sexta-feira, julho 03, 2009

Sísifos do dia-a-dia



Como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade? (Herbert Marcuse)
A moderna barbárie, para Löwy (2000), define-se e manifesta-se pela utilização do que há de mais avançado em termos de técnica para produzir a industrialização do homicídio e o extermínio em massa graças às tecnologias de ponta. A destruição, nesse novo tipo de barbárie, é impessoal, ou seja, os massacres não têm contato entre quem toma as decisões e as vítimas; a mediação entre os combates é feita por máquinas militares que matam à distância. Por mais brutal e monstruoso que possa ser esse confronto, por trás dele há uma gestão burocrática e administrativa, a qual se preocupa unicamente com a eficiência da ação. Ademais, para legitimar as investidas militares, o Estado se municia com um poderoso artefato ideológico por meio de discursos “biológicos”, “higiênicos” e “científicos”, que corroboram a perpetuação da dominação e da exploração.
Um dos momentos mais explícitos dessa catástrofe humana se deu nos campos de concentração que se proliferaram nos territórios da Europa. Auschwitz é o exemplo do mais monstruoso uso da razão, uma utilização racional para a produção de irracionalidades impensáveis em tal grau de esclarecimento. “Milhões de homens inocentes [...] foram sistematicamente assassinados” (ADORNO, 1970c, p.81) em um fenômeno que não deve ser tratado como uma aberração na história, mas como algo que era possível de ser feito naquela época segundo a forma unilateral pela qual foi conduzido o desenvolvimento humano. Tal fato não representa uma “regressão” em direção ao passado, em direção aos primórdios da raça humana, mas se trata de um dos possíveis rostos da civilização industrial ocidental. “Que aquilo tenha acontecido é por si só indício de tendência extremamente poderosa da sociedade" (ADORNO, 1970c, p.81). Esse tipo de processo civilizador constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e emancipatória dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossos tempos.

Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, ‘a organização científica do trabalho’ de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber (LÖWY, 2000, p.51).

Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa estar dormindo para produzir monstros[1]. Pior: quando acordada, produz as piores e inimagináveis monstruosidades que ela própria desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso racional, ético ou moral, porque, em nossa época, até a razão e a linguagem são usadas para fins irracionais.
Cada vez mais a razão é usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos nazistas, soviéticos, e na carnificina americana que levou à dizimação de duas cidades japonesas por uma demonstração de força e poder.
Benjamin, voraz crítico do progresso capitalista, vê esse suposto movimento do progresso em direção ao futuro da nossa civilização, como algo prenhe de catástrofes, gestadas no próprio coração da modernidade. Se por meio dele atingimos, como nunca na história da humanidade, um patamar excepcional de bem-estar material, podemos também creditar ao progresso uma exploração mais destrutiva, sistemática e mortífera da natureza e o inegável aperfeiçoamento das técnicas de guerra e de extermínio de seres humanos. Igualmente, podemos creditar a ele, como uma perfeita combinação entre progresso técnico e regressão social, a emergência do fascismo, que não deve ser descartada como historicamente acidental, nem como um estado de exceção político/social que não se repetirá. Num de seus mais famosos e últimos escritos, as “Teses sobre o conceito de história”, o autor adverte o que para ele é central no processo da Aufklärung (esclarecimento): “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1996c, p.225).
Havia também uma outra catástrofe que preocupava Benjamin: a que se apresentava ainda como a “eterna repetição do mesmo”, a que transforma grandes massas em Sísifos e Tântalos (Benjamin Apud LÖWY, 1990, p.211; LÖWY, 1992, p.121), condenados à mesmice a ver os objetos de seu desejo diante de seus olhos e infinitamente distantes de sua posse. Movimentos mecânicos, gestos automáticos, tarefas fragmentadas, pensamentos fragmentados, mundo em eterna incompletude, tudo sempre disfarçado em moda e novidade. Substituição frenética do novo pelo cada vez mais novo que já nasce obsoleto.
Essa é uma barbárie menos explícita, está difusa no meio social entre um trânsito dinâmico de ideologias pulverizadas pelos grandes aparelhos estatais. É por esse tipo de ordem que a razão instrumental irá se hipertrofiar, dominando todas as esferas da vida social. O discurso técnico-calculista irá permear as mediações humanas e irá se tornar o imperativo da ordem do mundo capitalista, em que, antes de tudo, está presente o lucro, a produção, a eficiência e a economia. A ética e os preceitos morais são inócuos diante do desenvolvimento desenfreado da técnica. Ao homem só cabe se adaptar a sua lógica perversa.
O que se percebe, desde os primórdios da utilização da racionalidade como ordenação do mundo e organização do cosmos, até a caótica produção racional do capitalismo tardio, é que a razão humana tem se frustrado em sua intenção de descobrir a verdade sobre o seu uso, de se auto-iluminar (autocriticar). A ela cabe recuperar sua concepção objetiva de transformação dos homens e do mundo, por meio dos homens.
Ao se hipertrofiar, a razão instrumental penetra no meio administrativo das grandes empresas, no meio jurídico, nos grandes laboratórios, nos mass media, nos exércitos, nas universidades, enfim, em tudo o que se refira às relações de produção dessa sociedade e a sua forma de controle e manutenção. Essa nova conjuntura social é o cenário de investigação da Teoria Crítica com relação àquilo que seus membros diziam ser o “mundo administrado”. Esse último seria a realidade do pós-guerra, ao qual o Estado não só tem o domínio legítimo da coerção física, como também da coerção ideologicamente aparelhada pelos meios de comunicação de massa. A dominação se estende da fábrica às mentes e ao inconsciente das pessoas em torno de um controle absoluto e ilimitado pela burguesia. O mundo administrado é aquele em que se desapareceram os esconderijos (ADORNO, 1966, p.91). Ao cidadão comum, resta nada mais do que agir mecanicamente segundo o direcionamento das leis do mercado e atuar no mundo mediante duas ações: consumir e descartar tudo o que estiver ao alcance financeiro de um mundo em que a troca é generalizada e impessoal. Os teóricos frankfurtianos se lançam na crítica à razão instrumental, para descobrir o porquê de a complexidade do todo ser reduzida à particularidade de coisa; qual o motivo de esse tipo de razão instrumentalizar tudo, até a vida humana, como um meio por si só.
Desde a secularização do conhecimento iniciado com o fim da tutela eclesiástica e passando pela emancipação política, econômica, cultural e social da classe burguesa, até o fim trágico e catastrófico do século XX, a razão teve um profundo impacto na coordenação desses eventos. Seja para libertar e conciliar, ou para oprimir e destruir, o uso da razão durante esse processo foi resultado de uma condução unilateral em torno do desenvolvimento humano. Se a história de formação do sistema capitalista por um lado libertou e emancipou os homens de domínios arbitrários da tradição e da natureza, por outro, empreendeu formas cruéis e destrutivas de dominação e exploração. Assim sendo, é por um entendimento mais claro do uso meramente instrumental do conhecimento racional que se torna necessário investigar como esse tipo de racionalidade calculista-instrumental se hipertrofiou e abrangeu todos os campos da vida social.

[1] “Auschwitz não é para se considerar por uma analogia com a destruição das cidades-Estado da Grécia antiga, como um simples aumento gradual do horror, diante do qual é possível manter sua alma tranqüila. Mas certamente o martírio e a humilhação sem precedente daqueles que foram deportados como gado irradia uma luz mortalmente crua sobre o passado mais longínquo, em cuja violência obtusa e sem planejamento já estava posta de maneira teleológica a violência tramada cientificamente” (ADORNO, 1993, p.205).
Leonardo de Lucas S. Domingues - novembro de 2006.

quarta-feira, julho 01, 2009

"Meine Damen und Herren: das ist sehr dialektisch!" (Adorno)

A construção da vida está, atualmente, muito mais em poder dos fatos que em poder de convicções, e de fatos que quase nunca serviram como base de convicções (BENJAMIN, Rua de Mão Única).
Pense sobre isso o que quiser, mas pense. Weiterdenken!

segunda-feira, junho 08, 2009

Experiência e Pobreza


1933
Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: "Ele é muito jovem, em breve poderá compreender". Ou: "Um dia ainda compreenderá". Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?

Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boca em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano.

Uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica, sobrepondo-se ao homem. A angustiante riqueza de idéias que se difundiu entre, ou melhor, sobre as pessoas, com a renovação da astrologia e da ioga, da Christian Science e da quiromancia, do vegetarismo e da gnose, da escolástica e do espiritualismo, é o reverso dessa miséria. Porque não é uma renovação autêntica que está em jogo, e sim uma galvanização. Pensemos nos esplêndidos quadros de Ensor, nos quais uma grande fantasmagoria enche as ruas das metrópoles: pequeno-burgueses com fantasias canavalescas, máscaras disformes brancas de farinha, coroas de folha de estanho, rodopiam imprevisivelmente ao longo das ruas. Esses quadros são talvez a cópia da Renascença terrível e caótica na qual tantos depositam suas esperanças. Aqui se revela, com toda clareza, que nossa pobreza de experiências é apenas uma parte da grande pobreza que recebeu novamente um rosto, nítido e preciso como o do mendigo medieval. Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós? A horrível mixórdia de estilos e concepções do mundo do século passado mostrou-nos com tanta clareza aonde esses valores culturais podem nos conduzir, quando a experiência nos é subtraída, hipócrita ou sorrateiramente, que é hoje em dia uma prova de honradez confessar nossa pobreza. Sim, é preferível confessar que essa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge assim uma nova barbárie.





