segunda-feira, março 12, 2012

A segunda morte do flâneur

Outro dia, eu revirava uma pilha de antigos artigos sobre o futuro da internet quando um pequeno e obscuro ensaio de 1998 – publicado num site chamado Ceramics Today, por incrível que pareça – chamou minha atenção. Celebrando o “flâneur cibernético”, o texto falava de um futuro digital brilhante, cheio de mistério e espontaneidade, que aguardava este intrigante usuário da rede. Essa visão do amanhã parecia inevitável numa época na qual “o que a cidade e a rua representaram para o flâneur, a internet e a superestrada da informação passaram a representar para o flâneur cibernético”.
Curioso, decidi desvendar o que ocorreu com o flâneur online. Eles são poucos e difíceis de encontrar, enquanto a própria prática de flanar na rede parece estar em desacordo com o mundo das mídias sociais. O que foi que deu errado? Será que devemos nos preocupar? Conhecer a história do flanar é uma boa maneira de começar a responder estas perguntas. Graças ao poeta francês Charles Baudelaire e ao crítico alemão Walter Benjamin, que viam no flâneur um emblema da modernidade, a figura dele (tratava-se em geral de homens) é associada à Paris do século 19. O flâneur passeava lentamente por ruas e galerias – animadas fileiras de lojas cobertas por telhados de vidro – para cultivar o que Honoré de Balzac chamou de “gastronomia do olhar”.
Embora não ocultasse deliberadamente sua identidade, o flâneur preferia passear incógnito. “A arte que o flâneur domina é a de observar sem ser flagrado”, destacou certa vez o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. O flâneur não era antissocial – ele precisava das multidões para desenvolver sua atividade –, mas não se misturava aos demais, preferindo saborear a solidão. E tinha para si todo o tempo do mundo: falava-se em flâneurs que levavam tartarugas para passear.
Ele entrava nas galerias de lojas, mas não cedia ao consumismo; a galeria era antes um atalho para uma rica experiência sensorial – e só depois um templo do consumo. O objetivo era observar, banhar-se na multidão, absorvendo ruídos, o caos, a heterogeneidade, o cosmopolitismo. Ocasionalmente, narrava o que via – investigando tanto a própria intimidade quanto o mundo exterior – na forma de ensaios curtos para jornais diários.
É fácil ver o motivo pelo qual o flanar online pareceu tão atraente nos primeiros dias da web. A ideia de explorar o ciberespaço como território virgem, ainda não colonizado por governos e empresas, era romântica; este romantismo aparecia até no nome dos primeiros browsers (o Explorador da Internet e o Navegante da Paisagem da Rede).
Comunidades como GeoCities e Tripod foram as galerias digitais daquele período, lidando com aquilo que havia de mais obscuro e mais peculiar, sem que houvesse hierarquia organizando-as por popularidade ou valor comercial. Naquele então, o eBay era mais esquisito do que a maioria dos mercados de pulgas; um passeio por suas prateleiras virtuais era mais agradável do que comprar de fato algum dos artigos oferecidos no site.
Em meados da década de 90, parecia que a internet poderia levar a um inesperado renascimento do flanar. Mas quem sonhava com uma web que serviria como refúgio de boêmios hedonistas e idiossincráticos, provavelmente não sabia a causa mortis do flâneur original.
Avenida. Na segunda metade do século 19, Paris passou por profundas mudanças. As reformas na arquitetura e no planejamento urbano promovidas pelo barão Haussmann no governo de Napoleão III foram particularmente importantes: a demolição de estreitas ruas medievais, o estabelecimento de praças amplas (construídas em parte para melhorar a higiene e em parte para impedir barricadas revolucionárias), a proliferação da iluminação de rua a gás e as crescentes vantagens de passar o tempo em ambientes fechados transformaram radicalmente a cidade.
A tecnologia e as mudanças sociais também tiveram seus efeitos. O tráfego de carros na rua fez de passeios contemplativos uma atividade perigosa. Galerias foram substituídas por lojas de departamentos. A racionalização da vida urbana conduziu os flâneurs ao subterrâneo, obrigando-os a se refugiar num tipo de flanar interno, cujo apogeu é o exílio autoimposto de Marcel Proust em seu quarto (situado, voilà, no bulevar Haussmann).
Algo parecido aconteceu na internet. Transcendendo sua brincalhona identidade original, a rede não é mais para passear – virou lugar de cumprir tarefas. Ninguém mais navega. A popularidade dos aplicativos – que conduzem àquilo que queremos sem que seja necessário abrir o browser, faz do flanar online algo cada vez menos provável.
O fato de uma parte tão preponderante da atividade contemporânea na rede envolver compras não ajuda em nada. Passear pelo Groupon não é tão divertido quanto caminhar por uma galeria, eletrônica ou não.
O ritmo da internet mudou. Dez anos atrás, um conceito como o tempo real, em que cada tweet e atualização de status é automaticamente indexada, atualizada e respondida, era impensável. Hoje, este é o termo do momento no Vale do Silício. Não se trata de algo surpreendente: as pessoas gostam de velocidade e eficiência.
Mas as páginas de outrora, que abriam lentamente ao som de estranhos ruídos do modem, tinham um inusitado lado poético. Ocasionalmente, a lentidão chegava a nos alertar para o fato de que estávamos sentados diante de um computador. Bem, esta tartaruga não existe mais.
Enquanto isso, o Google, ao tentar de organizar a informação do mundo, vem tornando desnecessária a visita a sites individuais assim como, gerações atrás, o catálogo da Sears tornou desnecessária a ida a lojas físicas. A atual ambição do Google é responder nossas perguntas – sobre o clima, as taxas de câmbio, o jogo de ontem – ele mesmo, sem levar a nenhum outro site. Digite a pergunta, e a resposta aparece no topo da lista de resultados.
(O impacto de atalhos deste tipo nas buscas não interessa aqui; quem imagina a busca por informações em termos tão puramente instrumentais, enxergando a internet como pouco mais do que um gigante FAQ, dificilmente criará espaços que convidem ao flanar online.)
Novo barão. Mas, se há um barão Haussmann na internet hoje, ele é o Facebook. Tudo aquilo que torna possível o flanar online – solidão e individualidade, anonimato e opacidade, mistério e ambivalência, curiosidade e o desejo de correr riscos – está sob o ataque desta empresa. E não estamos falando de uma empresa qualquer: com 845 milhões de usuários ativos espalhados pelo mundo, dá para dizer que aonde quer que o Facebook vá, a internet irá atrás.
É fácil culpar o modelo de negócios do Facebook (a perda do anonimato permite que ele lucre mais com os anunciantes), mas o problema é mais embaixo. O Facebook parece acreditar que os peculiares elementos que tornam possível o flanar devem ser eliminados. “Queremos que tudo seja social”, disse Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, em entrevista ao programa de TV Charlie Rose alguns meses atrás. Na prática, isso foi explicado pelo chefe dela, Mark Zuckerberg, no mesmo programa. “Preferimos ir ao cinema sozinhos ou com amigos?”, perguntou, respondendo imediatamente: “Com amigos”.
As implicações são claras: o Facebook quer construir uma internet na qual ver filmes, ouvir música, ler livros e até mesmo navegar sejam atividades desempenhadas não só abertamente como social e colaborativamente. Por meio de parcerias com empresas como Spotify e Netflix, ele cria poderosos incentivos que fariam os usuários adotarem ansiosos a tirania do “social”, a tal ponto que desempenhar qualquer uma dessas atividades sozinho seria impossível.
Ora, se Zuckerberg de fato acredita no que disse sobre cinema, há uma longa lista de filmes que eu gostaria de sugerir aos amigos dele. Por que ele não leva a turma para ver Satantango, sete horas de filme de arte branco e preto do húngaro Bela Tarr? A resposta: se fizéssemos uma pesquisa de opinião entre os amigos dele, ou um determinado grupo numeroso de pessoas, Satantango seria quase sempre derrotado por um título que pode não ser o filme preferido por todos, mas que também não vai incomodar ninguém. Eis um exemplo da tirania do social.
Além disso, não parece óbvio que consumir sozinho o que a arte tem de melhor é uma experiência qualitativamente diferente de consumi-lo socialmente? Qual é o motivo de tamanho medo da solidão? Para Zuckerberg, “é melhor estar conectado às pessoas. A vida fica mais rica”. É esta ideia de que a experiência individual seria forma inferior à coletiva que subjaz no “compartilhamento sem atrito” do Facebook – a ideia de que, de agora em diante, teremos de nos preocupar só com o que não queremos compartilhar; tudo o mais será compartilhado automaticamente.
Para tanto, o Facebook encoraja seus parceiros a construir aplicativos que compartilham automaticamente tudo o que fizermos: os textos que lemos, as músicas que ouvimos, os vídeos que assistimos. Nem é preciso dizer que o compartilhamento sem atrito também ajuda o Facebook a nos vender aos anunciantes, ajudando esses anunciantes a vender seus produtos para nós.
Isto poderia até valer a pena se o compartilhamento sem atrito incrementasse a experiência na rede; afinal, até mesmo o flâneur do século 19 enfrentou cartazes de anúncios nas suas caminhadas. Mas uma coisa é encontrar uma matéria interessante e compartilhá-la com os amigos. Outra bem diferente é inundar os amigos com tudo o que passa pelo seu browser ou app, na esperança de que eles escolham algo interessante pelo caminho.
Pior: quando esse sistema de compartilhamento sem atrito for plenamente operacional, é provável todas as notícias sejam lidas no Facebook, sem que seja preciso sair dos domínios do site para visitar o restante da rede. Vários veículos jornalísticos, como Guardian e Washington Post, já têm aplicativos s que permitem aos usuários ler artigos sem precisar visitar as páginas do veículo.
Como explicou o popular blogueiro Robert Scoble, que escreve sobre tecnologia, num texto recente a respeito do compartilhamento sem atrito, “neste novo mundo, basta abrir o Facebook e tudo o que lhe interessa será exibido sequencialmente na tela”.
É justamente isso que está matando o flanar online: o traço que marca o passeio do flâneur é o fato de ele não saber o que é que lhe interessa mais. Nas palavras do autor alemão Franz Hessel, que colaborava ocasionalmente com Walter Benjamin, “para flanar, é preciso que não haja nada muito definido na cabeça”. Comparado ao universo determinista do Facebook, até o pouco criativo slogan da Microsoft nos anos 90 – “Where do you want to go today?”, ou “Aonde você quer ir hoje?” – soa subversivo e emocionante.
Quem faria essa pergunta tola na era do Facebook? De acordo com Benjamin, a triste figura do homem-sanduíche foi a última encarnação do flâneur. Num certo sentido, todos nós viramos homens-sanduíche, caminhando pelas ruas do Facebook com anúncios invisíveis pendendo de nossas identidades eletrônicas. A única diferença é que a natureza digital da informação permitiu que consumíssemos alegremente canções, filmes e livros ao mesmo tempo em que os anunciamos, desavisados. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Evgeny Morozov é autor do livro The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom (A desilusão da rede: o lado obscuro da liberdade online)

