvez a resposta esteja em dirigentes que buscam a manutenção de um sistema arcaico e carente de reestudo. Os debates sobre o ensino estão aí para comprovar isso e “pipocam” por todo o país. De Piaget a Gardner teóricos são estudados para se obter o melhor método para formar o indivíduo e a sua consciência crítica. Mas como estamos aproveitando essas teorias? Formamos indivíduos capazes e reflexivos - ou ao menos acreditamos formar – e, após, ignoramos o seu potencial. A sociedade brasileira não pode se dar a esse luxo.
E ainda corremos o risco de transformar essa dinâmina em um círculo vicioso: formamos educadores que também têm que desenvolver trabalhos exigidos para o permanente aperfeiçoamento imposto pelas instituições de ensino. Estes mesmos educadores serão orientadores dos trabalhos dos futuros docentes. A prática da pesquisa torna-se o cumprimento de um requisito, sem a preocupação da efetiva utilidade dela para a sociedade. E aí formou-se o círculo: o orientador conceitua a pesquisa, o aluno é aprovado e multiplica essa cultura aos seus futuros orientandos.
É evidente a importância das pesquisas no contexto universitário para a construção e atualização do conhecimento, mas também é mister posicionar a pesquisa e a construção do saber diante dos desafios que se apresentam na realidade atual. Todos estamos cientes da necessidade de conhecermos experiências anteriores para elaborarmos de maneira mais eficiente o nosso presente. Nortearmo-nos por ações, estudos e análises evitará que incorramos nos erros cometidos por nossos antecessores. No entanto, o que acontece atualmente é a mera representação textual dessas experiências. Este é um fator que urge de inclusão nos debates educacionais.
Que bom seria se nesses debates a educação fosse vista como algo importante a qualquer ser humano e não como artigo de luxo. Que bom seria se estudantes que lutam tanto para a sua graduação tivessem o seu diploma valorizado. Que bom seria se todos fossem conscientes da importância do acesso à pesquisa, mas com resultados práticos. Caso contrário, estamos fadados a um ensino em massa, formador de meros repetidores sem o exercício do pensar. Uma civilização que não incorpora o conhecimento dos seus estudiosos poderá se deparar com um desenvolvimento estagnado. Conhecimento não exteriorizado torna-se inútil.
No entanto, se esse for o motivo pelo qual insistimos neste sistema de ensino, seria mais honesto assumirmos a política das castas. Ao menos não estaríamos distribuindo a ilusão de que, algum dia, com muito esforço, poderíamos nos tornar algo melhor e maior do que somos, morreríamos na mesma condição em que nascemos. (tirado do Espaço Acadêmico)

Dica de site www.sabotagem.cjb.net muitos livros bons. Se você gosta de ler livros pelo computador esse é o lugar certo.