Barbárie? Sim. Respondemos afirmativamente para introduzir um conceito novo e positivo de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de experiência? Ela o impele a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda. Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir de uma tábula rasa. Queriam uma prancheta: foram construtores. A essa estirpe de construtores pertenceu Descartes, que baseou sua filosofia numa única certeza — penso, logo existo — e dela partiu. Também Einstein foi um construtor assim, que subitamente perdeu o interesse por todo o universo da física, exceto por um único problema — uma pequena discrepância entre as equações de Newton e as observações astronômicas. Os artistas tinham em mente essa mesma preocupação de começar do principio quando se inspiravam na matemática e reconstruíam o mundo, como os cubistas, a partir de formas estereométricas, ou quando, como Klee, se inspiravam nos engenheiros. Pois as figuras de Klee são por assim dizer desenhadas na prancheta, e, assim como num bom automóvel a própria carroceria obedece à necessidade interna do motor, a expressão fisionômica dessas figuras obedece ao que está dentro. Ao que está dentro, e não à interioridade: é por isso que elas são bárbaras.

Algumas das melhores cabeças já começaram a ajustar-se a essas coisas. Sua característica é uma desilusão radical com o século e ao mesmo tempo uma total fidelidade a esse século. Pouco importa se é o poeta Bert Brecht afirmando que o comunismo não é a repartição mais justa da riqueza, mas da pobreza, ou se é o precursor da moderna arquitetura, Adolf Loos, afirmando: "Só escrevo para pessoas dotadas de uma sensibilidade moderna.. Não escrevo para os nostálgicos da Renascença ou do Rococó". Tanto um pintor complexo como Paul Klee quanto um arquiteto programático como Loos rejeitam a imagem do homem tradicional, solene, nobre, adornado com todas as oferendas do passado, para dirigir-se ao contemporâneo nu, deitado como um recém-nascido nas fraldas sujas de nossa época. Ninguém o saudou tão alegre e risonhamente como Paul Scheerbart. Ele escreveu romances que de longe se parecem com os de Júlio Verne, mas ao contrário de Verne, que se limita a catapultar interminavelmente no espaço, nos veículos mais fantásticos, pequenos rentiers ingleses ou franceses, Scheerbart se interessa pela questão de como nossos telescópios, aviões e foguetes transformam os homens antigos em criaturas inteiramente novas, dignas de serem vistas e amadas. De resto, essas criaturas também falam uma língua inteiramente nova. Decisiva, nessa linguagem, é a dimensão arbitrária e construtiva, em contraste com a dimensão orgânica. É esse o aspecto inconfundível na linguagem dos homens de Scheerbart, ou melhor, da sua "gente"; pois tal linguagem recusa qualquer semelhança com o humano, princípio fundamental do humanismo. Mesmo em seus nomes próprios: os personagens do seu livro, intitulado Lesabéndio, segundo o nome do seu herói, chamam-se Peka, Labu, Sofanti e outros do mesmo gênero. Também os russos dão aos seus filhos nomes "desumanizados": são nomes como Outubro, aludindo à Revolução, ou Pjatiletka, aludindo ao Plano Qüinqüenal, ou Aviachim, aludindo a uma companhia de aviação. Nenhuma renovação técnica da língua, mas sua mobilização a serviço da luta ou do trabalho e, em todo caso, a serviço da transformação da realidade, e não da sua descrição.

Mas, para voltarmos a Scheerbart: ele atribui a maior importância à tarefa de hospedar sua "gente", e os co-cidadãos, modelados à sua imagem, em acomodações adequadas à sua condição social, em casas de vidro, ajustáveis e móveis, tais como as construídas, no meio tempo, por Loos e Le Corbusier. Não é por acaso que o vidro é um material tão duro e tão liso, no qual nada se fixa. É também um material frio e sóbrio. As coisas de vidro não têm nenhuma aura. O vidro é em geral o inimigo do mistério. E também o inimigo da propriedade. O grande romancista André Gide disse certa vez: cada coisa que possuo se torna opaca para mim. Será que homens como Scheerbart sonham com edifícios de vidro, porque professam uma nova pobreza? Mas uma comparação talvez seja aqui mais útil que qualquer teoria. Se entrarmos num quarto burguês dos anos oitenta, apesar de todo o "aconchego" que ele irradia, talvez a impressão mais forte que ele produz se exprima na frase: "Não tens nada a fazer aqui". Não temos nada a fazer ali porque não há nesse espaço um único ponto em que seu habitante não tivesse deixado seus vestígios. Esses vestígios são os bibelôs sobre as prateleiras, as franjas ao pé das poltronas, as cortinas transparentes atrás das janelas, o guarda-fogo diante da lareira. Uma bela frase de Brecht pode ajudar-nos a compreender o que está em jogo: "Apaguem os rastros!", diz o estribilho do primeiro poema da Cartilha para os citadinos. Essa atitude é a oposta da que é determinada pelo hábito, num salão burguês. Nele, o "interior" obriga o habitante a adquirir o máximo possível de hábitos, que se ajustam melhor a esse interior que a ele próprio. Isso pode ser compreendido por qualquer pessoa que se lembra ainda da indignação grotesca que acometia o ocupante desses espaços de pelúcia quando algum objeto da sua casa se quebrava. Mesmo seu modo de encolerizar-se — e essa emoção, que começa a extinguir-se, era manipulada com grande virtuosismo — era antes de mais nada a reação de um homem cujos "vestígios sobre a terra" estavam sendo abolidos. Tudo isso foi eliminado por Scheerbart com seu vidro e pelo Bauhaus com seu aço: eles criaram espaços em que é difícil deixar rastros. "Pelo que foi dito", explicou Scheerbart há vinte anos, "podemos falar de uma cultura de vidro. O novo ambiente de vidro mudará completamente os homens. Deve-se apenas esperar que a nova cultura de vidro não encontre muitos adversários."

Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso. Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes, podemos afirmar o oposto: eles "devoraram" tudo, a "cultura" e os "homens", e ficaram saciados e exaustos. "Vocês estão todos tão cansados — e tudo porque não concentraram todos os seus pensamentos num plano totalmente simples mas absolutamente grandioso." Ao cansaço segue-se o sonho, e não é raro que o sonho compense a tristeza e o desânimo do dia, realizando a existência inteiramente simples e absolutamente grandiosa que não pode ser realizada durante o dia, por falta de forças. A existência do camundongo Mickey é um desses sonhos do homem contemporâneo. É uma existência cheia de milagres, que não somente superam os milagres técnicos como zombam deles. Pois o mais extraordinário neles é que todos, sem qualquer improvisadamente, saem do corpo do camundongo Mickey, dos seus aliados e perseguidores, dos móveis mais cotidianos, das árvores, nuvens e lagos. A natureza e a técnica, o primitivismo e o conforto se unificam completamente, e aos olhos das pessoas, fatigadas com as complicações infinitas da vida diária e que vêem o objetivo da vida apenas como o mais remoto ponto de fuga numa interminável perspectiva de meios, surge uma existência que se basta a si mesma, em cada episódio, do modo mais simples e mais cômodo, e na qual um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha, e uma fruta na árvore se arredonda como a gôndola de um balão.

Podemos agora tomar distância para avaliar o conjunto. Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá-las muitas vezes a um centésimo do seu valor para recebermos em troca a moeda miúda do "atual". A crise econômica está diante da porta, atrás dela está uma sombra, a próxima guerra. A tenacidade é hoje privilégio de um pequeno grupo dos poderosos, que sabe Deus não são mais humanos que os outros; na maioria bárbaros, mas não no bom sentido. Porém os outros precisam instalar-se, de novo e com poucos meios. São solidários dos homens que fizeram do novo uma coisa essencialmente sua, com lucidez e capacidade de renúncia. Em seus edifícios, quadros e narrativas a humanidade se prepara, se necessário, para sobreviver à cultura. E o que é mais importante: ela o faz rindo. Talvez esse riso tenha aqui e ali um som bárbaro. Perfeito. No meio tempo, possa o indivíduo dar um pouco de humanidade àquela massa, que um dia talvez retribua com juros e com os juros dos juros.

Texto de Walter Benjamin
Tradução de Sérgio Paulo Rouanet

Ensaio obtido em Walter Benjamin – Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 114-119.

Retirado de: http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/benjamin/benjamin_02.htm

quinta-feira, maio 28, 2009

AMASSA

AMASSA

Amassa a massa
Põe o ovo na massa
Amassa o povo até virar massa
Assa
Assa a massa com ovo
Passa do ponto e queima o povo
Acha o ponto da massa
Que o povo virou ovo
E começa tudo de novo
Amassa a massa
Põe ovo na massa de novo.