sexta-feira, março 09, 2012

"Normal é a morte"

A lógica da história é tão destrutiva quanto os homens que ela engendra; para onde quer que tenda sua força de gravidade, ela reproduz o equivalente da calamidade passada. Normal é a morte.
Theodor W. Adorno (1903-1969). Minima Moralia.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

"As idéias fora do lugar"

A vida e obra de Sérgio Buarque de Hollanda, um dos principais intelectuais do Brasil no século XX e autor dos livros "Raízes do Brasil" e "Visões do Paraíso". Dividido em duas partes, o filme mostra desde o cotidiano de Sérgio, incluindo o modo como interagia com a família e amigos, até um panorama cronológico de sua época, em que lidou com o nazismo, os anos de Getúlio Vargas no poder e a ascensão do movimento modernista no Brasil.
O filme Raízes do Brasil é um documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos a respeito da vida e da obra do escritor e jornalista Sérgio Buarque de Holanda.
O lançamento do longa-metragem no Brasil, em 2004, foi uma homenagem ao centenário de nascimento de Sérgio Buarque de Holanda (1902). O documentário inclui imagens do arquivo pessoal do escritor e cenas históricas (século XX).

A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos ou imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem. Assim, antes de perguntar até que ponto poderá alcançar bom êxito a tentativa, caberia averiguar até onde temos podido representar aquelas formas de convívio, instituições e idéias de que somos herdeiros.
Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Raízes do Brasil.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

O consumo como fundamentalismo


"É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições. E eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro".
 Jean Paul Sartre, 1963, Prefácio de Os condenados da Terra, de Frantz Fanon

O mundo global visto do lado de cá, documentário do cineasta brasileiro Sílvio Tendler, discute os problemas da globalização sob a perspectiva das periferias (seja o terceiro mundo, seja comunidades carentes). O filme é conduzido por uma entrevista com o geógrafo e intelectual baiano Milton Santos, gravada quatro meses antes de sua morte.
O cineasta conheceu Milton Santos em 1995, e desde então tinha planos para filmar o geógrafo. Os anos foram passando e, somente em 2001, Tendler realizou o que seria a última entrevista de Milton (que viria a morrer cinco meses depois). Baseado nesse primeiro ponto de partida o documentário procura explicar, ou até mesmo elucidar, essa tal Globalização da qual tanto ouvimos falar.
O documentário percorre algumas trilhas desses caminhos apontados por Milton, vemos movimentos na Bolívia, na França, México e chegamos ao Brasil, na periferia de Brasília. Em Ceilândia, a câmera nos mostra pessoas dispostas a mudar as manchetes dos jornais que só falam da comunidade para retratar a violência local. Adirley Queiroz, ex-jogador de futebol, hoje cineasta, estudou os textos de Milton e procura novos caminhos para fugir do 'sistema' ou do Globaritarismo -- termo criado por Milton Santos para designar a nova ordem mundial.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