sábado, fevereiro 26, 2005

Castelinho: um julgamento inconcluso

por Hélio Bicudo

Nos primeiros dias de maio de 2003, a polícia de São Paulo executou, no pedágio da rodovia que liga a Castelo Branco a Sorocaba, 12 pessoas que, supostamente, iriam assaltar um avião que aterrissaria no aeroporto daquela cidade, com avultada soma de dinheiro. Posteriormente, apurou-se que há anos não aportavam naquele aeroporto aviões com grandes somas.
Na ocasião fizeram-se os maiores elogios à atuação da polícia cujos órgãos de informação tinham tornado possível a sua intervenção para evitar um assalto. O então ministro da Defesa chegou a manifestar-se nesse sentido, associando-se ao que então se afirmava.
Contudo, um exame mais acurado dos fatos veio a demonstrar que a chamada “operação Castelinho” fora uma das maiores farsas da polícia paulista.
É que a polícia estava desprestigiada aos olhos da opinião pública: aumento da violência com seqüestros não resolvidos; fuga de presos que chegaram, em um dos casos, a se utilizar de um helicóptero para sair do pátio do presídio onde se encontravam; rebeliões nos presídios da capital e do interior.
Essa situação reclamava que se fizesse algo para – a exemplo do que já acontecera nos anos 60/80 do século passado, com a criação do “esquadrão da morte” – restabelecer o prestígio da polícia e a sua confiança por parte da população.
Um órgão que funcionava junto ao gabinete do Secretário da Segurança, que responde pela sigla de GRADI - Grupo de Repressão e Análise dos Delitos de Intolerância, tendo recrutado, com autorização (ilegal) dos juízes da Corregedoria dos Presídios, alguns detentos condenados por delitos graves, passou a armar, com a ajuda desses delinqüentes, um evento que denotasse a eficiência da polícia. Recrutaram 12 pessoas com o objetivo de realizar o aludido assalto.
Proporcionaram armas e a munição, estas sem efeitos letais, e, por fim, um ônibus que os conduzisse para o local do assalto.
Esses homens foram surpreendidos na praça daquele pedágio e sumariamente executados. Ato contínuo, tratou-se de limpar o local do crime, enviando as vítimas, já mortas, para a Santa Casa de Sorocaba, e alterando o conjunto do cenário em que os fatos se deram.
Os laudos do Instituto Médico Legal foram enviados a um dos maiores especialistas - o professor Nelson Massini – em exames médicos legais, que concluiu tratar-se de uma mera chacina: as vítimas foram atingidas, preferencialmente, no tórax e na cabeça por disparos de armas de fogo, alguns deles à queima-roupa. Os ferimentos constatados nos braços resultaram de gestos de defesa.
Com base nesses fatos, os professores Fábio Konder Comparato e Dalmo Dalari, os advogados José Carlos Dias, ele e Carlos Miguel Aydar, este presidente da secção paulista da OAB, representaram ao Tribunal de Justiça e ao procurador Geral da Justiça, para que instaurassem os inquéritos competentes para a apuração, de um lado, de fatos praticados por juízes corregedores e Secretário de Segurança e, de outro, dos policiais que participaram da execução. Estes últimos foram denunciados pelo Ministério Público e o processo corre pela comarca de Itú, onde o crime se consumou. Os primeiros foram submetidos a inquérito que teve o seu sigilo decretado pelo Órgão especial do Tribunal de Justiça do Estado.
O processo de Itú, com mais de cinqüenta réus, prolongar-se-à por anos e só se esgotará depois dos recursos julgados pelos tribunais.
Quanto aos juizes e Secretário, o resultado já era esperado, em um procedimento sob sigilo, aliás, questionável, nos termos do disposto no artigo, 93, IX da Constituição Federal, que impõe a publicidade dos julgamentos. O órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o arquivamento do inquérito por insuficiência de provas, com apenas um voto contrário. O inexplicável é que o Secretário incriminadosequer foi ouvido e o Ministério Público impedido de manifestar-se no plenário daquele órgão. O relator, entre outras jóias que podem ser lidas no voto vencedor, observou – isto está no noticiário dos jornais – que o fato de os juizes terem violado a lei se constitui numa atitude compreensível na luta contra o crime organizado. Quer dizer: pode-se cometer crime para combater crime!
Mas tal situação, que não pode ser assimilada pela sociedade civil, não é irreversível.
Prevendo que a solução seria tomada pelo Tribunal de Justiça, por ser órgão especial, a Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos já acionara a Comissão Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos, da OEA, alegando que não obstante não esgotados formalmente os recursos internos, (requisito para o ingresso da denúncia perante a comissão) tudo indicava, tendo em vista o grande número de antecedentes, que o resultado seria a impunidade, como realmente aconteceu. Em correspondência de dezembro do ano passado, a Comissão Interamericana informava que aceitava a denúncia e iria proceder de acordo com as disposições de seu Regimento.
Em conclusão: o lamentável episódio não terminou, pois devemos esperar que os fatos que não sensibilizaram o corporativismo da justiça paulista, encontrem seu reconhecimento, primeiro pela Comissão e depois pela Corte Interamericana, cujas decisões são de cumprimento obrigatório em nosso País.

Hélio Bicudo é presidente da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