Gerinho da Terra
Ourinhos 28/02/2004

quinta-feira, abril 30, 2009

Harry Braverman: o operário letrado do qual falava o poema de Brecht


Estudamos muito e aperfeiçoamos, ultimamente, a grande invenção civilizada da divisão do trabalho; só lhe damos um falso nome. Não é, a rigor, o trabalho que é dividido; mas os homens: divididos em meros segmentos de homens - quebrados em pequenos fragmentos e migalhas de vida; de tal modo que toda partícula de inteligência deixada no homem não é bastante para fazer um alfinete, um prego, mas se exaure ao fazer a ponta de um alfinete ou a cabeça de um prego (1977, p. 76)

BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

terça-feira, abril 21, 2009

Teses sobre Karl Marx

FERNANDO HADDAD

I
O S SOCIALISTAS, até hoje, incidiram no erro de acreditar que o desenvolvimento
das forças produtivas, sob o capitalismo, faria explodir as relações
de produção que o configuram, quando na verdade, ao contrário das antigas
formações sociais, o capitalismo se vale desse desenvolvimento para se legitimar,
sendo que a dialética entre as forças produtivas e as flexíveis relações capitalistas
de produção se desdobra de uma maneira historicamente nova, a um só
tempo dinâmica e estaticamente.
II
Os socialistas se valem das crises do capitalismo, expressão do seu caráter
inerentemente contraditório e irracional, para afirmar seu ponto de vista. Não
obstante, a questão sobre qual será a crise final desse sistema é uma questão
político-prática e não econômico-teórica.
III
Os socialistas querem erradicar do mundo a pobreza de espírito. Tomam-
na como produto direto das atuais condições materiais de existência. O
movimento socialista funda-se no materialismo, mas entendido como crítica
social, tendente a sua consumação.
IV
O socialismo não deve ser tomado como um fim, como telos, mas como
um novo começo, como reconciliação entre homem e natureza que não reivindica
um passado longínquo, pois essa reconciliação se dá num outro plano,
num patamar jamais atingido.
V
O socialismo não deve ser tomado como uma ordem fundada em valores
por ele criados. O socialismo é o desentrave definitivo do processo de
individuação, obstruído pela sociedade de classes. O socialismo é a exuberância
dos indivíduos de uma vez por todas libertos de valores prescritos, unidos solidariamente
pelos laços de justiça, exclusivamente.
VI
O socialismo é igualmente o desentrave do processo de formação de urna
comunidade internacional que preserva as diferenças entre os povos, e que faz
délas o testemunho da riqueza do enfim realizado gênero humano.
VII
O socialismo é o reino da justiça onde se exerce a liberdade.
VIII
Os socialistas pretenderam transformar o mundo; cabe, porém, transformar
os homens, isto é, motivá-los para aquela transformação. O socialismo
depende de um salto psicoterapêutico para além da dominação orquestrada
democraticamente na esfera pública.
IX
O socialismo não é um desdobramento lógico do capitalismo, embora
seja uma possibilidade objetiva. O lógico é tão-somente o histórico que se impôs,
por vezes ilógicamente. O socialismo é a saída talvez ilógica de um mundo
certamente irracional.
X
O socialismo é a superação prática da metafísica realmente existente.
Como a dialética é tão-somente o fruto do esforço mental de compreensão da
fantasmagoria reinante, o advento do socialismo implicará sua obsolescência.
XI
Até lá, os socialistas devem reinterpretar continuamente o mundo social
para uma práxis transformadora sempre renovada.


Fernando Haddad professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

quarta-feira, abril 15, 2009

Síntese/Antítese

Quando o poder da síntese desaparece da vida dos homens e quando as antíteses perdem sua relação vital e seu poder de interação e conquistam a independência, é então que a filosofia se torna uma necessidade sentida.
G.W.F. Hegel

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Quem é o sujeito que está na foto em p&b utilizando minha identidade?

Ele já pensou em escrever um livro sobre a ética em Tolstoi e via no processo revolucionário russo, iniciado em 1905, a grande alternativa ao mundo ocidental. Ficou tão entusiasmado com esse último fato que até aprendeu a língua de Dostoiévski e Máximo Gorki em pouquíssimo tempo.

terça-feira, junho 03, 2008

Ensino de Filosofia e Sociologia passa a ser obrigatório

O presidente em exercício José Alencar sancionou nesta segunda (2), em solenidade no Palácio do Planalto, o projeto de lei que obriga as escolas públicas e particulares do ensino médio a incluir nos seus currículos filosofia e sociologia. A medida atingirá um universo de 10 milhões de estudantes matriculados em mais de 25 mil escolas no país.

As disciplinas foram retiradas dos currículos em 1971 durante o regime militar. Elas foram substituídas pela matéria Organização Social e Política Brasileira (OSPB). O resgate delas foi proposto pelo deputado Ribamar Alves (PSB-MA) que teve seu projeto aprovado no Senado no início do mês passado.

“São disciplinas que permitem ao cidadão exercer seu direito, jamais poderiam ficar fora das disciplinas do ensino médio. Isso é uma grande vitória para o país”, disse José Alencar, que afirmou que o mesmo teria feito (sanção) o presidente Lula se estivesse em Brasília.

A solenidade contou com a presença de representantes de entidades estudantis, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), sindicatos de professores e associações profissionais de sociólogos e filósofos.

O ministro Fernando Haddad (Educação) afirmou que os ensinos de sociologia e filosofia vão ajudar a formar indivíduos capazes de exercer plenamente seus direitos, “de se situar no mundo do trabalho, social e deslumbrar novos horizontes”. Com a lei, que passa a vigorar assim que for publicada no Diário Oficial da União, o ministro diz ainda que será ampliada a rede federal de ensino médio que passará a funcionar com uma política pedagógica diferenciada: educação científica, profissional e humanística.

O representante do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Calegari, afirmou que durante a ditadura militar as duas disciplinas foram alvos preferenciais de todos aqueles que temiam “a luz e a vida, não por acaso foi grande a perseguição de professores e alunos envolvidos no aprendizado”. Ele também criticou o governo de Fernando Henrique Cardoso que teve a oportunidade de sancionar um projeto de lei da mesma natureza, mas preferiu vetá-lo. “Nos anos 90, no alto do pensamento das práticas neoliberais, essas disciplinas voltaram a ser alvo preferencial daqueles que imaginavam uma educação pobre, uma idéia de currículo mínimo e reduzido”.

segunda-feira, maio 19, 2008

Lukács e a Teoria do Romance



Bem aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhes estão abertos e que têm de seguir! Bem aventurados os tempos cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para eles tudo é novo e todavia familiar; tudo significa aventura e todavia tudo lhes pertence. O mundo é vasto e contudo, nele se encontram à vontade, porque o fogo que arde na sua alma é da mesma natureza que as estrelas. O mundo e o eu, a luz e o fogo distinguem-se porque o fogo é a alma de toda a luz e todo o fogo se veste de luz. Assim não há um único ato da alma que não adquira plena significação e não venha a finalizar nesta dualidade: perfeito no seu sentido e perfeito para os sentidos: perfeito porque o seu agir se destaca dela e porque, tornando autônomo, encontra o seu próprio sentido e o traça como que em círculo à sua volta. “Filosofia”, diz Novalis, “significa propriamente nostalgia, aspiração a estar em toda parte como em sua casa”. É por isso que a filosofia, enquanto forma de vida assim como enquanto determina a forma e o conteúdo da criação literária, é sempre o sintoma de uma laceração entre o interior e o exterior, significativa de uma diferença essencial entre o eu e o mundo, de uma não-adequação entre a alma e a ação. É a razão pela qual os tempos felizes não tem filosofia, ou – o que vem a dar no mesmo – todos os homens desses tempos são filósofos, detentores do objetivo utópico de qualquer filosofia. Porque qual pode ser a tarefa da verdadeira filosofia, senão levantar essa carta arquetípica.

segunda-feira, outubro 15, 2007

"ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de esperança."

O último discurso

de “O Grande Ditador”

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!


Canto ao Homem do Povo - Charles Chaplin

Carlos Drummond de Andrade

I

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.
(...)
V

Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.

Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos

VI

Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.

Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.

O ofício é o ofício
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.

Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.

E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e de esperança.

segunda-feira, setembro 24, 2007

De profundis



É um campo de restolho, sob uma chuva negra.
É uma árvore castanha, que se eleva solitária.
É um vento sibilante, que ronda cabanas vazias –
Que triste tarde esta.

Passando pela aldeia
A terna órfã recolhe ainda a escassa espiga.
Os grandes olhos de oiro procuram no entardecer
E o seu seio aspira ao noivo celestial.

No regresso
Os pastores encontraram o doce corpo
Apodrecido entre espinheiros.

Sou uma sombra longe de ameaçadoras aldeias.
Bebi da fonte do bosque
O silêncio de Deus.

Sobre a minha fronte cai frio metal.
Aranhas procuram o meu coração.
Há uma luz que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me numa charneca,
Cheio de dejectos e poeira sideral.
Nas aveleiras
Voltavam a soar anjos de cristal.

(1913)

Georg Trakl
(Tradução de João Barrento)

terça-feira, setembro 18, 2007

Perguntas de um Operário Letrado



Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas
Bertold Brecht (1898-1956)

sexta-feira, setembro 14, 2007

Discurso no Aniversário de "The People's Paper"



Proferido em Londres, a 14 de Abril de 1856

Primeira Edição: Publicado no The People's Paper de n." 207, de 19 de Abril de 1856.
Fonte: . Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA (Traduzido do inglês e publicado segundo o texto do jornal).
Transcrição e HTML: Fernando Antônio de Souza Araújo, março 2007.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


As chamadas revoluções de 1848 não foram mais do que pobres incidentes — pequenas fracturas e fissuras na dura crosta da sociedade europeia. No entanto, elas denunciavam o abismo. Por detrás da superfície aparentemente sólida, elas revelavam oceanos de matéria líquida que apenas precisavam de expansão para fazer em bocados continentes de rocha firme. Barulhenta e confusamente, proclamaram a emancipação do proletário, isto é, o segredo do século XIX e da revolução deste século.