O turista e a modernidade líquida

[...] em nossa sociedade pós-moderna, estamos todos - de uma forma oude outra, no corpo ou no espírito, aqui e agora ou no futuro antecipado, de bom ou de mau grado - em movimento; nenhum de nós pode estar certo/a de que adquiriu o direito a algum lugar uma vez por todas, e ninguém acha que sua permanência num lugar, para sempre, é uma perspectiva provável. Onde quer que nos aconteça parar estamos, pelo menos, parcialmente deslocados ou fora do lugar.
O mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelo de produtos disponíveis projetados para imediata obsolescência. Num mundo como esse, as identidades podem ser adotadas e descartadas como uma troca de roupa. O horror da nova situação é que todo diligente trabalho de construção pode mostrar-se inútil; e o fascínio da nova situação, por outro lado, se acha no fato de não estar comprometida por experiências passadas, de nunca ser irrevogavelmente anulada, sempre "mantendo as opções abertas". Mas o horror e o fascínio, de igual modo, fazem a vida como peregrinação dificilmente factível como uma estratégia e improvável de ser escolhida como tal. Não por muitos, afinal de contas. E não com grande probabilidade de sucesso.
No jogo da vida dos homens e mulheres pós-modernos, as regras do jogo não param de mudar no curo da disputa. A estratégia sensível, portanto, é manter curto cada jogo – de modo que um jogo da vida sensatamente disputado requer a desintegração de um jogo que tudo abarca, com prêmios enormes e dispendiosos e não demasiadamente preciosos. Para novamente citar Chistopher Lasch, a determinação de viver um dia de cada vez, e de retratar a vida diária como uma sucessão de emergências menores, se tornaram os princípios normativos de toda estratégia de vida racional.
Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a “se fixar” de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escala presente possa parecer. Não se ligar a vida a uma vocação apenas. Não jurar coerência e lealdade a nada ou a ninguém. Não controlar o futuro, mas se recusar a empenhá-lo: tomar cuidado para que as conseqüências do jogo não sobrevivam ao próprio jogo e para renunciar à responsabilidade pelo que produzem tais conseqüências. Proibir o passado de se relacionar com o presente. Em suma, cortar o presente nas duas extremidades, separar o presente da história. Abolir o tempo em qualquer outra forma que não a de um ajuntamento solto, ou uma seqüência arbitrária, de momentos presentes: aplanar o fluxo do tempo num presente contínuo.
Adequação – a capacidade de se mover rapidamente onde a ação se acha e estar pronto a assimilar experiências quando elas chegam – tem precedência sobre saúde, essa idéia do padrão de normalidade e de conservar tal padrão estável, incólume. Toda demora, também a “demora da satisfação”, perde seu significado: não há nenhum tempo como seta legado para medi-la.
E desse modo a dificuldade já não e descobrir, inventar, construir, convocar (ou mesmo comprar) uma identidade, mas como impedi-la de ser demasiadamente firme e de aderir depressa demais ao corpo.
A figura do turista é a epítome dessa evitação. De fato, os turistas que valem o que comem são os mestres supremos da arte de misturar os sólidos e desprender o fixo. Antes e acima de tudo, eles realizam a façanha de não pertencer ao lugar que podem estar visitando: é deles o milagre de estar dentro e fora do lugar ao mesmo tempo. O turista guarda sua distância, e veda a distância de se reduzir à proximidade.
Viajando despreocupadamente, com apenas uns poucos pertences necessários à garantia contra a inclemência dos lugares estrangeiros, os turistas podem sair de novo a caminho, de uma hora para a outra, logo que as coisas ameaçam escapar de controle, ou quando seu potencial de diversão parece ter-se exaurido, ou quando aventuras ainda mais excitantes acenam de longe. O nome do é mobilidade: a pessoa deve poder mudar quando as necessidades impelem, ou os sonhos o solicitam.
A essa aptidão os turistas dão o nome de liberdade, autonomia ou independência, e prezam isso mais do que qualquer outra coisa, uma vez que é a conditio sine qua non de tudo o mais que seus corações desejam. Este é também o significado de sua exigência mais freqüentemente ouvida: “Preciso de mais espaço”. Ou seja, a ninguém será permitido discutir o meu direito de sair do espaço em que atualmente estou trancado.
Por mais longo que cada intervalo da viagem possa mostrar-se no fim, é vivido, em cada momento, como uma estada de pernoite. Só as mais superficiais das raízes, se tanto, são lançadas. Só relações epidérmicas, se tanto, são iniciadas com as pessoas dos lugares. Acima de tudo, não há nenhum comprometimento do futuro, nenhuma incursão em obrigações de longo prazo, nenhuma admissão de alguma coisa que aconteça hoje para se ligar ao amanhã. As pessoas do lugar, afinal, não são as zeladoras de estalagens do meio do caminho, que os peregrinos tinham de visitar outra vez e outra vez, a cada um efeito peregrinação: as pessoas do lugar, com que os turistas deparam, eles literalmente “tropeçam com” elas acidentalmente, como um efeito colateral do empurrão de ontem, que antes de ontem ainda não era imaginado ou antecipado, e que podia facilmente ser diferente do que era, e levar o turista para algum outro lugar.
Tudo isso oferece ao turista a sensação recompensadora de “estar sob controle”. Não é este, para estar seguro, um controle no sentido agora antiquado, fora de moda, e heróico, de quem grava a sua forma no mundo, refazendo o mundo em sua própria imagem, ou querendo-o e conservando-o como tal. Este não é senão o que se pode chamar o “controle situacional” – a aptidão para escolher onde e com que partes do mundo “interfacear”, e quando desligar a conexão. Ligar e desligar não deixam no mundo qualquer marca duradoura: na verdade, graças à facilidade com que as chaves funcionam, o mundo (como o turista o conhece) parece infinitamente flexível, dócil e esboroável. É improvável manter-se qualquer configuração por muito tempo.
Zygmunt Bauman (1925- ). O mal-estar na pós-modernidade.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Verdade: frágil e poderosa

O homem é apensa um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água são suficientes para matá-los. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que aquilo que o mata, porque ele sabe que morre e conhece a vantagem do universo sobre ele.; mas disso o universo nada sabe. Toda nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. É a partir dele que nos devemos elevar e não do espaço e do tempo, que não saberíamos ocupar.
Blaise Pascal (1623-1662). Pensamentos.

quinta-feira, novembro 24, 2011

O documentário sobre Florestan Fernandes

STEFANELLI, Roberto Reis (direção, edição e pesquisa). Filme Florestan Fernandes: o mestre. Documentário, TV Câmara, fevereiro de 2004,

Florestan Fernandes ingressou aos 18 anos, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1947, formando-se em ciências sociais. Doutorou-se em 1951 e foi assistente catedrático, livre docente e professor titular na cadeira de sociologia, substituindo o sociólogo e professor francês Roger Bastide em caráter interino até 1964, ano em que se efetivou na cátedra. O nome de Florestan Fernandes está obrigatoriamente associado à pesquisa sociológica brasileira. Sociólogo e professor universitário com mais de cinqüenta obras publicadas, transformou as ciências sociais no Brasil e estabeleceu um novo estilo de pensamento. Foi mestre de sociólogos renomados, como Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Cassado com base no AI-5, em 1969, deixou o país e lecionou nas universidades de Columbia (EUA), Toronto (Canadá) e Yale (EUA). Retornou ao Brasil em 1972 e passou a lecionar na PUC-SP. Não procurou reintegra-se à USP, da qual recebeu o título de professor emérito em dezembro de 1985. Em 1986 filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) sendo um de seus fundadores. Pelo PT exerceu dois mandatos de deputado federal (1987-1991 e 1991-1995). Faleceu em São Paulo no dia 10 de agosto de 1995.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Depressão, business e a monotonia do tempo