O integralismo ou o nazi-fascismo com feijoada


Somatória integralista

Por Onaireves Moura
Atualmente, tem aparecido com freqüência anormal, referencias a uma nova “ideologia” política denominada de “linearidade doutrinária”, “nacionalismo espiritualista” e outras expressões estranhas, que na verdade representam uma tentativa de ressuscitar o Integralismo, movimento velho conhecido nos círculos da extrema-direita.
Em seus artigos, o movimento menciona sua intenção de combater tanto a “internacional vermelha”, representada pelos “comunistas”, como a “internacional dourada”, representada pela “burguesia” capitalista.
Considerando que o velho “perigo vermelho” já não existe mais á décadas, e que até mesmo os velhos partidos comunistas mudaram de nome e adotaram propostas democráticas e neoliberais, fica claro que “comunista” para esses senhores será qualquer um que discorde de suas idéias.
Quanto ao combate a burguesia e ao capitalismo o assunto se torna bem mais complexo. E para entender melhor é necessário conhecer um pouco as origens do movimento. Para tanto, valemo-nos primeiramente de simples registros enciclopédicos:
A Enciclopédia Barsa, no volume 4, página 37 define Integralismo assim: “O partido, Ação Integralista Brasileira, foi fundado pelo escritor Plínio Salgado e conquistou, a partir de 1932, numerosos adeptos, graças ao apoio de uma parte do clero e de muitos intelectuais, e pela tendência política geral da época, que favorecia os movimentos inspirados no fascismo”.
A Nova Enciclopédia Ilustrada Folha – no volume 1 – página 498 nos dá a seguinte definição: “Integralismo: Versão brasileira do fascismo, o integralismo pregava o governo ditatorial ultranacionalista, que promoveria uma limpeza no país baseada no lema ‘Deus, Pátria, Família’. Sua expressão partidária foi a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 que obteve grande apoio nos setores mais conservadores da sociedade, como a oligarquia tradicional, os militares e o clero”.
Visto isso, fica difícil aceitar que os integralistas de fato se oponham ao capitalismo. Na verdade, a essência de sua metamorfose moderna é descrita como “nacionalismo espiritualista”. Não é difícil portanto concluir que tudo leva a conhecida fórmula da extrema-direita no mundo todo: Xenofobia e desprezo pela democracia.
Quanto às alegações de que o movimento não tem relação com o fascismo, também podemos recorrer a uma simples consulta a “História do Século 20” – Volume 4 – página 1593, onde podemos ler:
“Em Hierarchia (cujo título inspira-se no órgão oficial do fascismo italiano) colaboraram alguns dos futuros dirigentes e intelectuais integralistas: Plínio Salgado, San Tiago Dantas, Hélio Viana, Obiano Mello, Madeira dae Freitas e Antonio Galotti”.
“No seu exemplar de março/abril de 1932, com um retrato de Mussolini com dedicatória especial para a revista encontra-se um artigo de Plínio Salgado, anterior ao lançamento da ABI, intitulado ‘Como eu vi a Itália’”.
“Refere-se ao encontro direto entre o futuro chefe integralista e o Dulce quando da viagem do primeiro ao oriente e a Europa em 1930:”
Reproduzimos a seguir parte do referido artigo:
“O que estamos presenciando hoje é o espírito de Roma se levantando, com o seu eterno senso de equilíbrio e de simetria, a sua capacidade de totalização dos elementos individuais e sociais, de concepção do mundo sob um critério integral, onde não há choques nem tendências dissociativas. Roma, fascista, tão caluniada pelos demagogos ébrios da cocaína libertária, constitui atualmente a suprema garantia de liberdade”.
Se não bastasse isso, o integralismo “abrasileirou” praticamente cada elemento da ritualística fascista e alguns do também nascente Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o NSDP ou “Nazi”, de Adolf Hitler e Rudolf Ress. Senão vejamos:
Os militantes integralistas passaram a usar e a se denominar “camisas verdes”, uma clara cópia dos “camisas negras” fascistas e dos “camisas pardas” das Sturmabteilungen (“seções de assalto”), as “SA” dos nazistas.
O lema fascista “Acredita! Obedece! Luta” foi adaptado para “Deus, Pátria, Família”.
A expressão “Anauê” de origem indígena, é uma evidente imitação do “Sig Heil” nazista.
O “Sigma”, símbolo do integralismo, é uma óbvia emulação da suástica nazista.
Plínio Salgado é chamado de “Nosso chefe” e “Grande Condestável” pelos seus seguidores, numa clara alusão ao “Dulce” italiano e ao “Führer” alemão.
Toda a “coreografia” das manifestações integralistas é copiada dos eventos fascistas e dos grandes “festivais” nazistas. A profusão de bandeiras, a saudação com o braço direito estendido, os uniformes para-militares, a mania de distintivos e medalhas, tudo não passa de adaptação e imitação.
As únicas diferenças, ficam por conta de impossibilidades evidentes de adaptação:
O integralismo não era racista. Mas devemos nos lembrar de que o fascismo também não era anti-semita. Mussolini só começou a fazer discursos contra os judeus para agradar Hitler, quando já eram aliados no “Eixo”.
No Brasil, o anti-semitismo sempre foi praticamente inexistente entre o povo. Com uma população 70% mestiça, veleidades sobre “raças superiores” seriam obviamente um absurdo. Também qualquer idéia de expansionismo territorial seria ridícula.
Mesmo a alegação de que o integralismo teria um lado “espiritualista”, em oposição ao nazi-fascismo, é completamente falaciosa. Sabemos que tanto Mussolini quanto Hitler, apesar da incompatibilidade de suas doutrinas com o cristianismo, jamais hostilizaram a Igreja, onde alias tinham muitos adeptos e admiradores (e alguns colaboradores do mais alto nível).
O “espiritualismo” de Plínio Salgado pode ser avaliado por sua obra “A vida de Jesus”, que na realidade é uma espécie de “Evangelho segundo o fascismo”. Entre outras preciosidades, a obra compara Julio César com Jesus Cristo, e afirma claramente que: “César e Cristo não são antítese um do outro. Para que César viva, não é necessário que Cristo morra; e para que Cristo impere não é preciso que César seja eliminado”.
Em outras palavras, os ditadores fascistas seriam uma espécie de complemento, nesse mundo, do poder de Deus.
Que ninguém se iluda, o novo movimento integralista se insere perfeitamente dentro de um fenômeno típico da nossa época, em que a completa falência do marxismo e das utopias de esquerda, aliadas a rejeição aos abusos do capitalismo global, engendra movimentos baseados no ódio e na intolerância.
Mais uma vez, trata-se de imitar os movimentos “patriotas” norte-americanos, neonazista e neofascista na Alemanha e na Itália, os partidários de Le Pen na França e toda a fauna de extrema-direita que prolifera pelos cantos obscuros do mundo.