Esta revolução social — é certo — não foi uma novidade inventada em 1848. O vapor, a electricidade e a máquina de fiação foram revolucionários de um tipo muito mais perigoso do que mesmo os cidadãos Barbès, Raspail e Blanqui. Mas, embora a atmosfera em que vivemos pese sobre cada um de nós com uma força de 20 000 libras, senti-la vós? Não a [sentis] mais do que a sociedade europeia antes de 1848 sentia a atmosfera revolucionária que a envolvia e pressionava de todos os lados.

Há um grande facto, característico deste nosso século XIX, um facto que nenhum partido ousa negar. Por um lado, despontaram para a vida forças industriais e científicas, de que nenhuma época da história humana anterior alguma vez tinha suspeitado. Por outro lado, existem sintomas de decadência que ultrapassam de longe os horrores registados nos últimos tempos do Império Romano.

Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário. Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido. Alguns partidos podem lamentar-se disso; outros podem desejar ver-se livres das artes modernas, a fim de se verem livres dos conflitos modernos. Ou podem imaginar que tão assinalável progresso na indústria requer que seja completado por uma igualmente assinalável regressão na política. Pela nossa parte, não nos engana a forma do espírito astucioso que continua a marcar todas estas contradições. Sabemos que, para trabalharem bem, as novas forças da sociedade apenas precisam de ser dominadas por novos homens — e os operários são esses [novos homens]. Eles são tanto uma invenção dos tempos modernos como a própria maquinaria. Nos sinais que desorientam a classe média, a aristocracia e os pobres profetas da regressão, reconhecemos o nosso bom amigo, Robin Goodfellow(1*), a velha toupeira que sabe trabalhar a terra tão rapidamente, esse digno sapador — a Revolução. Os operários ingleses são os primeiros filhos da indústria moderna. Certamente que não serão, então, os últimos a ajudar a revolução social produzida por essa indústria, uma revolução que significa a emancipação da sua própria classe em todo o mundo, [uma revolução] que é tão universal como a dominação do capital e a escravidão assalariada. Eu conheço as lutas heróicas por que a classe operária inglesa passou desde os meados do século passado — lutas menos celebradas, porque são amortalhadas em obscuridade e abafadas pelo historiador da classe média. Para vingar as malfeitorias da classe dominante havia na Idade Média, na Alemanha, um tribunal secreto, chamado "Vehmgericht". Se se visse uma cruz encarnada a marcar uma casa, as pessoas sabiam que o seu proprietário estava condenado pelo "Vehm". Todas as casas da Europa estão hoje marcadas com a misteriosa cruz encarnada. A História é o juiz — o seu executor, o proletário.

Karl Marx (1818-1883)


Notas de Rodapé:

(1*) Robin Goodfellow: ser lendário que, segundo a crença popular inglesa, protegia e ajudava os homens. Vêmo-lo, por exemplo, em acção como Puck na peça de Shakespeare Sonho de Uma Noite de Verão. (Notada edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de Fim de Tomo:

Em 14 de Abril de 1856, num banquete em honra do quarto aniversário do jornal cartista The People's Paper, Marx, usando do direito que lhe foi concedido de falar em primeiro lugar, pronunciou um discurso sobre o papel histórico mundial do proletariado. A participação de Marx no aniversário de The People's Paper foi um dos exemplos mais brilhantes da ligação dos fundadores do comunismo científico com os cartistas ingleses, da aspiração de Marx e Engels de exercer uma influência ideológica no proletariado inglês e de apoiar os dirigentes cartistas com o objectivo de fazer ressurgir o movimento operário na Inglaterra numa base nova, socialista.
The People's Paper (O Jornal do Povo): semanário cartista publicado de Maio de 1852 até Junho de 1858 em Londres; entre Outubro de 1852 e Dezembro de 1856 Marx e Engels colaboraram no jornal, ajudando também a redigi-lo. Em Junho de 1858 o jornal passou para as mãos de homens de negócios ingleses.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Eu, Etiqueta



Em minha calça está grudado um nome, que não é meu de batismo ou de cartório,
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto que nunca experimentei,
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada,
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens, letras falantes, gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências, costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação.
Não sou – vê-lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares, festas, praias, piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa. sou gravado de forma universal,
Seio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

quinta-feira, setembro 06, 2007

Tecelões da Silésia


Sem lágrimas em teares que tremem
tecemos e batemos os dentes.
Alemanha, tecemos nesta ocasião
aqui a tua mortalha e a tríplice maldição
Tecemos. Tecemos.

Maldição ao Deus falso, ao qual rezamos
enquanto o frio e a fome agüentamos.
Em vão confiamos e esperamos;
tem fraudado, mentido e enganado.
Tecemos. Tecemos.

Maldição ao rei o rei dos ricos,
o monstro que traga os peixes pequenos;
que nos oprime, explora e tortura
e, como os cães, nos fuzila.
Tecemos. Tecemos.

Maldição à Pátria falsa e funesta,
que só à vergonha se presta,
que a toda flor precocemente esmaga,
e ao verme alimenta em podridão nefasta.
Tecemos. Tecemos.

Voa a lançadeira e treme o tear.
Tecemos com dedicação sem cessar.
Alemanha de ontem, nesta ocasião,
eis a tua mortalha e a tríplice maldição.
Tecemos. Tecemos.
Heinrich Heine (1797-1856)

quarta-feira, setembro 05, 2007

Cansei! – o engodo burlesco de tacanhos filisteus modernos



Nos encontramos hoje numa situação de plena calamidade social. Em nenhum outro momento da história convivemos com tamanha brutalidade absurdamente gerenciada pelos poderosos:
“Problemas ambientais; aumento significativo da violência nos grandes centros urbanos; crescimento desordenado das cidades e o inchaço das favelas e moradias precárias; constante investimento em tecnologia e armamentos pesados, visando ‘segurança’; acentuação da desigualdade a níveis alarmantes; e concentração de renda cada vez mais brutal na mão de poucos e a generalização da miséria a vastos territórios do globo terrestre” (O desenvolvimento paradoxal do progresso e a hipertrofia da razão instrumental, 2006, p.76, de minha autoria: Leonardo Domingues).
Como se não bastasse essa gélida realidade, alguns pseudodemocratas se intitulam defensores do bastião da moral e da vergonha na cara. Essa cidadela da ética e do respeito mútuo traz à tona toda a bandalheira reinante no país. São pessoas de bem; são indivíduos que se importam com a vida dos outros e, de forma merecida, ganham o reconhecimento sobre seus atos. Esses cidadãos de boa índole serram fileiras na vanguarda da decência e do decoro cívico.
Em outros momentos de nossa história humana, fenômenos parecidos se manifestaram em situações de profunda tensão política, em que a sapiência dos homens tornou-se impotente e cega, perante o assalto da insensatez e da barbárie. Abaixo do solo dos tempos, adormecidos estão esses germes da soberba inquisição a toda e qualquer forma de prudência racional. Só ficam esperando o momento certo para saírem da toca. Cito dois exemplos de acirramento ideológico em torno da “defesa” da moral e da ética: Quem não se lembra da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que preconizava quase as mesmas coisas? Pouco mais de trinta anos antes desse fato, na Alemanha estava ocorrendo um movimento de renovação nacional, apoiado, principalmente, pela classe média e pela burguesia, que culminou com a ascendência de Hitler ao cargo de Chanceler da nação. Trago esse dois exemplos para analisarmos, no que diz respeito ao movimento Cansei, quais são as reais intenções que motivam essas pessoas a agirem dessa forma. Quem está cansado? Por que motivo? Cansado de que? Como está cansado?
Assim sendo, proporciono uma pequena anátema crítica, estabelecendo um diálogo com o outro lado da moeda, com aqueles que já estão cansados há muito tempo. O manifesto seria proferido não em aeroportos ou shopping centers, mas sim, nos bolsões de miséria desse vasto e rico Brasil.

Cansei de ser invisível à sociedade, que só se lembra de mim quando a minha violência diária chega a casa dela.
Cansei de ver meus filhos sem perspectiva alguma, vítimas da dor e do flagelo, lutando a cada instante pela existência desumana e miserável que nos cabe.
Cansei de ser a força produtiva de uma produção que não me pertence, e sim ao outro, que me explora diuturnamente a troco de uma ração inumana.
Cansei de esperar e esperar pela esperança de um dia ser tratado de forma mais digna e humana.
Cansei de ser cercado pelos frios mundos da desigualdade e de viver num cárcere econômico antagônico, vil, covarde e cruel.
Cansei de perceber que é dessa contradição insensata que brota a “igualdade de condições” entre os homens. De sentir, de forma intensa, o quanto que de meu padecimento é que se eleva o prazer luxuoso do outro, do dono.
Cansei de ser escorraçado, vilipendiado e atrozmente ceifado em favor da ordem pública e do bom andamento dos processos.
Cansei de viver como animal, em pocilgas fétidas de sórdidos entulhos e ver que estou em pior condição que isso, porque o animal de estimação do outro vive em melhores condições do que a maioria de nós.
Cansei de ver que somos nós que cremos em Deus, mas são eles que são abençoados.
Cansei de repetir que “rico pede paz para continuar rico, e que pobre pede paz para continuar vivo”.
Cansei! Estou cansada!