Analisar o aumento significativo das depressões como sintoma do mal-estar social no século XXI significa dizer que o sofrimento dos depressivos funciona como sinal de alarme contra aquilo que faz água na grande nau da sociedade maniáca em que vivemos. Que muitas vezes as simples manifestações de tristeza sejam entendidas (e medicadas) como depressões graves só faz confirmar essa ideia. A tristeza, os desânimos, os simples manifestações da dor de viver parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado a todos os pequenos bens em oferta no mercado.
Do direito à saúde e à alegria passamos à obrigação de ser felizes, escreve Danièle Silvestre. A tristeza é vista como uma deformidade, um defeito moral, "cuja redução química é confiada ao médico ou ao psi". Ao patologizar a tristeza, perde-se um importante saber sobre a dor de viver. Aos que sofreram o abalo de uma morte importante, de uma doença, de um acidente grave, a medicalização da tristeza ou do luto rouba ao sujeito o tempo necessário para superar o abalo e construir novas referências, e até mesmo outras formas de vida, mais compatíveis com a perda ou com a eventual incapacitação.
(...)
Em muitos debates de que tenho participado, colegas psiquiatras têm apontado um elemento importante que pode falsear os números sobre o aumento das depressões nos países industrializados: as novas estratégias de venda dos laboratórios farmacêuticos já não se limitam à divulgação dos remédios lançados no mercado. A ênfase dos panfletos distribuídos nos consultórios de médicos e psiquiatras recai sobre os novos critérios de diagnóstico das depressões, de modo a incluir um número crescente de manifestações de tristeza, luto, irritabilidade e outras expressões de conflito subjetivo entre os "transtornos" indicativos de depressão a serem tratados por emprego de medicamentos.
Assistimos, assim, a uma patologização generalizada da vida subjetiva, sujo efeito paradoxal é a produção de um horizonte cada vez mais depressivo. Embora o aperfeiçoamento das novas medicações ofereça um auxílio precioso ao analista no tratamento das depressões, a psicanálise não pode nem deve ser excluída dessa abordagem. Onde quer que se encontre o sujeito, encolhido pela depressão, é lá que o analista deve ir buscar a expressão significante de seu sofrimento. Não importa quanto ele demore até ter vontade ou forças para dirigir a palavra ao analista. O projeto pseudocientífico de subtrair o sujeito - sujeito de desejo, de conflito, de dor, de falta - a fim de proporcionar ao cliente uma vida sem perturbações acaba por produzir exatamente o contrário: vidas vazias de sentido, de criatividade e de valor. Vidas em que a exclusão medicamentosa das expressões da dor de viver acaba por inibir, ou tornar supérflua, a riqueza do trabalho psíquico - o único capaz de tornar suportável e conferir algum sentido à dor inevitável diante da finitude, do desamparo, da solidão humana.
"a maior parte dos lucros da indústria farmacêutica depende de uns poucos remédios para os quais sempre se buscam novos usos. Se tais novos usos não surgem por meio de experimentos, recorre-se à publicidade de certos males - ou seja, a convencer as massas de que alguns estados de ânimo são, na verdade, doenças que requerem tratamento. O objetivo é criar demanda espontânea pela cura milagrosa que a empresa pode oferecer" (Frederick Crews)
À aparente eficiência dos tratamentos medicamentosos soma-se a paixão pela segurança que caracteriza a sociedade contemporânea, para a qual a ideia de que a vida seja um percurso pontuado por riscos inevitáveis produz uma espécie de escândalo. A aliança entre os ideais de precisão científica e de eficiência econômica produz uma versão fantasiosa da vida humana como um investimento no mercado de futuros, cujo sentido depende de se conseguir garantir, de antemão, os ganhos que tal investimento deverá render.
Maria Rita Kehl. O tempo e o cão.

terça-feira, novembro 08, 2011

Impressões de um jovem 'burguês'

Um dia andei por Manchester com um destes cavalheiros da classe média. Falei-lhe das desgraçadas favelas insalubres e chamei-lhe a atenção para a repulsiva condição daquela parte da cidade em que moravam os trabalhadores fabris. Declarei nunca ter visto uma cidade tão mal construída em minha vida. Ele ouviu-me pacientemente e na esquina da rua onde nos separamos comentou: "E ainda assim, ganham-se fortunas aqui. Bom dia, senhor!"
Friedrich Engels (1820-1895). A situação da classe trabalhadora na Inglaterra.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Os "dez bons livros" de Freud

Em 1° de novembro de 1906, Sigmund Freud respondeu a uma carta do editor e livreiro Hugo Heller. Heller (1870-1923) era proprietário de uma livraria vienense, ponto de encontro de artistas e intelectuais. Em sua carta, enviada a diversos escritores, artistas e cientistas, Heller solicitava que o destinatário indicasse “dez bons livros”.
Freud respondeu o seguinte:
“O sr. deseja que eu lhe indique “dez bons livros”, e recusa-se a acrescentar uma palavra de explicações. Com isso, o sr. me encarrega não apenas de escolher os livros, mas de interpretar seu pedido. Habituado a prestar atenção a pequenos indícios, devo ater-me à formulação literal de sua enigmática pergunta. O sr. não disse “as dez maiores obras da literatura mundial”, caso em que, como tanto outros, eu teria que responder com Homero, com as tragédias de Sófocles, com o Fausto de Goethe, com o Hamlet de Shakespeare, com MacBeth etc. Não se trata, tampouco, dos dez livros mais significativos, entre os quais teriam que figurar os trabalhos científicos de Copérnico, do velho médico Johann Weier, sobre a feitiçaria, de Darwin, sobre a origem do homem, e muitos outros. O sr. não indagou sequer sobre os meus livros favoritos, entre os quais eu não teria esquecido o Paradise Lost de Milton e o Lazarus de Heine. A meu ver, seu texto põe um acento especial na palavra bons, e com esse predicado o sr. quer caracterizar os livros com que nos relacionamos do mesmo modo que com bons amigos, aos quais devemos algo do nosso conhecimento da vida e da nossa concepção do mundo, cujo contato nos proporcionou prazer, e que elogiamos diante de outros, sem que essa relação suscite um temor reverencial, uma sensação da própria insignificância diante da grandeza alheia. Indico-lhe portanto esses “bons livros”, que me vieram à mente sem muita reflexão.