Li este texto e achei muito providencial em refletir um evento que vi estes dias. Estava eu (Leonardo) na aula da Escola de Magistratura com a Fernanda (minha namorada) olhando e reparando naquelas aulas difíceis e normativas, sem entender muita coisa, mas com muita crítica a fazer. O professor que ministrava a aula era um velho, desses bem velhos mesmo, daqueles em que o conservadorismo escorre por seus poros. Ele até aparentava ser um bom sujeito, falava sobre as mudanças do Código Civil (que não era modificado desde o começo do século passado), sobre os artigos, sobre os parágrafos e emendas. Aquilo tudo foi me deixando muito confuso, e ao mesmo tempo eu pensava o tanto que a nossa carência de memória histórica fazia falta. Algumas leis eram mudadas e, passado um tempo, mudadas de novo, revogadas, derrogadas, e esquecidas. E enquanto o professor falava de todas essas mudanças e reviravoltas ninguém pensava em como aquilo se sucedeu, ninguém pensava em qual fenômeno histórico levou aquilo a acontecer. Como a aula foi muito rápida, o povo estava interessado mesmo em copiar o máximo de conteúdo que o mestre passasse. O interesse não era em saber porque as leis privilegiavam os homens, os ricos, os poderosos, os brancos. O interesse é passar no concurso de juiz. O interesse é decorar ao máximo os códigos e a constituição para depois formular alguma reflexão.
Não vejo nada de errado nisso, é uma escolha que cada um faz. Espero que todos estejam cientes da responsabilidade que é ser um Juiz, ter a faculdade de julgar. É uma profissão tortuosa, e para alguns pode até ser prazerosa, visto que na Tv atual o que reina são canais onde o público julga segundo seus critérios quem sai da casa, quem é feio, quem merece dinheiro, quem merece atenção, quem é chato...
Bom, a minha intenção nem era sair do ponto que estava falando. Eu vou viajando e depois ninguém entende nada do que eu escrevi. Mas é bom ficar pensando e extrapolando a reflexão nas mais diferentes esferas do social.
A minha questão mesmo é com relação a uma frase que o professor disse. Como todos que fazem Direito sabem, o Miguel Reale é o guru das leis, o cara mais sábio do mundo jurídico (dizem alguns juristas). O juiz que dava a aula numa certa altura resolveu contar que o irmão dele tinha estudado com o mítico e inalcançável Reale, até ai tudo bem. Logo depois ele revelou uma coisa da qual eu nem sabia, o Miguel Reale era integralista, e dos mais militantes. Pra piorar, o mestre revelou que seu irmão também era militante do integralismo, e disse isso com todo o orgulho. Se fosse em alguma época pretérita da nossa história com certeza ele iria ser fortemente vaiado. Mas, como a nossa juventude não está nem ai, ninguém se lembra do passado e hoje todo mundo é igual perante a lei, e fomos todos anistiados, então o negócio é esquecer mesmo. Pra quê lembrar de um tempo em que não tinha shopping center, sem big mac, sem globo, sem Internet, sem nada pra fazer. Por quê lembrar o tempo da vovó, deveria ser tudo muito chato mesmo, e também, nada do que acontece hoje tem referência a aquele tempo.
Certamente muita gente pensa assim, é por isso que os Severinos, os ACM, os Sarney, os Maciel, os Marinho, os Maluf, e muitos outros são, e se nada mudar vão sempre ser Os Donos do Poder. E o que é pior, seres fascistas e ridículos vão passar despercebidos por nós, vão se organizar e profetizar sua fé estúpida. Chega de ufanismos, chega de líderes, de populistas, de caudilhos, ta na hora do Brasil crescer. Mas para isso tem que haver uma ruptura com o passado, realmente acabar com esse Estado paternal, colonial, patrimonial, plutocrático e centralizador.
Chega de anticomunismo, chega de TFP. Vamos acabar com esse discurso moralista e hipócrita. Pra terminar eu deixo um pedaço de uma resenha minha sobre um livro que aborda o anticomunismo: “a todos que anseiam conhecer a verdadeira história e não somente aquela contada nos livros didáticos obsoletos. Desenterrar o passado e esmiuçá-lo é tarefa que deveria ser seguida por todos, não apenas por pesquisadores e historiadores. O que somos, o que pensamos e o que sentimos está intimamente ligado a nossa construção histórica. Os vínculos com o passado não foram quebrados: o anticomunismo ainda está presente, apesar de estar diluído no social e aparecer nas entrelinhas de nossas atitudes e convicções. Esse ranço ainda está ativo. Mesmo que já moribundo, ele permeia o inconsciente coletivo e se materializa nos nossos valores, na família, na submissão à ordem vigente, no seguimento às doutrinas religiosas e também a instituições remanescentes como a TFP.”

Severino falou, Severino avisou...


Lulinha, essa música é de uma outra conjuntura, mas bem que ela continua cada vez mais atual. Desta vez, foi o Severino que mostrou o que é possível se fazer com 300 picaretas.

Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou

Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jeton
Variações do mesmo tema sem sair do tom Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída

Pra fazer justiça uma vez na vida
Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado
Por um par se sapatos, um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês
Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão
Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição
Se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão Rádio FM e televisão

Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor

Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jeton
Variações do mesmo tema sem sair do tom
Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída

Pra fazer justiça uma vez na vida
Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado
Por um par se sapatos, um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês
Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão
Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição
Se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão Rádio FM e televisão
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor

Dedicado ao nosso querido ex-deputado João Alves que morreu em novembro do ano passado.
Coitado, ganhou tanto nas loterias e tudo por iluminação divina...