“O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão” (...) “Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria”(...)”O trabalhador põe a sua vida no objeto; porém agora ela já não lhe pertence, mas sim ao objeto. Quanto maior a sua atividade, mais o trabalhador se encontra objeto. O que se incorporou no objeto do seu trabalho já não é seu. Assim, quanto maior é o produto, mas ele fica diminuído.”(...) “O trabalhador torna-se escravo do objeto”(..) “Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades”(..)”ele não é o seu trabalho, mas o de outro”(...)”Chega-se à conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo nas suas funções animais – comer, beber e procriar, quando muito, na habitação, no adorno etc. – enquanto nas funções humanas se vê reduzido a animal”(..)”Esta é a auto-alienação”(...)”A vida revela-se simplesmente como meio de vida”(...)”Se a sua atividade constitui para ele um martírio, tem de ser fonte de deleite e de prazer para outro”.


Este é um texto escrito por um jovem de 26 anos, herdeiro do mais profundo pensamento humanístico. Em suas palavras ecoam as idéias de toda a tradição que o precedeu. O herético, o novo, a vontade de realizar de forma plena a existência humana: esse era o lema de toda a Filosofia Clássica Alemã, assim como, também o era do Renascimento, do Humanismo e da Grécia Antiga. Seu nome? Karl Heinrich Marx. Manuscritos econômico-filosóficos.

Que castigo tenho a temer, se mal algum eu faço? Possuís muitos escravos, que como asnos, cães e mulos tratais, e que em serviços empregais vis e abjetos, sob a escusa de os haverdes comprado. Já vos disse que os pusésseis, acaso, em liberdade? que com vossas herdeiras os casásseis? por que suam sob fardos? que lhes désseis leitos iguais aos vossos? e iguarias que como ao vosso paladar soubessem? Em resposta, decerto, me diríeis: “Os escravos são nossos”.


Essa é uma das falas de Shylock, pronunciada durante o famoso julgamento em “O mercador de Veneza”, de William Shakespeare.

Cansei de um progresso que só eterniza a desigualdade do presente. Onde está o progresso humano?

Cito mais um trecho de meu breve texto supracitado:


O triunfo dos meios sobre os fins deriva de um largo processo de promoção de um desenvolvimento desigual e desumano. Os fins essencialmente humanos, autônomos e emancipatórios foram transubstanciados em formas eminentemente modernas de produção e reprodução de miséria e de sofrimento. A tão conclamada globalização, panacéia dos novos tempos, escamoteia em seu comércio ilimitado de mercadorias quais são as verdadeiras faces desse progresso antagônico. Pelo uso instrumental de formas racionalizadas de produção e escoamento de produtos não existem mais barreiras de qualquer tipo para findar a expansão pela busca de novos mercados. Ao mesmo tempo em que as mercadorias têm trânsito livre por todos os cantos, o mesmo não acontece com a riqueza, nem com a ciência, nem com o conhecimento. Estes ficam monopolizados nos grandes centros industriais, nas universidades tecnológicas e nas grandes empresas. A liberdade que a mercadoria desfruta se converte em confinamento para o indivíduo. Se aos produtos comercializáveis tudo é permitido, para os seres humanos somam-se as segregações étnicas, religiosas, econômicas, culturais, políticas, para a sua conciliação com os outros.
Num capitalismo cada vez mais tecnológico, racionalizado, administrado e expansivo, a racionalidade instrumental é imanente aos processos de valorização de capital. Contra barreiras de dominação sofisticada, o homem padece diante de uma, cada vez mais intransponível e inexorável, “gaiola de ferro”. Se nos pressupostos weberianos tais constatações já estavam muito avançadas, na teorização frankfurtiana esse fenômeno é repensado de acordo com os novos desenvolvimentos do capitalismo tardio. Num mundo instrumentalizado, onde somente são válidas as ações que sirvam para atingir algum fim prático e útil, todas as atuações dos indivíduos tendem a se submeter a uma só lógica: seus desejos, suas vontades, seus sentimentos, sua consciência, tudo se torna um mero instrumento.

O pensamento crítico luta por conceituar o caráter irracional da racionalidade estabelecida e por definir as tendências que fazem com que essa racionalidade gere sua própria transformação. Apesar da constatação desesperançada e concreta sobre a atual complexidade da realidade, a Teoria Crítica não perdeu a esperança em torno da razão humana. “Não alimentamos dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.13). Horkheimer, em sua última frase de Eclipse da Razão, nos lembra que, “se por evolução científica e progresso intelectual queremos significar a libertação do homem [...] então a denúncia daquilo que atualmente se chama razão é o maior serviço que a razão pode prestar” (HORKHEIMER, 2003, p.187). Portanto, enquanto possibilidades efetivas de transformação objetiva e subjetiva não estão no horizonte, o espírito crítico e contestatório será o norte para a produção de um mundo mais justo e sensato.

O desenvolvimento paradoxal do progresso e a hipertrofia da razão instrumental - 2006, p.80

segunda-feira, setembro 03, 2007

Não bater à porta



A tecnificação torna, entrementes, precisos e rudes os gestos, e com isso os homens. Ela expulsa das maneiras toda hesitação, toda ponderação, toda civilidade, subordinando-as às exigências intransigentes e como que a-históricas das coisas. Desse modo, desaprende-se a fechar uma porta de maneira silenciosa, cuidadosa e, no entanto firme. As portas dos carros e das geladeiras são para serem batidas, outras têm a tendência a fechar-se por si mesmas, incentivando naqueles que entram o mau costume de não olhar para trás, de ignorar o interior da casa que o acolhe. Não se faz justiça ao novo tipo de homem, se não se tem consciência daquilo a que está incessantemente exposto pelas coisas do mundo a seu redor, até mesmo em suas mais secretas inervações. O que significa para o sujeito que não existam mais janelas que se abram como asas, mas somente vidraças de correr para serem bruscamente impelidas? Que não existam mais trincos de portas, e sim maçanetas giratórias, que não existam mais vestíbulos, nem soleiras dando para a rua, nem muros ao redor do jardim? E qual o motorista que já não foi tentado pela potência do motor de seu veículo a atropelar a piolhada da rua, pedestres, crianças e ciclistas? Nos movimentos que as máquinas exigem daqueles que delas se servem localizam-se já a violência, os espancamentos, a incessante progressão aos solavancos das brutalidades fascistas. No desaparecimento da experiência, um fato possui uma considerável responsabilidade: que as coisas, sob a lei de sua pura funcionalidade, adquirem uma forma que restringe o trato delas a um mero manejo, sem tolerar um só excedente – seja em termos de liberdade de comportamento, seja de independência da coisa - que subsista como núcleo da experiência porque não é consumido pelo instante da ação.


ADORNO, Theodor W. 19. In:______. Minima Moralia. Trad. de Luiz Eduardo Bicca, com revisão de Guido de Almeida. São Paulo: Ática, 1993.

domingo, agosto 26, 2007

Dividir é um compartilhar humano ou uma equação matemática?