Multatuli: Cartas e obras
Kipling: O livro da jângal
Anatole France: Sobre a pedra branca
Zola: Fecundidade
Merejkovski: Leonardo da Vinci
Gottfried Keller: A gente de Seldwyla
Conrad Ferdinand Meyer: Os últimos dias de Hutten
Macauley: Ensaios
Gomperz: Pensadores gregos
Mark Twain: Esboços


Não sei o que o sr. pensa fazer com essa lista. A mim mesmo, ela me parece estranha, a tal ponto que não posso abandoná-la sem acrescentar meus comentários. Não quero examinar por que esses e não outros “bons” livros, mas apenas esclarecer a relação entre o autor e sua obra. Nem sempre essa relação é tão óbvia como a que existe entre Kipling e Jungle Books, por exemplo. Na maioria dos casos, eu teria podido selecionar outra obra do mesmo autor, como por exemplo o Docteur Pascal, de Zola. O mesmo homem que nos presenteou com um bom livro muitas vezes nos deu também de presente vários bons livros. No caso de Multatuli, sinto-me impossibilitado de dar preferência a Cartas de amor em detrimento das cartas particulares, ou vice-versa, e por isso escrevi: Cartas e obras. Excluíram-se obras essencialmente literárias, de valor puramente poético, talvez porque seu pedido – bons livros – não parecesse referir-se diretamente a tais obras. Assim, no caso de Hutten, de C.F. Meyer, o “bom” prevaleceu sobre o “belo”, a “edificação” sobre o prazer estético.
Ao solicitar-me que indicasse “dez bons livros”, o sr. tocou num ponto sobre o qual muitíssimas coisas poderiam ser ditas. Termino, pois, para não ficar ainda mais loquaz.


Sigmund Freud”

Extraído do livro Os dez amigos de Freud, de Sergio Paulo Rouanet - Companhia das Letras - São Paulo, 2003.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Imagens dialéticas

Não é que o passado lança sua luz sobre o presente ou que o presente lança sua luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação. Em outras palavras: a imagem é dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal e contínua, a relação do ocorrido com o agora é dialética - não é uma progressão, e sim uma imagem, que salta. - Somente as imagens dialéticas são imagens autênticas (isto é: não-arcáicas), e o lugar onde as encontramos é a linguagem. / despertar / 
Walter Benjamin (1892-1940). Teoria do conhecimento, teoria do progresso. Passagens.

quinta-feira, outubro 27, 2011

Weber e sua Weltanschauung

A premissa transcendental de qualquer ciência da cultura reside, não no fato de considerarmos valiosa uma "cultura" determinada ou qualquer, mas sim na circunstância de sermos homens de cultura, dotados da capacidade e da vontade de assumirmos uma posição consciente face ao mundo, e de lhe conferirmos um sentido.
Max Weber (1864-1920). A "objetividade" do conhecimento nas Ciências Sociais. 

quarta-feira, outubro 26, 2011

Cotidiano insosso: propagandas

O que seria do sistema atual de produção de mercadorias sem as propagandas? E o que seria das próprias mercadorias sem as propagandas? E como a produção se sustentaria sem as propagandas? E como o mundo desigual e antagônico se sustentaria com a ausência desse sofisticado caldo ideológico?
Acrescento mais: o que seria de nós sem as propagandas? Que sentido nossa vida teria? Um mundo sem sonhos cinematográficos, sem mulheres sensuais, sem computação gráfica, sem desejos programados, sem estímulo ao consumo voraz e fútil... Um mundo sem propagandas...já pensou nisso? Como seria?
Que propósito a vida teria que não fosse o consumo? Já se pensou sem os sonhos de comprar uma casa nova (um anúncio de uma mansão num condomínio fechado), sem o desejo insaciável de um novo automóvel (um carrão importado)...aparelhos digitais, eletrônicos...roupas da moda e de grifes famosas...ah, como a vida é maravilhosa...Que propósito mais profundo para a existência do ser que o consumo de fantasmagorias..!!!!
Pense nas marcas mais famosas que conhece. Agora, imagine-as sem os comerciais ou sem os anúncios. Difícil, não é? Se formos mais longe, apague da sua memória o nome das marcas. Exclua dos produtos toda a embalagem e tudo o mais que vá além daquilo que o produto realmente é. Sem cores, sem imagens, sem sensações, sem emoções, sem celebridades, sem conceitos, sem simulações de situações pretensamente reais...sem frases de efeito, nem slogans ou jingles. Puts, é necessário um esforço e tanto, não?
Já imaginou um mundo em que os objetos vendidos no supermercado fossem somente aquilo que eles são de fato? Produtos, e nada mais. Coisas materiais. Artigos produzidos pelo homem com a finalidade de atender as necessidades dele próprio. Nesse pedaço de terra imaginário, uma camisa seria apenas uma camisa, assim como um sapato também seria somente um sapato. E assim sucessivamente, com todos os outros artefatos: xampu, escova de dentes, sanduíches, automóveis, celulares...
Todos os produtos existiriam para uma finalidade que seria propriamente humana. De acordo com tal idéia, não haveria qualquer mistério sobre o porquê da necessidade de qualquer um dos objetos. Essa necessidade se daria pelas próprias condições da existência e da vida humana.
Nesse mundo, a necessidade estaria plenamente associada à utilidade e à finalidade. As pessoas procurariam produtos que lhes fossem úteis e que atendessem a determinadas finalidades.  Necessidade, utilidade e finalidade essencialmente humanas, autônomas, todas relacionadas à vida concreta e real das pessoas. Não haveria falsos desejos, nem ilusões sobre os bens produzidos pelo homem, sejam eles materiais ou frutos da imaginação.
Tudo bem, você pode até dizer que esse é um mundo utópico e tudo mais. Bom, quanto a isso, mil coisas podem ser ditas. Não é essa a questão levantada. A idéia não é pensar o não-lugar (esse possível que ainda não existe), mas sim, falar da falsidade desse mundo ou de uma de suas facetas mais concretas: o universo da propaganda. Teorizo, de modo especulativo, sobre a mágica construção dessa realidade onírica.
Independente de uma grande teoria ou não, o certo é que a propaganda é um meio sofisticado de dizer aquilo que não é. O comercial vai lhe trazer uma necessidade falsa de consumo. O produto não é aquilo. Na realidade, não há um verdadeiro motivo para o seu consumo. Quem lhe vende o artefato não pensa em outra coisa senão no lucro.
Pergunte-se de um modo sincero antes de comprar qualquer coisa: qual é a finalidade daquele produto? Para quê? Por que comprar? Pare. Pense. Olhe a sua volta. Pense nas pessoas que o rodeiam. O consumo tem um lado social que é fundamental. Você consome por uma necessidade, antes de tudo, criada pela sociedade. Você compra o produto por algo que ele possa lhe trazer perante o grupo: status, poder, reconhecimento, visibilidade, pertencimento, segurança, acolhimento...
Você não quer ficar de fora. Você quer pertencer a alguma coisa. Você quer o reconhecimento daqueles que já pertencem no grupo em que almeja ser membro. São códigos, signos, símbolos...que grupos e/ou coletividades identificam o sentido que eles expressam. Certos objetos não são somente objetos, mas também o que eles expressam socialmente. As coisas dizem o que você é; quem você é; que sonhos tem...
Tudo. O que você pensa sobre tudo é expresso pelas mercadorias. Já está tudo pronto. Você compra todo o pacote. A mercadoria e o seu sentido. “Diga o que consomes e direis quem tu és”. Tal roupa é para rapazes arrojados. Aquelas outras são para senhores que querem parecer garotões. Aquele carro é para homens bem sucedidos. Já o outro é para perdedores que não conseguiram muita coisa na vida.
Curiosamente. Os nossos sonhos terminam na aquisição das coisas. O que queremos não está na coisa em si. Quem nunca se sentiu frustrado após comprar aquela mercadoria tão desejada? Quantas coisas não usamos por que realmente não nos eram necessárias? Por que na loja o objeto era tão diferente do que é agora?
Sobre estas questões, é necessário traçar mais idéias e argumentos a respeito da noção de mercadoria. É dela que podemos partir para avaliar esta sociedade. É por meio dela que as relações sociais se entrelaçam, numa complexa teia de demonstrações de força e poder. Mas, aqui não há espaço misturar muito tais noções. O importante é estabelecer a conexão entre a propaganda e as mercadorias.
Quando olhamos para o passado e vemos o que consumíamos, ou mesmo, o que nossos antepassados consumiam, não nos parece estranho? É engraçado. Há um espaço de tempo interessante que faz com que, de alguma forma, nos afastemos do espírito ideológico da época. Olhamos o passado com o olhar cultural de hoje. As diferenças são gritantes e até cômicas.
Sobre esse aspecto, nada é mais ilustrador do que a moda. Você se lembra do que estava na moda há vinte anos? Recorda-se das roupas? Muitos pensam: “melhor apagar tudo da memória”. Realmente, para a realidade de algumas décadas para cá, memória é um processo em extinção. Ok. Esse também pode ser um assunto para outras reflexões. Mas, e os produtos, as roupas, a propaganda...de anos e anos atrás?
Esse distanciamento provocado pelo tempo e pelo esquecimento programado leva-nos a filtrar, de alguma forma, o que no passado fazia sentido. Aquela necessidade construída pela propaganda da época hoje já não faz o menor sentido. De que vale usar uma calça boca de sino se a moda é calça justa? Não há status nisso, nem reconhecimento algum. Mesmo que o objeto cumpra com suas finalidades e utilidades (proteção e aquecimento do corpo) quem o ver não identificará nada, a não ser, um monte de lixo (mesmo que numa outra época esse mesmo artefato tenha sido o objeto de desejo e consumo).
A propaganda tem um lado cruel. Para nos iludir ao consumo ela estimula nossas pulsões mais primitivas. Quantos não são os comerciais que desenrolam mensagens preconceituosas, arrogantes, intolerantes, segregantes... Por que há sempre um Mané nos comerciais de cerveja? Por que quem consome o produto é sempre “o cara”? Tudo o que tem de mais baixo e sujo é difundido à exaustão pela propaganda.
Por que existem propagandas de cerveja? Por que existem propagandas de remédios? Por que existem propagandas de brinquedos?
Por que no comercial de um medicamento para atletas as pessoas se afastam daquele que tem frieiras ou coceiras (que, aliás, nem são visíveis)? Por que na propaganda de analgésico numa cena uma mãe aparece com expressão sofrida e após o consumo da droga reaparece numa montanha russa de um parque de diversões? Por que um cara chega a conclusão de que vale a pena ir para a cadeia repetidas vezes só para ter o gostinho de assaltar e entrar no carro do ano anunciado pelo comercial? Por que, apesar de existir todo esse contexto de sustentabilidade, uma montadora de carros faz um comercial em que um rapaz ateia fogo no próprio carro – em perfeitas condições de uso – só por que não possui o veículo da moda? Por que numa propaganda em que um carro estaciona sozinho o menino, filho do dono do carro, se gaba com o amiguinho, fazendo-o pensar que tudo aquilo acontece num passe de mágica (nessa, o filho humilha o amiguinho e se gaba por ser o espertão que anda no carrão do momento)?
Boçalidades programadas e calculadas.