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Saiba quem é Severino Cavalcanti, que promete elevar salário dos deputados

Em seu terceiro mandato consecutivo, o pernambucano Severino José Cavalcanti Ferreira (PP), 74, construiu sua candidatura à presidência da Câmara com a promessa de elevar salários e de melhorar as condições financeiras de atuação dos colegas deputados.
Com forte apelo no chamado baixo clero, o deputado pernambucano faz parte da mesa diretora da Câmara há oito anos --mesmo período em que tenta a presidência da Casa.
Cavalcanti ficou conhecido na Câmara por lançar sua candidatura independente em outras duas ocasiões. Apesar da candidatura, o deputado sempre acabava entrando em acordo com os demais candidatos e desistia da disputa. Pelo acordo, ele apresentava a sua desistência e, em contrapartida, recebia um outro cargo na mesa.
Dessa vez, porém, Cavalcanti preferiu pagar para ver e foi até o fim com sua candidatura.
Severino Cavalcanti foi prefeito de João Alfredo, sua cidade natal, de 1964-1966, pela UDN (União Democrática Nacional), partido que liderou a oposição a Getúlio Vargas quando o presidente ainda era vivo --morreu em agosto de 1954.
Hoje no PP, Cavalcanti passou por diversos partidos após sua estréia pela UDN. Em 1966, entrou para a Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido de sustentação da ditadura militar. Em 1980, foi para o PDS e, em 1987, para o PDC (Partido Democrata Cristão), onde permaneceu até 1990, quando entrou no PL (Partido Liberal).
Ficou pouco no PL, apenas até 1992, quando foi para o PPR. Em 1994, transferiu-se para o PFL e no ano seguinte, para o PPB, onde permaneceu até 2003, quando o partido mudou o nome para PP.

O novo presidente da Câmara foi o autor da denúncia que levou o governo militar a expulsar do país o padre italiano Vito Miracapillo, em 31 de outubro de 1980.
Cavalcanti liderou o movimento contra o religioso porque ele se recusou a celebrar uma missa comemorativa à Independência. Miracapillo alegou que o país ainda não havia efetivamente conquistado a sua independência.
Ligado à ala progressista da Igreja Católica, o padre, que vivia no Brasil desde 1975, atuava em Ribeirão (a 100 km de Recife, PE), município localizado na Zona da Mata, uma das áreas de influência do deputado, à época.
O parlamentar formalizou a denúncia ao então ministro da Justiça, Ibrahim Abi Ackel, e, pouco mais de um mês depois, no dia 15 de outubro, o presidente da República, general João Baptista Figueiredo, assinou a expulsão.
O instrumento legal usado para banir Miracapillo do país foi o Estatuto do Estrangeiro, que havia sido recentemente aprovado e que proíbe os estrangeiros admitidos no Brasil de exercer atividade de natureza política (a mesma lei foi utilizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar banir do país o jornalista americano Larry Rohter, no ano passado).
O decreto de expulsão de Miracapillo foi revogado em março de 1993 pelo presidente Itamar Franco, mas o padre --que hoje, aos 60 anos, vive na Itália --ainda não pode morar no Brasil porque aguarda a anistia.
A expulsão de Miracapillo teve repercussão internacional, mas em nenhum momento o parlamentar, na época filiado ao PDS, mostrou arrependimento. Ele justificou seu ato afirmando que o padre estava desagregando os moradores de Ribeirão. (tirado da Folha online)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