A ampliação dos avanços da técnica e da racionalidade de cálculo para toda a esfera do ser, que já vem de muitas décadas, nos obrigam a investigarmos como se dá a sociabilidade nos micro-ambientes e nas pequenas relações. A vida em conjunto, em sociedade, nos impõe uma necessidade básica: para suportarmos as intempéries e as forças da natureza precisamos uns dos outros. Desta forma, construímos e produzimos socialmente tudo o que está as nossas vistas para o nosso próprio benefício, para sustentar e prolongar nossa existência. Na relação com a natureza, modificando-a e transformando-a, a base material é constituída e fundada para a elevação do edifício social ao qual residimos.
Sem me alongar sobre a gênese da divisão do trabalho e de sua incorporação perversa na lógica produtiva capitalista, quero pegar como ponto de partida algo comum nas grandes cidades: os prédios. Para exprimir esses devaneios especulativos, tomo minhas experiências pessoais como um substrato relevante para algumas conexões entre a realidade objetiva e a teoria social. No entanto, já de antemão, deixo claro que são só algumas notas marginais, esparsas, de minhas inquietações subjetivas.
Dividir, segundo alguns dicionários, quer dizer: “1. Partir, separar em duas ou mais partes. 2. Distribuir; repartir. 3. (Mat.) Efetuar a divisão em. P. 4. Separar-se; desunir-se. 5. Discordar; divergir; dissentir”. Penso que o ato de dividir, o distribuir dos recursos materiais, precede a própria noção matemática de dividir, tal qual está estabelecida no dicionário. O dividir humano estabelece-se muito antes da noção aritmética. A ciência dos números denota uma certa objetividade para o cálculo; pressupõe-se uma razão imparcial, impessoal e, profundamente, lógica. Com o desenvolvimento das forças produtivas, da ciência e da tecnologia, houve um triunfo da abstração numérica penetrando até nos campos mais recônditos da vida social.
Dentre todos esses sentidos (expressados nas definições do dicionário), como podemos pensar o que é dividido dentro de um edifício residencial? Não há um significado que chegue próximo ao compartilhar, somente verbos frios e eficientes. Dividimos tudo o que existe e cada um cuida de sua parte, ou compartilhamos o que existe para que todos possam ter o melhor usufruto coletivo? Não estamos muito distantes de pensar outras dimensões da vida social. Poderíamos repensar a noção de liberdade, por exemplo. Em todos os cantos ouvimos que “a minha liberdade vai até onde está a liberdade do próximo”. Parece que “liberdade” se tornou uma figura geométrica, um pequeno quadrado de mobilidade do indivíduo. Aos que têm muitas posses e que comandam os meios produtivos, a liberdade é plena e quase irrestrita. Torna-se um gigante quadrado que ultrapassa a área dos adjacentes não reconhecendo qualquer lei ou norma que o coíba. Para contrapor a essa concepção, evoco a noção de liberdade para Hegel, em que a minha liberdade tem que se complementar com a liberdade do outro. Livres, só somos quando temos um compartilhar coletivo e efetivo.
Em um prédio comum existem portas, escadas, janelas, elevadores entre outros. Os espaços coletivos também representam uma parte constituinte dos edifícios. A construção de habitações conjugadas foi uma necessidade devido ao inchaço das cidades e a multiplicação crescente da população urbana. Foi previamente concebida como uma imposição das leis do cálculo pela lógica produtiva em que os indivíduos não deveriam mais residir em casas espaçosas, com ampla área no entorno. Agora, eles se amontoariam em pequenas caixas de sapato, dispostas umas sobre as outras, as quais hoje chamamos de apartamentos. Eles possuem apenas aquilo que é necessário para reproduzir a força produtiva que engrena a máquina (força de trabalho). São em pequenos espaços “três por quatro” que constituímos nossas famílias e que damos o nome de lar. Parca mobília e alguns adornos amorfos decoram o ambiente. Nos sentimos indiferentes em meio ao não-pertencimento representado no local. Tudo proveio da fábrica e foi produzido em série, como toda experiência do ser.
O ápice da sociabilidade moderna é dizer “oi” e “tchau” no elevador. É um ato súbito de benevolência, ao se lembrar que, por aqueles frios corredores e escadas, residem outras pessoas. É a efêmera noção de não estar sozinho em meio a tanta solidão. Ser refém cativo de portas, grades e trancas, enquanto lá fora, brilha um sol escaldante, porém programado. Ouvir barulhos pelas paredes e pelos cantos e saber que é isso que o lembra que acima e abaixo existem barreiras. Esses sons estranhos nos recordam que temos de trancar bem as portas e fechar as janelas. E o que não dizer das cercas elétricas, das câmeras de circuito interno e de toda a “segurança” que a tecnologia pode nos dar? Por que não colocar logo minas-terrestres nos jardins da entrada? Ou mesmo, um lança-chamas no portão principal?
O fato é que dividimos tudo o que se encontra no prédio, mas é somente uma divisão aritmética. É uma coação resultante de uma determinação do sistema produtivo: temos de dividir. Já que somos obrigados, então que seja pela fria e precisa lógica do cálculo, nada mais.
Moramos anos e anos nesses edifícios e não conhecemos ninguém. Não há uma relação com o vizinho. Não há nada, apenas a clareza real de ter de cumprir com suas obrigações materiais e só. É o sair pela manhã e voltar só no fim da tarde. Morar apenas para ter um lugar para dormir e descansar bem, para produzir muito no dia seguinte.
No sistema há o imperativo categórico da divisão, dominação e produção. É como dizia Napoleão: “dividir para conquistar”.

sexta-feira, agosto 24, 2007

O Insensato


Não ouvistes falar desse louco que, em pleno dia, acendia uma lanterna e se punha a correr pela praça pública gritando incessantemente: "Procuro Deus! Procuro Deus!". Como estavam ali muitos que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou uma grande gargalhada. Dizia um: "Então, Deus se perdeu?”. “O quê? Deus perdeu-se como uma criança?”, perguntava outro. “Ou escondeu-se? Tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou?” – assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo. O louco precipitou-se para o meio deles e trespassou-os com o olhar: “Para onde foi Deus?” - gritou-lhe. “Eu vou dizer-vos isso. Nós o matamos, vós e eu! Todos nós somos os seus assassinos. Como pudemos fazer isso? Como fomos capazes de esvaziar todo o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos quando separamos esta terra de seu sol? Para onde ela se movimenta agora? Para onde nos levam seus movimentos? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem cessar? Para trás, para o lado, para a frente, para todos os lados? Existe ainda um acima e um abaixo? Não erramos como através de um nada infinito? O espaço vazio não sopra sobre nós? Não faz mais frio? Não vem a noite e cada vez mais noite? Não é preciso acender lanternas em pleno dia? Não ouvimos ainda o ruído dos coveiros que enterraram Deus? Não sentimos putrefação divina? Também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E fomos nós que o matamos! Como nos consolaremos, nós, os assassinos de todos os assassinos? O que o mundo possuía de mais sagrado e mais poderoso perdeu seu sangue sob nossas lâminas – quem lavará esse sangue de nossas mãos? Com que água poderemos purificar-nos? Que expirações, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não temos de converter-nos em deuses, para parecermos dignos desse ato? Nunca houve ato mais grandioso – e quem nascer depois de nós fará parte, por causa desse ato mesmo, de uma história superior a tudo o que foi história até agora”. Aqui se calou o louco e encarou outra vez os ouvintes; também eles se calavam e o olhavam com estranheza. Por fim, atirou ao chão a lanterna, que se partiu em pedaços e se apagou. “Vim cedo demais”, disse então: “Ainda não é chegado o meu tempo. Esse enorme acontecimento ainda está a caminho e viaja – ainda não atingiu os ouvidos dos homens. O relâmpago e o trovão precisam de tempo, depois de terem sido realizados, para serem vistos e ouvidos. Esse ato está ainda mais distante dos homens que o astro mais distante – e no entanto foram eles que o reaizaram!” (Grifos meus)


NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Hemus, 1981.

quinta-feira, agosto 16, 2007

A experiência em Londrina

Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é ascender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos de nosso posto
Érico Verissimo


“Trabalhadores! Trabalhadores! Vocês têm que parar! Não podemos mais agüentar essa situação! Vamos parar! Precisamos parar e apreciar a nova Mortadela Ouro Perdigão!”.
Possivelmente, se não fosse pelos anos em Londrina, essa pequena propaganda que ouvi enquanto estava dirigindo, seria meramente fagocitada e, automaticamente, expelida pelo meu cérebro em fração de segundos.
O fato retratado pelo anúncio de rádio é a simulação de uma greve de operários. Há uma encenação feita em estúdio, em que são adicionadas muitas vozes em coro para representar, de forma fidedigna, a situação interna de uma fábrica como se fosse na vida real. Num dado momento da propaganda há uma “explicação” para toda a idéia, em que “justificam” a concepção de uma greve pelo fato da mortadela ser, ou ter, alguma relação com a Itália (confesso que não entendi bem essa parte). Ou seja, para as pessoas que escutassem aquilo tudo, era como se o ato de fazer greve fosse de origem italiana ou que – o que é mais estranho, porém mais “justificado” –, a forma como concebemos essas manifestações passam, indireta ou diretamente, por um estereótipo do italiano “baderneiro”. Entendo que há uma longa associação, desde os primórdios da imigração para cá, entre italianos/europeus de uma forma geral e suas “imorais” manifestações políticas. Entretanto, tal “razão” não se auto-justifica. Resisto em continuar a falar sobre esse “fato banal”, porque seria a partir dele que pensei em traçar o que Londrina (na minha concepção particular) significou e representou em minha formação humana. Ademais, voltando a propaganda, o que de errado há em colocar numa mesma balança mortadela e uma greve de trabalhadores? Certamente alguns estudantes de marketing diriam que é uma forma original de apresentar um produto aos consumidores, outros, como a maioria, nem teriam tempo de pensar em nada, pois têm de correr atrás do ganha-pão de todo dia e não podem se dar ao luxo de reflexões, em qualquer grau que seja. Todavia, o que há de errado em fazer esse tipo de comercial? Não temos censura, a imprensa é livre e vivemos numa democracia consolidada. Entretanto, é exatamente aí que mora o problema, não temos necessidade de pensar em nada, já está tudo dado e revelado (tudo devidamente pronto. É como se um garoto chegasse à sua festa de aniversário – nesses espaços modernos feitos somente para isso – e encontrasse todos os brinquedos eletrônicos devidamente prontos e ligados, somente esperando para que ele os possua em pleno gozo primitivo). As coisas já trazem em si mesmas suas respostas e verdades. Somente cabe a nós engolirmos tudo isso, tal qual fazemos com nossas refeições fast-food. “Por que pensar, você quer é chegar rápido ao trabalho!”, esse poderia ser o lema de um anúncio de automóvel.