terça-feira, outubro 18, 2011

Cultura crítica e práxis revolucionária (1916)

O homem é acima de tudo espírito, isto é, criação histórica, e não natureza. Não poderia explicar de outra forma por que, havendo existido sempre explorados e exploradores, criadores de riqueza e consumidores egoístas dela, o socialismo ainda não tenha se realizado. O fato é que só de degrau em degrau, de arranco em arranco, a humanidade adquiriu consciência do seu próprio valor...E esta consciência se formou não sob o grilhão brutal das necessidades fisiológicas, mas através da reflexão inteligente, primeiramente de alguns e depois de toda uma classe, sobre as razões de determinados fatos e sobre os meios mais adequados para transformá-los da condição de vassalagem em estandarte de rebelião e de reconstrução social. Isto significa que toda revolução foi precedida de um intenso trabalho de crítica, de penetração cultural.
Antonio Gramsci (1891-1937). Il Grido.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Contradição

Pois a contradição não reside na incapacidade dos filósofos em analisar de maneira unívoca os fatos diante dos quais eles se encontram; é, antes de tudo, a expressão intelectual da própria situação objetiva que eles têm como tarefa compreender. Em outros termos, a contradição que nesse caso vem à luz entre a subjetividade e a objetividade dos sistemas formais modernos e racionalistas, os emaranhados e equívocos que se escondem em seus conceitos de sujeito e de objeto, a incompatibilidade entre sua essência de sistemas "produzidos" por "nós" e sua necessidade fatalista, estranha ao homem e distanciada dele, são apenas a formulação lógica e metodológica da situação da sociedade moderna.
György Lukács (1885-1971). História e consciência de classe.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Reflexão sobre a historicidade do olhar e o estruturalismo em Foucault

Michel Foucault (1926-1984) foi um pensador sempre impelido pela curiosidade, que revisou e expandiu suas investigações, através de uma autocrítica e de uma auto-reflexão. Por essa razão, é difícil localizá-lo ou inscrevê-lo numa forma particular, ou numa determinada linhagem teórica (recusa metodológica ao grande esquema). Seu trabalho é marcado por fases distintas, nas quais elabora discussões sobre ciência, conhecimento, sujeito e poder. Apesar dessas constatações, sua teoria se constitui a partir de uma herança muito próxima ao estruturalismo.
A teoria de Foucault se move a desnaturalizar os objetos (pensar a forma como foram constituídos; quais as condições que tornaram possível sua emergência) e a historicizar radicalmente as perspectivas e os olhares que apreendem esse objeto (historicizar os grandes temas da filosofia). Nesse sentido, o autor desconstrói as ciências humanas e se põe a entender os regimes de verdade, as formas como as coisas se tornam visíveis a nós, os meios pelos quais isso se torna pensável; como em diferentes épocas foi se constituindo a crença de que é possível a verdade (trama de instituições de validação; valida o que pode ser dito sobre esse objeto; sistemas de classificação).
Foucault relativiza o empreendimento da ruptura epistemológica bachelardiana, apropriada por Bourdieu (construir um problema de fundo sociológico). O autor permanece filósofo, não acreditando na ciência e em seus ramos disciplinares. Em Foucault a razão não pode orientar o homem, não pode ser julgadora; o autor apresenta uma descrença na razão.
Quanto à herança estruturalista de Foucault, muitos teóricos apresentam dúvidas se o autor era ou não era estruturalista. Nos termos próprios do estruturalismo mais clássico a abordagem foucaultiana se distingue, reformulando novas problemáticas, mas algumas perspectivas se mantêm: aquela velha e conhecida sensação de estarmos rodeados por um conjunto de práticas, costumes e crenças (tramas de poder) que nos delimitam o caminho e que não nos damos conta de sua ação (historicizar o que vem antes da escolha, antes da estratégia do indivíduo – a disciplina vem antes do indivíduo).
As relações de poder exercem um poder de dominação que não necessariamente é ativo e com o uso da força, mas que pode ser passivo e se caracterizar por manifestar-se em forma de consenso entre os indivíduos (aceitação das normas; o indivíduo é positivamente produzido). Ou seja, conceitos tais como: tramas de poder, práticas de subjetivação e objetivação, mecanismos de dominação, disciplinazação, entre outros apresentam uma proximidade com certo tipo de estruturalismo.
Foucault também trabalha com a idéia de resistência, contra-poder, contra-discurso, mas suas teorizações não lidam com a problemática da emancipação, que também é próprio da descrença de seu tempo. Em certa maneira, o autor está mais preocupado com essas formas de relações de poder, com a produção de sujeitos (circunscritos nos pequenos discursos, nas questões menores).
Texto escrito por Leonardo de Lucas S Domingues em 2008.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Sociologia: entre a solidão e a esperança