uma idéia

Cesar Cardoso

- Eu tenho uma idéia. Vamos fazer um país, mas um país novo, partindo do zero. Bota aí uns 200 milhões de pessoas.
- Tá doido, é muita gente!
- Mas é pra ser muita gente mesmo.
- Mas é gente demais, não é, não?
- Tá bom, 180 milhões e não se fala mais nisso.
- Sei não. Vem cá, pra começar, como é que você vai arranjar trabalho pra essa gente toda?
- Não vai ter.
- Ué, não?
- Não. E é bom que não tenha. Tendo mais gente que trabalho você paga pouco a quem trabalha.
- Visto por esse ângulo... Mas eles vão trabalhar em quê?
- Nas empresas, é claro.
- Claro? Pra mim tá é escuro. Bota aí metade deles trabalhando, já são 90 milhões. Como que você vai fazer empresa pra essa gente toda?
- Nós não vamos fazer empresa nenhuma.
- Ué, não?
- Não. Vamos trazer as empresas de fora, que já estão prontas.
- E a troco de que elas vão topar vir pra cá?
- A troco não, a dinheiro graúdo, o dinheiro que eles vão economizar pagando muito pouquinho aos 90 milhões.
- Bom, visto por esse ângulo...
- Além do monte de matéria-prima novinha em folha que a gente vai dar pra eles.
- A gente vai dar?
- Dar é modo de dizer. Mas vai.
- Vem cá, você não acha que os 90 milhões que trabalham e ganham miséria vão acabar chiando?
- Acho.
- E fica por isso mesmo?
- Claro que não. A gente pega 2 milhões deles e faz eles ficarem milionários, com um vidão de primeiro mundo pra nenhum botar defeito.
- Você é doido! Os outros vão morrer de inveja!
- Lógico, a idéia é essa.
- Ué, não entendi.
- A inveja é a filha mais nova e mais gostosa do desejo.
- E daí?
- Daí a gente bola uns anúncios dizendo, melhor, prometendo que esse desejo está ao alcance de qualquer um.
- E eles vão acreditar?
- E quem é que não acredita num anúncio bem-feito, com calda escorrendo e a mulher mais linda dizendo que você é o tal? Hein? Hein?
- Bom, visto por esse ângulo... Mas e os outros 90 milhões que nem ganhar pouco ganham?
- O que que tem esses 90 milhões?
- Ah, esses não vão acreditar nem em anúncio bem-feito.
- Claro que acreditam, esses aí são muito mais fáceis de enganar. Eles nem foram à escola!
- Não?
- Claro que não. Se não tem emprego pra eles, pra que vai ter escola?
- Mas é tão bacana ir à escola!
- E você acha bacana ter 90 milhões de pessoas espertas, esclarecidas e sem nada pra fazer?
- É, não é uma boa idéia, não. Mas eu acho que mesmo assim eles vão aprontar.
- Vão, com certeza vão. Tem gente que vai roubar, tem gente que vai matar.
- E aí?
- Aí a gente diz que a culpa é deles. Se tem 90 milhões que estudam e se matam pra ter um pouquinhozinho de dignidade por que os outros 90 milhões são desempregados? Porque não querem nada com o batente.
- Mas eles não têm emprego nem que queiram.
- Mas, se você contar isso pra eles, meu amigo, eu sinto muito mas vou te prender e te chamar de terrorista.
- Aí já sei, mesmo eu sendo teu melhor amigo, você acaba com a minha raça.
- Eu? Não toco em um fio de cabelo seu. Deixo você fugir e anuncio que o terrorista perigoso, uma ameaça às famílias, está solto!
- Pô, eles vão querer me matar!
- Mas eu sou teu amigo, e não deixo eles te matarem. Assim esse joguinho não termina nunca.
- Mas a gente estava falando dos 90 milhões de desempregados.
- Que desempregado! Não vai ter desemprego no nosso país.
- Como não?
- Ta na cara, eles só são desempregados porque não querem trabalhar, o que faz com que eles deixem imediatamente de ser desempregados e passem a ser vagabundos. E não vão ser todos.
- Como é que você sabe que não vão?
- Essa é fácil. Religião.
- O que que a religião tem a ver com isso?
- É uma receita. Pegue um desocupado e encha a cabeça dele de religião, cria logo umas três ou quatro pra eles disputarem qual é a melhor. Além de obedientes, eles não vão pensar em fazer besteira.
- Será que não?
- Vai por mim, pra criar obedientes, a religião é melhor que o quartel. E quem não seguir uma religião qualquer nem for empregado só pode ser um marginal. E marginal, a ciência já provou que é um problema de nascença ou de código genético, área do cérebro, algo assim.
- Eu não sabia. Que ciência provou isso?
- A que a gente quiser. Afinal, quem é que vai pagar os cientistas?
- Bom, visto por esse ângulo...
- E aí, gostou da minha idéia?
- Sei não, você tem sempre idéias mirabolantes. Acho que esse troço não vai dar certo. Como é o nome dessa idéia?
- O nome? Eu pensei em Brasil.
- Brasil? Daonde você tirou isso?
- Sei lá. Acho que li em algum lugar e ficou na minha cabeça. Brasil.
- Bra-sil, não sei. Eu prefiro Zimbábue. É mais sonoro, tem mais ritmo, Zim...bá...bue!
- E por que não Nepal?
- Ih, mas você cismou com esses nomes curtinhos terminados em l...

Essa cervejaria devia ser um sucesso na época em que o nosso guru, Lévi-Strauss veio pra cá.

O que é isso companheiro?

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Estou postando um artigo do Ferréz, não sei por quê. Ele escreve para a Caros Amigos. E, como muitos que escrevem para esta revista, ele não sabe muito bem se expressar. Não que eu saiba e tal, mas há uma arrogância de alguns escritores quando se trata de sua origem social. Eles se acham os “da favela”, e escrevem com se tivéssemos culpa disso. A gente tem culpa sim, mas nós queremos o que os grandes não querem, a mudança. Outra que eu também coloco nesta categoria é a jornalista Marilene Felinto. Ela só escreve para criticar, descer o pau, literalmente. Não há um embasamento preciso daquilo que ela escreve. E, não há muita teoria em toda a revista, salvo exceções como: José Arbex Jr., Gershon Knispel, Emir Sader, Gilebrto Felisberto Vasconcellos... O caso é que, Ferréz resolveu escreveu sobre algo que penso muito nestes últimos dias. Sobre a subserviência de antigos “rebeldes” da música para o marketing e a propaganda. Acho que ele foi bem direto naquilo que está questionando.