“Mas quantas são as mentes humanas capazes de resistir à lenta, feroz, incessante, imperceptível força de penetração dos lugares-comuns?” (Primo Levi)
COISIFICAÇÃO

Por que estou dizendo tudo isso? Porque a vida virou uma mercadoria e viver é uma grande propaganda. São só negócios. Participamos do engodo nefasto apenas como engrenagens subordinadas. Insurreições, revoltas, revoluções; hoje tudo não passa de um meio de valorizar capital. Vivemos vidas mesquinhas e pequenas que servem somente para produzir e reproduzir o monstro desigual que nos mantêm no alto de grandes construções tecnológicas, enquanto famintos e miseráveis clamam por dignidade abaixo de nossas janelas. “Não pense demais, os bandidos estão à solta e vão assaltar seu lindo lar: ponha uma cerca elétrica, dinamite os portões, esconda algumas minas terrestres pelo jardim, blinde seu honrado automóvel”. Não há mais vontade, não há mais querer, não há grito de desespero que toque no coração de nossa coerência mecânica. Instintivamente coagidos, somos mantidos em cativeiros hedonistas, para o deleite do cálculo frio e desumano. Prisioneiros de nós mesmos e da efêmera vivência programada, fazemos reverência ao açoite diuturno que nos alimenta no mais irresistível gozo primário. O mundo oferece-nos tudo o que desejamos, não há do que reclamar. É desagradavelmente brilhante como as pessoas não percebem isso, como não percebo isso, todo dia, ao caminhar pelo mundo. Vivemos para sobreviver e sobrevivemos para existir matematicamente no meio do todo. É indelével a máxima de Adorno, dizendo que não há mais vida, ou sua citação dizendo que, nesse sistema produtivo, “a vida não vive”.

“O grave é que a própria existência liberada não adquire sentido” (Adorno)

“A liberdade contraiu-se em pura negatividade (...) o fim objetivo do humanismo é apenas mais uma expressão da mesma coisa. Significa que o indivíduo como indivíduo, representando a espécie humana, perdeu a autonomia por meio da qual podia realizar a espécie” (Adorno)

“A repressão assume a forma da liberdade. A violência contra o pensamento não se manifesta mais como proibição de pensar, mas como liberdade de pensar o que, nas condições atuais de condicionamento invisível, significa a liberdade de pensar o que todos pensam” (Rouanet)

“Estamos na prisão, livres podemos apenas nos sonhar, não nos tornar” (Nietzsche)

“A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida” (Marcuse)
ALIENAÇÃO

“Todos somos livres para dançar e para se divertir, do mesmo modo que, desde a neutralização histórica na religião, são livres para entrar em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção econômica, revela-se em todos os setores como a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa” (Adorno & Horkheimer)

“A situação factual do capitalismo não é uma questão de crise econômica ou política, mas de uma catástrofe da essência humana” (Marcuse)

De que modo tudo se relaciona com a minha referida passagem? Subverti minha existência, redirecionei minha vida a partir do ponto em que me vi isolado no meio de centenas de autômatos. A pequenez que ronda nossa geração marcou-me com ferro quente um código de barra na testa. Vivi boa parte de minha vida sem viver, sem sonhar, sem pensar além da lógica infernal da produção e do consumo. Ainda vivo. Não podemos deixar de fazer parte da totalidade diabolicamente mágica e escravizante. Este é nossa sociedade, as mães carinhosas procuram nomes para os filhos observando as marcas que aparecem na Tv. Jovens querem modificar seus carros para serem respeitados e serem notados – quando é possível tê-los. Outros fazem cirurgia plástica para se parecerem com seus ídolos*. Algumas propagandas criam simulacros tão reais que confundem até os alto-escalões da burocracia parlamentar. O mais novo filão do mercado são as chamadas Cross-medias. Especificamente, elas unem vários tipos de media para pôr na cabeça do indivíduo que ele não pode viver sem a respectiva marca. É impressionante. Assisti a uma reportagem altamente apologética que destacava o potencial envolvido nesse tipo de investimento. A única empresa que até agora participou ativamente como um modelo foi o Guaraná Antártica. O que eles fizeram? Criaram um jogo misturando eventos reais com fictícios para que o consumidor fique diuturnamente entretido, tentando adivinhar os mistérios montados pela empresa. Não vou me prolongar, mas fez-se uma historinha sobre o guaraná da Amazônia e os interesses globais do capitalismo tardio. Para vocês terem uma noção, a empresa inventou tantas coisas e fatos – pessoas, organizações – que até se aproveitaram da visita do Bush para se infiltrarem e “protestarem” contra uma “empresa de brincadeirinha” que queria “roubar” a fruta exótica dos trópicos. Ou seja, é tudo mercadoria. Aproveitar-se de uma manifestação pública e política para fazer publicidade barata faz parte do jogo. Ser um manifestante é apenas mais uma das múltiplas pseudo-personalidades que são ofertadas no mercado, cabe a nós seguimos a onda. Num belo dia somos punks, no outro dia grunges, no outro dia intelectuais, outro dia engajados politicamente; fazemos isso desde que por trás tenha uma mega-estrutura que engendre e fabrique essas necessidades. A contra-cultura vira sabão em pó, como a greve de trabalhadores vira mortadela. Adorno retrata de forma esplêndida a essência desse mundo: “personalidade”, diz ele, “significa para elas [indivíduos] pouco mais do que possuir dentes deslumbrantemente brancos e estar livres de suor nas axilas”.

“Os homens podem se sentir felizes mesmo sem sê-lo de modo algum” (Marcuse)
REIFICAÇÃO

Ser reconhecido, em todos os aspectos, só se torna possível pela condição de mercadoria. Não temos mais nada que diga respeito a nós mesmo, somente aos modos de vida proporcionados pelo prazer de consumir, de adquirir novidades e de ser admirado por tal atitude. Essa última palavra também é representativa. Quantas vezes ouvimos “atitude” nos vários campos da vida mercadológica. Ter atitude é usar calça rasgada, não é? Pois então, hoje as indústrias fabricam calças já rasgadas. Em grandes lojas de departamento é quase que impossível não notar essas coisas. Os ornamentos antes usados pelos punks, hoje fazem parte da C & A por meio de figurinos prontos. Compram-se roupas com conceitos pré-formados – frases prontas – em que o único intuito é usar e descartar, tal qual fazemos com qualquer coisa no mundo. Só existimos e somos notados por meio das marcas e dos conceitos que elas representam. As mercadorias determinam nossa concepção de mundo. Um dos meios de lembrarmos as outras pessoas que existimos é colocar grandes adesivos no vidro-traseiro do carro com os dizeres: “Cuidado! Pedro a bordo!”. Quando não encontramos vários nomes diferentes, e isso tudo para lembrar o outro motorista que, ali, é transportada tal pessoa – crianças e bebês. Ou seja, para dizer que alguém existe é preciso recorrer a adesivos e carros novos. “Seu carro é uma extensão de seu corpo”, essa poderia ser outra propaganda adorável.
Um lamentável acidente aéreo nos lembra o quão perigosa é a nossa relação com o mundo. Muitos seres humanos morreram em frações de segundos, assim como muitos outros são ceifados pela fome diariamente. Mas o fato destacado nos mostra o perigo do dia-a-dia, o passeio de ônibus, a viagem de trem... A técnica tem um poder incrível de modificar tudo, principalmente nossas vidas. Como mostrar nossa indignação perante toda essa barbárie? É só clamar pelas mercadorias! Vítimas trágicas são lembradas com camisetas estilizadas – e como hoje ouvimos esse termo[1]. São empresas que vivem da desgraça humana. Colocar fotos descartáveis em camisetas brancas de algodão é um péssimo meio de nos lembrarmos dos mortos e, além do mais, é de um mau gosto louvável. Todavia, é simples, é rápido e pode ser produzido aos milhões. Já presenciei, num velório de uma pessoa próxima, como a morte se tornou um grande negócio. A empresa cuida de tudo para os familiares e ainda faz alguns banners e pequenas lembranças em homenagem ao falecido. Nada mais do que esses panfletos que algumas pessoas nos entregam nos semáforos dos grandes centros sobre peças de carros, sobre sanduíches em promoção ou sobre desconto na faculdade. Olhamos para o papel por dois segundos e, em seguida, encontramos algum lugar adequado para deixá-lo longe de nosso alcance. A empresa que é responsável pelo túmulo também deixa sua marca e logo para que a família saiba que sempre pode contar com eles. Nas grandes cidades existem lugares específicos para velórios e lá eles são feitos como que numa linha de produção. A prefeitura, para mostrar seu respeito pelo dinheiro público, ainda encontra meios para que se intensifique a produção aritmética de sepultamentos e últimas despedidas, afinal, o que “você quer é que o trabalho seja rápido, produtivo, impessoal e que ainda encontre um tempinho para o futebol na Tv”, esse poderia ser outro comercial bem criativo.