Se falei das grandes perspectivas que se devem combinar com a pesquisa especializada, foi porque acredito que todas as problemáticas sociológicas e até a simples atitude sociológica contêm sempre uma intenção que transcende a sociedade tal como é. Sem essa intenção, não há problemática correta, nem sequer o simples pensamento sociológico - por mais difícil que seja imaginar essa intenção com exatidão. Sem ela, sucumbe-se sob o excesso de dados ou cai-se na pura invenção. Certa mania de criticar o que existe faz, por assim dizer, parte da profissão de teórico da sociologia, e é justamente esse elemento crítico que torna o sociólogo impopular, quando, na verdade, decorre do elemento mais positivo que existe: a esperança. Ensinar aos estudantes a suportar essa tensão em face do que existe, tensão essa que faz parte da própria existência de nossa ciência, torná-lo social no verdadeiro sentido do termo - o que implica que eles sejam capazes também de permanecer sós - é, talvez, o objetivo último e mais importante da formação como nós a concebemos.
Max Horkheimer (1895-1973). Ein Bericht über die Feier seiner Wiederöffnung, seine Geschichte und seine Arbeiten.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Cotidiano insosso: corte de cabelo

Quando os primatas passaram a se parecer com o que somos hoje, homo sapiens, as noções de higiene e os cuidados com o corpo tornaram-se, aos poucos, marcas do nosso processo civilizatório. Não seriamos mais animais, a partir desse momento, mas, sim, homens limpos e bem tratados.

Nossa inimiga declarada: a natureza. Criamos meios para que ela não pudesse mais correr livremente por meio de nossos corpos (pelo menos no que diz respeito a aparência física). Os cheiros não são agradáveis, a pele fica suja com a oleosidade, as unhas crescem e os pêlos tomam conta de tudo. Em um determinado momento histórico-social, essas questões começaram a fazer sentido para a sociedade ou para a parte dela que podia se dar ao luxo de pensar sobre isso. Diante disso tudo, a necessidade social de cortar o cabelo tomou forma material no salão de beleza.
Cortar o cabelo. Para os homens, em geral, é uma ação básica para mantê-lo curtinho (pelo menos entre os países ocidentais). Já para as mulheres o importante é aparar as pontas. Mas não importa, essa prática é inevitável em nossa sociedade, a não ser que você viva em alguma seita religiosa ou coisa do tipo.
Não sei quanto a outros homens, mas eu detesto cortar o cabelo. Reluto até o último minuto antes de me decidir a entrar em um salão de cabeleireiro. Não tenho uma explicação lógica para isso, só sei que algumas atividades do dia-a-dia são de difícil execução para as minhas limitadas capacidades práticas.
Fora alguns salões nos quais encontramos senhores de idade que são agradáveis e que têm uma boa conversa, na maior parte das vezes o que sobra é a rotina incômoda de uma operação meramente mecânica (quase como aparar o pêlo). Não culpo os trabalhadores por isso. Atualmente, mesmo esse pequeno ramo do comércio já se encontra muito bem inserido na grande teia da produção de valor. Poucos são os salões que ainda operam nas características de prestação de serviços feitas pelos chamados autônomos.
O que vejo, principalmente nas cidades de grande e médio porte, são salões que mais parecem indústrias de produção em série de cortes de cabelo. Envolto nesse processo, há uma diversa mescla de produtos e atividades correlatas que acredito renderem muito mais do que o simples corte de cabelo. Esse universo da beleza tornou-se muito atrativo para os negócios. Em poucos anos, uma verdadeira mania por cosméticos de todo tipo e por processos dos mais estranhos para fazer com que as pessoas se sintam mais atraentes e mais jovens tomou a forma imprescindível de um dever austero e inegável.
A pessoa que corta o cabelo, cabeleireiro, já não é mais dona de seu negócio; não é dona de seus meios de produção. Por isso creio que esse hábito está se tornando cada vez mais a sua pura execução. Tudo se reduziu ao corte. É semelhante a tirar fotos naquelas caixas em que as fotos prontas saem logo em seguida, em sequência. Você entra, passa algum tempo, e a coisa está pronta.
Não há muito o que fazer: na tv passa novela, nas revistas só imagens de pessoas sorrindo e poucos textos, nas conversas o que é impera são os produtos de beleza e os problemas de família. Não consigo entender como as mulheres de hoje gostam tanto desse ambiente. O único salão que gostei foi um que o cabeleireiro trazia revistas antigas de futebol para a leitura dos clientes (e ele contava muitas histórias interessantes). Isso fazia algum sentido para mim. Não pelo fato do assunto ser o futebol, mas por ser um convite criativo a imaginação.
Apesar de todas essas questões, um momento do corte de cabelo me põe a refletir, aquele em que nos olhamos no espelho. Naquele instante você é forçado a olhar para você mesmo, quer queira ou quer não. De repente, pode-se notar o passar do tempo nos traços que não reparamos do dia-a-dia. Outros aspectos também se mostram visíveis...você se avalia, se redescobre, se vê por um ângulo diferente...
Depois da percepção da aparência surgem as questões, a investigação dos fatos, o balanço de seu passado recente. Diante dos problemas enfrentados, que soluções encontrou? Foram as melhores?.... O momento do espelho pode ser uma inquisição psicológica: confesse para si mesmo, agora que não tem como fugir!
É interessante pensar que nesse templo da aparência (em todos os sentidos) haja esse pequeno portal intimista de sinceridade e autenticidade. Você vê que a despeito da maravilha ofertada pelo mundo da mercadoria, você sofre e perece. Talvez até note a desilusão das pessoas que buscam nesses produtos e nos estereótipos lançados pela mídia uma felicidade que não está inscrita nos objetos. As pessoas se frustram por terem criado uma falsa expectativa que foi movida por um falso desejo.
A esterilidade da beleza atual esconde os pontos de conexão com a nossa existência. Essa mutação estética nos transforma em seres que não somos. Ela anula a aparência autêntica e a substitui por uma aparência programada.... Narizes amorfos são a maior prova de uma vida que se move para uma essência oca e plasticamente fria. Esses indivíduos genéricos fisicamente se anulam diante de um rótulo preestabelecido...
Quando vejo esses programas que enfatizam essa perfeição estética, arrepio-me pelo culto aos grandes aparelhos brancos que mais parecem terem saído de uma UTI. Ninguém quer compreender como eles funcionam, muito menos quer refletir sobre o porquê de sua construção. Todo o negócio nefasto é consubstanciado em mágica. Um ar místico gravita em torno das gigantes engenhocas milagrosas.
No salão de cabeleireiro, entre uma tesourada e outra, algo me diz que a beleza não é dotada plenamente de sentido; não creio que haja uma essência para o belo. Se houver, certamente não está tão alheia a nós a ponto de negarmos nossa humanidade para alcançá-la.
Uma banda inglesa disse isso um tempo atrás:
She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love

quarta-feira, setembro 07, 2011

O Homem de Davos (na terra da Montanha Mágica)