Esses dias parei pra pensar

por Ferréz
Diminuí o ritmo, cancelei os compromissos, parei de pensar na grande mudança, comecei a ver os detalhes de tudo novamente, aumentei a observação, abaixei a cabeça e fiquei só de boa, por horas e horas.
Esses dias parei pra pensar, porque as pessoas sinceras não têm mais vez nesse nosso mundo.
E, enquanto eu mudava de canal, pulei de um comercial do Marcelo D2 junto com o Seu Jorge e o Zeca Pagodinho (que já é experiente nisso), todos doutrinando a mesma cerveja. Sabe, eu não espero mais nada de ninguém, mas, usar o hip-hop como pano de fundo, aí já é demais.
Pisamos em tanto barro pra chegar até aqui, passamos por tantas salas de aula, por tantos salões, por tantos campos de futebol, todos eles lotados de meninos e meninas que chamamos de manos e manas, e tentamos convencer que um caminho melhor é possível, tentando provar através de nossas próprias vidas que há um caminho lá fora pra todos, e ele não está ligado com os vícios e com as armadilhas do sistema.
Tudo isso é jogado fora quando se fecha um contrato de um comercial desse tipo.
E o hip-hop que tanto amamos se torna um detalhe, uma parte de trás do figurino, escondido lá atrás do Nã, Nã, Nã.
Quem é às vezes num comenta, fica só na espreita, pronto para dar o bote, tudo tem uma conseqüência, nêgo.
Assisti um filme chamado Riddick, é feito por uma ator chamado Vin Diesel, o filme é de ficção cientifica, e além do mais é estadunidense, mas nele eu vi algo que está realmente acontecendo, a grande organização que faz a lavagem cerebral, que quer a qualquer custo todos idolatrando somente um.
A unidade total.
Notícias quentes, os Estados Unidos estudam atacar o Irã, e todo mundo comentando sobre o Big Brother.
Eu não sei o que é pior, maldita hora que tomei a pílula da verdade, maldita hora que me tornei um “diferente”.
Vejo meninos todos os dias, não olho mais para os adultos, eles me dão nojo, olho para as crianças, vejo eles todos os dias, repito o gesto que faziam comigo quando era pequeno, toda vez passo a mão na cabeça de um, lhe dou um pequeno afago.
Passo pela viela e escuto:– E aí, rapaz!
E de todos que me cumprimentam sinto mais verdade nos pequenos, eles me olham como um cara legal, não como o cara que viram na TV, nem como o cara que fez um livro e saiu no jornal, eles não, eles são um dos meus.
Na minha mesa tem alguns brinquedos, todos eles ganhados, quando um menino que não tem quase nada te dá um brinquedo de presente é porque você conquistou algo, e isso é muito melhor do que um contrato, eu sei que ele apanha do pai, eu sei que a mãe dele também apanha do pai, e eu sei que o pai dele bebe pinga e cerveja.
Grupos que se diziam politizados, como o Rappa, que tem na linha de frente o vocalista Falcão, dançando e cantando com uma latinha na mão, aí vai tudo por água abaixo, e tiozão ninguém tá julgando ninguém, mas as coisas passam batido, não desapercebido.
Porque aqui na minha quebrada isso é pecado, porque aqui a conseqüência do marketing atinge seu nível mais nojento e grotesco.
Eu curti o final de ano na laje do meu amigo Cacá, dentro da favela Santiago, os fogos eu vi de pertinho, aí tinha o Dinoitinha, um menino de 6 anos, ele não sobe nessa laje por medo da mãe do Cacá, ele ficou me chamando, eu desci, e pensei que ele tava querendo beber alguma coisa, então levei um guaraná pra ele, quando estendi a mão para dar ele disse:
– Isso não, eu quero cerveja.
Acabou, não querendo ser moralista, mas acabou, tá faltando algo aqui, tá faltando reajustar as coisas, eu caminho o dia inteiro, e tento não ver os erros, mas não consigo, tentar evitar não se parece comigo, os sofredores que são amigos se parecem comigo.
Os pagamentos da prefeitura foram cortados, o Terminal Capelinha tá podre, dá nojo tomar ônibus lá, e eu lembro da fala de uma conhecida minha daqui que gritou:– Votar na Marta? Cê tá loco, vou votar no Serra que é mais gostoso, que é homem.
Esses dias, uma outra mulher daqui parou ela e perguntou como ela se sentia vendo o Serra já entrando assim, ela disse:
– Deixa o povo se fuder, eu num vou me fuder sozinha mesmo.
E assim vai indo, a corrida pelo material escolar começou, ninguém acredita que ele vai dar continuidade nos projetos e a Folha me ligou:
– O que você acha da Marta ter tirado dez dias para passar férias em Paris?
Eu respondi na lata:
– É bom, para o povo se acostumar a ficar sem prefeito, pois isso será por quatro anos.
A pena disso tudo? Os muleques. Eles vão pagar também, embora não saibam nada de política, mas Carnaval tá chegando, né? Pra que se preocupá cum essas coisas.
E tem madame ajudando as vítimas do maremoto.
– Num tenho dinheiro, não, menino, num precisa olhar o carro, que tem seguro.
– Senhor guarda, olha aquele menino ali, eu vim fazer um depósito para as vítimas do maremoto, e acho que ele está me esperando para efetuar um assalto.
“É apenas uma criança, minha tia”, foi o que passou pela cabeça do guarda, mas ele foi lá e mandou o muleque sair fora.
É tanta fita que você nem acredita, apreenderam o documento do carro do Bolha, e lhe deram uma pá de multa, motivo? Acharam a Literatura Marginal 1 no porta-malas dele, eles folhearam e viram o desenho onde tem um PM com chifre e rabo, aí já viu, né, inventaram de tudo para multar.
É tanta coisa contra, mas na real a atitude dos verdadeiros não se compra, meu manifesto NÃO é com a lata na boca.
Ferréz é escritor, autor de Capão Pecado (Labortexto) e Manual do Ódio (Objetiva).

domingo, fevereiro 13, 2005


Este é o quarto da consciência, que nem sempre é usado para isso. O ócio impera neste lugar, mas também reina o apavoro dos trabalhos de última hora e dos estudos exaustivos.
Ele era um lugar inóspito e caiu no ostracismo, foi aí que tivemos a idéia de comprar um computador. Pronto. Hoje passo boa parte do tempo neste ambiente, muitas vezes cativando meu ócio.