“O problema é o de modificar a própria vontade, de modo a evitar que as pessoas continuem a querer o que querem agora” (Marcuse)
MERCADORIA

Somos controlados pelo poder demiurgo que a ciência confere aos produtos. Quando estamos com fome, empanturramo-nos de comida cheia de gordura, açúcar e sal, em quantidades assombrosas. Essa obsessiva compulsão sacia nossa vontade de mundo, põe fim na carência de vida. O sexo gratuito libera Eros para um prazer frio e mecânico. Quando estamos felizes, prolongamos nossa felicidade imediata com bebidas alcoólicas e controles de televisão. Se, por outro lado, estamos tristes, como que num passe de mágica, a tristeza vai embora após uns bons e eficientes anti-depressivos. E é assim que vivemos atualmente. Quando estamos fracos, tomamos anabolizantes; se quisermos ficar magros consultamos as espantosas dietas. Bulimia, anorexia e outras podem ser requisitadas, se necessárias. Tal qual um feto na barriga da mãe vivemos em contínuo estado de letargia, mas muito bem alimentados e seguros. Você ainda quer se rebelar contra isso? Não seria melhor passar pela locadora e ver um filme? É melhor permanecermos adormecidos e emudecidos pelo feitiço das mercadorias. Como diria nossa ministra do turismo: “Relaxa e goza”; poderíamos acrescentar: por toda a vida árida e enfadonha que a felicidade programada nos proporciona.
O mundo-mercadoria tornou-se próximo aos meus empreendimentos intelectuais após sucessivas leituras de fantásticos autores alemães. É a partir de um determinado ponto de minha vida, como foi supracitado, que inquietações diversas e não-usuais passaram a ser diárias. Num determinado momento da minha vida conheci um batalhão de robustos guerreiros heréticos. Aos poucos fui me situando em meio a eles e reconhecendo e admirando a riqueza profunda habitada no corpo humano que nos une. Partilhar do desejo dos homens de criar uma existência realmente humana é dar prova da grandeza da vida. O saber que toca em nossos corações é aquele que penetra, com mais intensidade e amor, no que é mais vivo. Os guerreiros – de que falei há pouco – foram se multiplicando; ao descobrir um, parecia que este um era escoltado por outros muitos e estes por outros tantos. Marx, Hegel, Adorno, Horkheimer, Lukács, Bloch, Weber, Fromm, Benjamin, Nietzsche, Marcuse, Freud, entre outros tantos... Nunca imaginei que esses nomes ficariam tão presentes em minha existência.

“A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva” (Marx)

O norte-paranaense trouxe-me amigos que transcendem, em idéias e sentimentos, a busca pela reprodução diária da existência. Conheci muitas mentes lucidamente autênticas por esses anos. Muita falta farão, e já fazem, em meus pensamentos. Como era bom discutir naquele campus e sob a copa das árvores. A vida passava bem devagar e isso propiciava com que pudéssemos tentar desvendá-la muito sucintamente. Em poucos metros quadrados encontrávamos tantos diálogos distintos. A crise era imanente e instigante: possibilidades múltiplas de compreender o espírito humano. A realidade crua e brutal, que a teoria nos proporcionava, era contrastante com os límpidos verdes campos que nos circundavam.
Foram tempos memoráveis que marcaram e modificaram profundamente o meu ser. Despertaram-se para mim, os mais terríveis e brilhantes tesouros da humanidade. Compreendi a força e a fecundidade que existe por detrás das gélidas e estéreis estantes das bibliotecas e dos empoeirados sebos da vida. A força de dizer ao mundo, tal qual disse Fromm, em momentos de miséria e degradação: “que o humano prevaleça!”.

“A reforma da consciência consiste exclusivamente no fato de deixar que o mundo tome conhecimento de sua consciência, de despertar o mundo do sonho que está sonhando a seu próprio respeito, de interpretar para o mundo as suas próprias ações (...) Nossa divisa deve ser: reforma da consciência, não através de dogmas, mas pela análise da consciência mística autoconfundida, seja pelo conteúdo político ou religioso. Veremos, então, que o mundo já possuía, há muito tempo, o sonho de alguma coisa, da qual só deve ter consciência para possuí-la na realidade. Veremos que não estamos tratando com um enorme hiato entre o passado e o presente, mas com a realização dos pensamentos do passado. Finalmente, veremos que a humanidade não começa nenhuma tarefa nova, mas realiza a velha tarefa conscientemente (...) isso é uma confissão, nada mais. Para ter seus pecados perdoados, a humanidade tem apenas de explicá-los tal como são” (Marx)
* Programas da Mtv. Existe um outro programa em que garotos e garotas, sem se conhecerem, tentam descobrir a personalidade alheia apenas conferindo marcas de roupas, gostos musicais e tudo mais que se precisa saber para ter a certeza se a referida pessoa está ou não está na onda, se é ou não é legal.


[1] Tudo é estilizado, mas em larga escala, é uma verdadeira reprodução em série de roupas personalizadas, feitas com sua cara, seu estilo; pensando exatamente no seu gosto; “você tem o seu estilo, a Renner tem todos!”

sexta-feira, agosto 03, 2007

Aliterações frias e cadentes

É muito estranha a sensação de escrever atualmente. Muitos não vão concordar comigo, mas existe algo de sombrio quando temos de enfrentar esse pálido complexo de plástico e micro-chips.
Há menos de vinte anos esse “estranho no nino” causa perplexidade. Como pode, um objeto tão insípido causar tanta transformação? De um dia para o outro tomou conta das casas, dos hospitais, das indústrias, das escolas, dos mercados e ainda vai invadir muitos outros ambientes. O que existe de tão especial nesse ente que ainda está adquirindo forma? Os profetas adoram esse mistério, as fábricas de dinheiro não ficam para trás. Não é somente um atavio indigesto, mas também uma miraculosa e mística “caixa mágica”, pela qual confidenciamos as mais pedantes e sórdidas intimidades. Seria a mais pura banalização da vida ou, o meio mais sensato de construir cultura? O que nossos vinte e cinco séculos de cultura diriam? Como se comportariam os grandes escritores de séculos atrás ao acordarem diante de tal objeto? Certamente nunca acreditariam que é a partir dele que nos comunicamos e trocamos informações. É plástico. Será que isso ajuda? Mais parece um instrumento de hospital, como aqueles que ajudam pacientes muito debilitados a viver. Lembra-se do “desliguem os aparelhos e deixem-no morrer em paz”? Pois é, a impressão que me toca é essa. E esse barulho estranho que sai da caixa? Muito mistério. É por aí que seres místicos conduzem nossas vidas. Silenciosamente, sem dar um só tiro ou uma ordem, sempre estamos aqui a apertar os botões. Diante de tudo o que nos é ofertado fica muito difícil resistir. É o pleno deleite. Quanta novidade, quantas horas a fio sem fazer outra coisa, a não ser, apertar os botões. Tem alguma dúvida enquanto escreve? Dê uma olhada no Wikipédia, está tudo lá. Para que procurar mais? Quer um dicionário?
Uma professora uma vez me contou o insólito episódio que sua filha protagonizou em frente ao computador. A escola pediu para que ela fizesse uma pesquisa sobre deuses gregos. E onde fazemos pesquisa atualmente? Pois então, a menina pôs-se a digitar. E onde iria procurar? No Google, é lógico! E qual foi o resultado? Ao invés de Afrodite, Atena e Eros, saíram os galãs de novelas em fotos sensuais.
O que mais pesa nessa história é que ela se passou com uma criança que ainda não dispõe de meios adequados para absorver esse tipo de coisa. Em outros tempos, nem tão distantes assim, quando a professora pedia uma pesquisa sobre qualquer assunto fazia-se necessária a presença em uma biblioteca para se interar do assunto. Quando percorremos essa trajetória temos um contato mais mediado entre as teorias e o mundo. É muito raro alguém entrar numa biblioteca procurando algo em específico e se contentar com aquilo. Lá, cada assunto remete a outro e, desta forma, as pessoas vão construindo redes de aprendizado. Não é fácil encontrar em meio a tantos livros alguma coisa específica sobre racismo, por exemplo. Para encontra-la terá de resgatar muitos outros assuntos pelo caminho, de modo que isso não se processa na busca pela internet. Neste meio tudo segue o instrumentalismo calculista; faz-se pesquisa pelo número e pelo formato dos caracteres das palavras. É seco e direto, sem metáforas, sem ambigüidades, sem contradições; ou é 0 ou é 1. O meio segue a produtividade, a economia de recursos e o maior retorno no menor tempo. Aí, é isso que dá. É só apertar botões.
As gerações mais novas estão perdendo o contato com a escrita feita à mão. É muito mais fácil decorar os caracteres prontos. Não há porque ter de contar historinhas para dizer como o “a” surgiu e que ele é uma casinha. Qualquer criança, por mais nova que seja, sabe que é o apertar de botão que faz como que surja a letra, tão simples quanto pegar um carimbo e sair imprimindo sua marca pelo mundo. Mesmo sem ter consciência daquilo, sem sentir-se pertencente, sem ter muito sentido humano, as crianças vão apreendendo, e de forma rápida, o que é mais importante.
Há um bom tempo vi uma reportagem dizer que o programa mais visto no canal Telecine era aquele que tinha uma grafia próxima da utilizada na internet pelos jovens: Naum, vc, kara, e outros são as palavras mais recorrentes. É impressionante! Perdoem-me os antropólogos que poderiam dizer que isso é uma re-significação e que tudo é cultura. Sinceramente, é uma re-significação escatológica. Temos de estreitar as relações entre cultura e capitalismo, e perceber como este último prejudica tanto o primeiro. Ou então, vamos todos fazer um culto a exacerbação do produtivismo e esperar até quando isso pode se suportar. Mas, enquanto isso e até que a morte nos separe, vamos mantendo nossa vocação de autômatos anônimos. Afinal, como para a máquina?
Não sei.
Sigo uma estranha e soturna voz que insiste em me cobrar:
Aperte os botões!!!