E ali, nas encostas de esqui da Suíça, vestidos como para praticar esportes, estão os vencedores. Aprendi uma coisa do meu passado: seria fatal tratá-los como apenas pérfidos. Enquanto os de minha espécie se tornaram adeptos de uma espécie de desconfiança passiva da realidade existente, a corte de Davos estua de energia. Defende as grandes mudanças que assinalaram nossa época: novas tecnologias, ataque às burocracias rígidas, economia transnacional. Poucas das pessoas que conheci em Davos começaram a vida ricas ou poderosas como se tornaram depois. É um reino de conquistadores, e devem muitas de suas conquistas à prática da flexibilidade.
O Homem de Davos está mais publicamente encarnado no Bill Gates, o ubíquo presidente do conselho da Microsoft Corporation. Ele apareceu há pouco; como fazem muitos oradores na reunião, tanto em pessoa quanto ampliado numa imensa tela de televisão. Ouviram-se murmúrios de alguns maníacos da tecnologia na sala, quando a cabeça gigante falou; acham medíocre a qualidade dos produtos da Microsoft. Mas para a maioria dos executivos ele é uma figura heróica, e não só porque ergueu uma empresa enorme do nada. É o próprio epítome do magnata flexível, como ficou demonstrado mais recentemente quando descobriu que não tinha previsto as possibilidades da Internet. Gates volveu suas imensas operações num minuto, reorganizando seu foco empresarial em busca da nova oportunidade de mercado.
Quando eu era criança, tinha uma coleção de livros intitulada Pequena Biblioteca Lênin, que mostrava em detalhes gráficos o caráter do capitalista que se faz a si mesmo. Uma ilustração particularmente espantosa mostrava o velho John D. Rockefeller como um elefante, esmagando infelizes operários sob as patas enormes, a tromba agarrando máquinas de trem e perfuradoras de petroléo. O Homem de Davos pode ser implacável e ganancioso, mas só essas qualidades animais não bastam para explicar os traços de caráter dos magnatas da tecnologia, dos capitalistas de risco e dos expertos em reengenharia empresarial ali reunidos.
Gates, por exemplo, parece não ter a obsessão de se apegar às coisas. Seus produtos surgem numa fúria e desaparecem com a mesma rapidez, enquanto Rockefeller queria ser dono de perfuradoras de petróleo, prédios, máquinas ou estradas de ferro, a longo prazo. A falta de apego a longo prazo parece assinalar a atitude de Gates em relação ao trabalho: ele falou mais de alguém tomar posição numa rede de possibilidades do que ficar paralisado num determinado emprego. Em todos os aspectos, é um competidor brutal, e a prova de sua ganância é do conhecimento público; dedicou apenas uma minúscula fatia de seus bilhões à beneficiência ou ao bem público. Mas sua disposição a dobrar-se é evidenciada por estar pronto para destruir o que fez, diante das demandas do momento imediato - tem a capacidade de largar, embora não de dar.
Essa ausência de apego temporal está ligada a um segundo traço de flexibilidade de caráter, a tolerância com a fragmentação. Quando Gates conferenciou no ano passado, deu um determinado conselho. Disse-nos que o crescimento das empresas tecnológicas é um caos, assinalado por algumas experiências, erros e contradições. Outros tecnocratas americanos disseram a mesma coisa aos colegas reno-europeus, que, aparentemente presos em velhos modos formalistas, querem criar uma "política tecnológica" coerente para suas empresas ou países. O crescimento, disseram os americanos, não se dá dessa forma clara, burocraticamente planejada.
Talvez o que leva o capitalista hoje a buscar muitas possibilidades ao mesmo tempo não seja mais que a necessidade econômica. Tais realidades práticas exigem no entanto uma determinada força de caráter - a de alguém que tem a confiança de permanecer na desordem, alguém que prospera em meio ao deslocamento. Rico [personagem do livro], como vimos, sofria emocionalmente com os deslocamentos sociais que acompanharam o seu sucesso. Os verdadeiros vencedores não sofrem com a fragmentação. Ao contrário, são estimulados por trabalhar em muitas frentes diferentes ao mesmo tempo; é parte da energia da mudança irreversível.
Capacidade de desprender-se do próprio passado, confiança para aceitar a fragmentação: estes são dois traços de caráter que aparecem em Davos entre pessoas realmente à vontade no novo capitalismo. São traços que encorajam a espontaneidade, mas ali na montanha essa espontaneidade é, na melhor das hipóteses, neutra. Esses mesmos traços de caráter que geram a espontaneidade se tornam mais autodestrutivos para os que trabalham mais embaixo no regime flexível. Os três elementos do sistema de poder flexível corroem o caráter de empregados mais comuns que tentam jogar segundo as mesmas regras. Ou pelo menos foi o que constatei descendo da montanha mágica e voltando a Boston.
Richard Sennett (1943- ). A corrosão do caráter.

sexta-feira, setembro 02, 2011

"os que trabalham mais obtêm menos" (Adam Smith)

No progresso da divisão do trabalho, o emprego da parte muito maior daqueles que vivem do trabalho ... passa a limitar-se a umas poucas operações simples; frequentemente uma ou duas ... O homem que passa a viada realizando umas poucas operações simples ... em geral se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível tornar-se uma criatura humana.
Adam Smith (1723-1790). A riqueza das nações.

quarta-feira, agosto 31, 2011

A certeza da incerteza

Qualquer filosofia que, na sua busca da certeza, ignore a realidade do incerto nos processos da natureza em curso nega as condições das quais emerge. A tentativa de incluir tudo o que é duvidoso dentro do alcance fixo daquilo que é teoricamente certo está comprometida com a falta de sinceridade e com a evasão e, consequentemente, carregará os estigmas da contradição interna.
John Dewey (1859-1952). The quest for certainty.

terça-feira, agosto 30, 2011

Alienação como uma doença do eu

A alienação do pensamento não é diversa da alienação do coração. É como alguém acreditar que pensou alguma coisa, e que sua idéia é resultado de sua própria atividade de reflexão; a verdade é que transfere seu cérebro para os ídolos da opinião pública, os jornais, o governo ou um líder político. Acredita que estes expressam seu pensamento, quando na realidade ele aceita os pensamentos dessas personalidades como se seus fossem, porque as escolheu para ídolos, deuses da sabedoria e do conhecimento. Precisamente por essa razão, depende dos ídolos, sendo incapaz de sustar sua idolatria. É escravo deles porque lhes confiou seu cérebro.
Erich Fromm (1900-1980). Meu encontro com Marx e Freud.