A barata do Peixe. É por isso que eu adoro lá, não há hipocrisia, se aparece uma barata a gente joga uma calabresa pra ela curtir também.

sábado, fevereiro 12, 2005

Réquiem ao PT

Decididamente , não. Mas o processo de acomodação do PT às exigências da ordem não ocorreu sem fortes embates dentro do partido. Decididos a chegar ao governo a qualquer custo, os atuais dirigentes do partido esmagaram todos os que se colocaram diante de seu caminho. A vitória do pragmatismo desfigurou o partido. As carreiras individuais sobrepuseram-se ao projeto coletivo. A organização do povo, que constituía a essência da vida partidária, foi abandonada, e o PT virou uma simples máquina eleitoral, com todos os vícios da política burguesa.
Essa guinada à direita é ainda mais grave se lembrarmos que o partido foi forjado nas lutas contra a opressão política e a exploração econômica, tornando-se um importante instrumento do povo brasileiro na sua caminhada pela construção de uma sociedade justa e democrática.
Impulsionado por sua aguerrida militância, o PT cresceu e se consolidou como a principal força política do Brasil, tornando-se o grande portador do sentimento anticapitalista que brota das terríveis contradições de uma sociedade em crise permanente. É inaceitável, portanto, que no seu governo não haja o menor vestígio de transformação social.
Seguindo à risca as recomendações do FMI, o governo Lula aprofundou o neoliberalismo, transformando o Brasil num paraíso dos grandes negócios. Sob a consigna "tudo pelo capital, tudo para o capital", aos endinheirados o governo oferece vantagens tangíveis: megasuperávits primários, populismo cambial, juros estratosféricos, arrocho salarial, reforma da Previdência, gigantescos saldos comerciais, Lei de Falências, independência do Banco Central, Prouni, Parceria Público-Privada, liberdade para os transgênicos, cumplicidade com os "contratos espúrios" que sangram o erário e espoliam a população, opção preferencial pelo agrobusiness, reforma trabalhista.
Convertido à filosofia do Banco Mundial, o governo do PT abandonou toda veleidade de combater as desigualdades e eliminar a pobreza. Aderindo à lógica das políticas compensatórias, que atuam sobre os efeitos dos problemas sociais e não sobre as suas causas, contenta-se em minorar, dentro das limitadas possibilidades orçamentárias, o sofrimento do povo. Sob a palavra de ordem "tenham paciência e confiem em mim", aos descamisados Lula faz promessas vãs. Sem qualquer fundamento, ressuscita o "mito do crescimento" -há muito desmascarado por Celso Furtado e Florestan Fernandes. Com uma mão, retira direitos sociais, e, com a outra, distribui fortuitamente as migalhas da arrecadação fiscal, anunciando um punhado de programas sociais esquálidos, mal definidos e desarticulados (Bolsa Família, Fome Zero, Programa de Crédito Fundiário (ex-Banco da Terra), Prouni, Farmácia Popular, etc).A política externa, apresentada como a frente mais ousada da administração petista, mal dissimula sua subserviência aos cânones da ordem global. Nos fóruns internacionais, Lula faz bravata e cobra coerência neoliberal aos países ricos. Nos bastidores da diplomacia, em troca de um eventual assento no Conselho de Segurança da ONU, negocia o envio de tropas ao Haiti para cumprir o triste papel de gendarme do intervencionismo norte-americano.
A chegada de Lula ao Planalto iniciou o último ato do desmonte. Em nome de uma suposta "razão petista de Estado", começou um vale-tudo: alianças políticas espúrias, massificação das filiações, acordos eleitorais com oligarquias retrógradas e corruptas, campanhas eleitorais milionárias, atropelos ao estatuto do partido, censura e expurgos de parlamentares, cooptação e intimidação dos militantes, absoluta subordinação do partido aos interesses do Planalto. Enfim, o PT completa seus 25 anos vivendo uma grave crise de degeneração política e moral.A ruptura com a tradição de luta em defesa dos trabalhadores obrigou a direção a sufocar o debate democrático. É inútil continuar lutando nas instâncias do partido. O PT é irrecuperável. O tempo do PT acabou, mas o das transformações sociais não. A retomada das lutas populares é mais necessária do que nunca, pois, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nada foi feito para enfrentar os problemas responsáveis pelas mazelas do povo. Na realidade, o Brasil entra na terceira década de estagnação econômica e grave crise social.Estar livre das amarras do PT é condição necessária para combater o ilusionismo lulista e derrotar a ofensiva neoliberal que acelera o processo de reversão neocolonial e faz avançar a barbárie. Estar fora do PT é condição necessária para começarmos, em franco debate com todas as forças comprometidas com a mudança social, a árdua tarefa de reorganizar a esquerda brasileira.

Plinio Soares de Arruda Sampaio Jr., 47, doutor em teoria econômica, é professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). É um dos organizadores do manifesto "Momento de Ruptura", que conclama a militância petista a abandonar o partido.